Da luta o povo não arreda o pé!
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Da luta o povo não arreda o pé!

Bolsonaro necessita neste momento derrotar a juventude para implementar seu plano econômico.

Rigler Aragão 6 jun 2019, 14:39

Já são 5 meses do Governo Bolsonaro e já é incalculável os retrocessos e absurdos que este promove em todas as áreas sociais. Fechou o Ministério do trabalho, transferiu a Funai para o Ministério da Mulher, da Família e do Direitos Humanos; aumentou a liberação de agrotóxicos, ampliou o porte de arma, incita a violência no campo contra trabalhadores rurais, promove o avanço do desmatamento na Amazônia  e apresenta o projeto de reforma da previdência que destruirá com o sistema de seguridade social no Brasil.

A educação está entre as áreas que foi profundamente atacada, 30% das verbas das universidades e institutos federais foram cortadas, 2,2 bilhões reais. Na educação básica o corte foi maior 2,4 bilhões de reais, recursos que estavam destinados para a construção de escolas, creches, compra de merenda escolar e transporte escolar. Bolsas de pesquisas dos cursos de pós-graduação também entraram no corte. O projeto para educação em andamento provocará maior exclusão do povo e aumentará a precarização do ensino e do desenvolvimento de ciência no país. Deputados da base de apoio e o próprio partido do presidente já cogitam a criação de projeto para cobrança de mensalidades nas universidades públicas.

Bolsonaro ao chamar de “idiotas úteis” as pessoas que foram para rua no dia 15/05, de forma clara, chama a juventude e os profissionais da educação para o confronto. Os quais elegeu desde sua campanha para presidente, como foco do exorcismo para banir as ditas ideologias do mal, colocadas como entrave para o desenvolvimento. A isso estão relacionadas a militarização das escolas, com maior força hoje no Distrito federal e a campanha de perseguição de professores, incentivando que estudantes filme seus professores, uma tentativa de jogar estudantes contra professores.

Na verdade, Bolsonaro teme a juventude. Precisamente, neste momento de choque popular com seu plano econômico ultra neoliberal, necessita derrotar o seu principal foco organizado de resistência, a juventude. Nos últimos anos de aprofundamento da crise política e econômica a juventude entrou em cena nas jornadas de junho de 2013, nos atos de denúncia da copa do mundo e nas ocupações de escolas de todo país.

Nesses anos foi forjada uma geração de jovens mulheres que ocuparam o espaço na política. Tiveram na linha de frente contra o avanço de pautas conservadoras encabeçada por Eduardo Cunha e Marcos Feliciano. Estiveram nas mobilizações da greve internacional das mulheres em 2017 que iniciou a resistência ao Governo Trump, contra o machismo e o feminicídio, com um perfil mais internacionalista e anticapitalista. Em 2018, durante o segundo turno, levou milhões as ruas contra a candidatura machista, homofóbica e racista de Bolsonaro. Temos uma geração de jovens mulheres que estão se construindo na luta e que acumularam força política e organização.    

Bolsonaro tem governado de costa para o povo. A proposta de reforma da previdência está sendo vendida como a salvação para todos os problemas, quando na verdade aprofundará a pobreza, pois, excluirá milhões de pessoas do direito a seguridade social. A reforma irá beneficiar banqueiros que controlarão o sistema de capitalização e potencializarão seus lucros que já são astronômicos.

Outro fato, são as condições econômicas que se deterioram cada vez mais. O número de desempregados chega próximo dos 14 milhões, aumentou o número de pessoas subempregadas ganhando menos de um salário mínimo chega a 27 milhões. O custo de vida está cada dia mais elevado devido aumento dos combustíveis e da energia elétrica, milhares de pessoas já voltaram a cozinhar à lenha, porque, não conseguem comprar um botijão de gás. A paciência do povo é cada vez menor para aguentar as velhas desculpas que a culpa é do governo anterior.    

Temos um governo que preza pelo conflito, que estabelece seus inimigos e reforça o cenário de polarização. Sua tentativa é de permanecer mobilizando seus apoiadores e continuar canalizando setores descontentes com o regime político. Bolsonaro não está preocupado com um sistema mais democrático, está a todo momento justificando a possibilidade de um golpe para governar sem se importar com a impressa, com o judiciário ou o parlamento, ele quer um regime autoritário, pois, no atual teria que compartilhar com muitos outros setores oportunistas da velha política de onde ele sempre fez parte.

Mesmo tentando passar a falsa ideia de um governo novo que não aceitará a velha política para governar, os fatos da realidade se apresentam com mais força. A começar pelos escândalos das candidaturas laranjas que envolve o PSL e o Ministro do Turismo. E agora com a quebra do sigilo fiscal do Flavio Bolsonaro a relação com as milícias, corrupção e a morte de Marielle podem ser uma grande tormenta para a família Bolsonaro. São fatos que combinados podem gerar profunda crise e possível derrota da reforma da previdência.

É hora de lutar, o governo tem demonstrado enfraquecimento político e perda de apoio popular. Segundo pesquisas de opinião, o número de pessoas que reprovam o governo aumentou, superando os que aprovam. O diálogo com a população neste momento de perda de ilusões no governo é fundamental para fortalecer a mobilização contra a retirada de direitos e, principalmente, defender a universidade enquanto patrimonio do povo brasileiro e sua importância para o desenvolvimento que, leve em conta os anseios de trabalhadores e trabalhadoras.

As manifestações dos dias 15 e 30/05 foram vitoriosas. Milhões de pessoas em mais ou menos 200 cidades do país foram as ruas contra os ataques do governo a educação e a previdência. Demonstraram o potencial de mobilização e disposição de lutar do povo, pincipalmente, da juventude. Foram os primeiros atos de massa contra o governo, uma reação inicial forte e contundente, que mostrou o processo de polarização da conjuntura e instabilidade política que se aprofunda.

Apesar de ser um ponto de inflexão na conjuntura, será necessário maior unidade e capacidade de mobilização para derrotar a pauta que unificar os setores burgueses e os mantém apoiando Bolsonaro. Por isso derrotar a reforma da previdência irá abalar a confiança da burguesia e causará um profundo enfraquecimento do governo.

Assim como houve elementos conjunturais que se combinaram com as fortes mobilizações em 2017 contra a reforma da previdência, que enfraqueceram Temer. Temos visto elementos semelhantes neste momento, o partido do presidente envolvido no escândalo das candidaturas laranjas e o envolvimento de seu filho, Flávio Bolsonaro, com as milícias, em que, cada vez que se aprofunda as investigações mais próximo de Bolsonaro se chega, mostra a relação familiar com as milícias do Rio de Janeiro e a morte de Marielle e Anderson. Investigação que pode provocar desmoronamento do governo e frear toda agenda ultra neoliberal. Esses temas devem fazer pauta de nossas mobilizações não podem ficar em segundo plano ou desprezadas, a esquerda tem que voltar a ser a referência da pauta contra a corrupção.

É claro que o parlamento não veria isso de prazos cruzados, e tentaria assumir o protagonismo e a direção da aplicação das reformas. Rodrigo Maia a todo momento deixa isso claro, tenta se preservar caso ocorra o enfraquecimento do governo. Como vivemos uma profunda crise política, todos os cenários são possíveis.

A única certeza que temos, é de apostar na mobilização da classe trabalhadora, sem fazer isso, em qualquer cenário perderemos. As centrais sindicais não podem dar um passo atrás na mobilização do dia 14/06. Mesmo passando por uma crise de representação com as formas tradicionais de organização da classe trabalhadora, os trabalhadores têm dado demonstração de energia para o enfrentamento os dias 15 e 30/05 são provas disso, das ruas o povo não arredou o pé!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.