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Seis notas sobre as eleições em Israel

O escritor e fundador do Centro de Informação Alternativa de Jerusalém resume neste texto o seu balanço dos resultados das legislativas israelitas que reforçaram o poder de Netanyahu.

Contagem dos votos das eleições legislativas em Israel. Foto da Comissão Central Eleitoral/Instagram
Contagem dos votos das eleições legislativas em Israel. Foto da Comissão Central Eleitoral/Instagram

1. A vitória de Netanyahu

Não só Netanyahu venceu as eleições, mas o seu partido aumentou o número de representantes no novo Knesset de 30 para 36, um a mais que a lista dos chefes do Estado-Maior das Forças de Defesa de Israel (lista azul e branca). O seu grande sucesso foi possível atraindo os votos de outros partidos da extrema-direita: a lista do seu antigo ministro da Educação, Naftali Benett, e do seu antigo ministro da Justiça, Ayelet Shaked (A nova direita) não atingiram o patamar mínimo para entrar no Knesset. A campanha personalizada de Netanyahu (“eu ou a esquerda”) foi a escolha certa. O bloco da direita, dos partidos que tinham indicado ao longo da campanha que fariam parte da coligação de Netanyahu, representam 65 dos 120 membros do Knesset, ou seja, uma clara maioria antes mesmo de haver negociações.

2. Israel coloca-se mesmo à direita

Já não se pode negar: uma clara maioria da comunidade judia israelita partilha dos valores da direita, chauvinistas e racistas. O seu voto no Likud já não é um “voto de protesto”, mas uma escolha política e ideológica. O facto do chefe da direita ser suspeito de tantos casos de corrupção não prejudicou o seu apoio massivo.

3. Partido trabalhista: o fim

Com os seus seis deputados eleitos, o partido trabalhista prossegue a sua queda em direção ao programado fim. O partido que criou o Estado de Israel e que o ditigiu até 1977 é uma sombra do seu percurso histórico. Nas últimas eleições, teve ainda 24 deputados e podia querer ser uma alternativa ao Likud. Mas agora o seu declínio parece irreversível.

4. Um bom resultado para a lista dos “chefes do estado-maior”

Em poucos meses, os antigos chefes do estado-maior do exército israelita, sob a direção do general Beny Gantz, formaram uma nova lista. O seu único programa era ver-se livres do regime corrupto de Netanyahu. Entretanto, abstiveram-se de o atacar como poderiam ter feito, talvez para deixarem uma porta aberta a uma futura participação na coligação do Likud. A lista dos generais, aliada ao antigo ministro das Finanças Yair Lapid, obteve 35 deputados, um a menos que o Likud. É um sucesso, na verdade, mas inútil: a maioria dos partidos de centro-esquerda (como o partido trabalhista) perderam os seus eleitores para proveito da lista Azul e Branca; por isso, ao contrário de Netanyahu, Gantz não tem aliados potenciais para a constituição de uma eventual coligação alternativa.

5. O crescimento dos partidos ultra-religiosos

Os dois partidos ultra-religiosos — o bandeira da Torá e o Shas — conseguiram 15 deputados (contra os 13 das últimas eleições) e podem reforçar as suas tentativas bem sucedidas de fazer crescer o peso da religião no espaço público. Netanyahu parece estar pronto a dar-lhes uma parte das suas exigências (fechar mais lojas e reduzir os transportes públicos ao sábado).

6. Abstenção massiva da minoria palestiniana

Gantz e os seus apoiantes do centro-esquerda acusam os eleitores árabes de terem contribuído para a vitória de Netanyahu graças à sua abstenção em massa (cerca de 50%). Típico! Gantz recusou-se a denunciar sem margem para dúvidas a lei constitucional de “Israel enquanto Estado-nação do povo judeu” que enuncia formalmente a discriminação contra os cidadãos palestinianos de Israel. Porque é que a minoria palestiniana se devia mobilizar para apoiar a cópia de Netanyahu?

Além disso, os partidos palestinianos decidiram quebrar a unidade que, nas últimas eleições, permitiu aos palestinianos tornarem-se uma voz política calara da oposição ao racismo e à discriminação. Esta decisão, iniciada pelo deputado Ahmad Tibi — um oportunista bem conhecido — foi adotada pelo chefe do partido comunista Aimen Odeh. Foi um tiro no pé: os Tibi-comunistas só obtiveram seis deputados e, junto com o bloco nacional-islamista, os representantes árabes passaram de 13 para 10. Metade dos eleitores palestinianos decidiram abster-se, ou em protesto contra a nova lei ou exprimindo a sua desilusão pela travagem da unidade nacional.

Texto originalmente publicado na página do Facebook do autor. Reprodução da tradução de Luís Branco para o esquerda.net.
 

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

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