Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

Da luta o povo não arreda o pé!

Bolsonaro necessita neste momento derrotar a juventude para implementar seu plano econômico.

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Já são 5 meses do Governo Bolsonaro e já é incalculável os retrocessos e absurdos que este promove em todas as áreas sociais. Fechou o Ministério do trabalho, transferiu a Funai para o Ministério da Mulher, da Família e do Direitos Humanos; aumentou a liberação de agrotóxicos, ampliou o porte de arma, incita a violência no campo contra trabalhadores rurais, promove o avanço do desmatamento na Amazônia  e apresenta o projeto de reforma da previdência que destruirá com o sistema de seguridade social no Brasil.

A educação está entre as áreas que foi profundamente atacada, 30% das verbas das universidades e institutos federais foram cortadas, 2,2 bilhões reais. Na educação básica o corte foi maior 2,4 bilhões de reais, recursos que estavam destinados para a construção de escolas, creches, compra de merenda escolar e transporte escolar. Bolsas de pesquisas dos cursos de pós-graduação também entraram no corte. O projeto para educação em andamento provocará maior exclusão do povo e aumentará a precarização do ensino e do desenvolvimento de ciência no país. Deputados da base de apoio e o próprio partido do presidente já cogitam a criação de projeto para cobrança de mensalidades nas universidades públicas.

Bolsonaro ao chamar de “idiotas úteis” as pessoas que foram para rua no dia 15/05, de forma clara, chama a juventude e os profissionais da educação para o confronto. Os quais elegeu desde sua campanha para presidente, como foco do exorcismo para banir as ditas ideologias do mal, colocadas como entrave para o desenvolvimento. A isso estão relacionadas a militarização das escolas, com maior força hoje no Distrito federal e a campanha de perseguição de professores, incentivando que estudantes filme seus professores, uma tentativa de jogar estudantes contra professores.

Na verdade, Bolsonaro teme a juventude. Precisamente, neste momento de choque popular com seu plano econômico ultra neoliberal, necessita derrotar o seu principal foco organizado de resistência, a juventude. Nos últimos anos de aprofundamento da crise política e econômica a juventude entrou em cena nas jornadas de junho de 2013, nos atos de denúncia da copa do mundo e nas ocupações de escolas de todo país.

Nesses anos foi forjada uma geração de jovens mulheres que ocuparam o espaço na política. Tiveram na linha de frente contra o avanço de pautas conservadoras encabeçada por Eduardo Cunha e Marcos Feliciano. Estiveram nas mobilizações da greve internacional das mulheres em 2017 que iniciou a resistência ao Governo Trump, contra o machismo e o feminicídio, com um perfil mais internacionalista e anticapitalista. Em 2018, durante o segundo turno, levou milhões as ruas contra a candidatura machista, homofóbica e racista de Bolsonaro. Temos uma geração de jovens mulheres que estão se construindo na luta e que acumularam força política e organização.    

Bolsonaro tem governado de costa para o povo. A proposta de reforma da previdência está sendo vendida como a salvação para todos os problemas, quando na verdade aprofundará a pobreza, pois, excluirá milhões de pessoas do direito a seguridade social. A reforma irá beneficiar banqueiros que controlarão o sistema de capitalização e potencializarão seus lucros que já são astronômicos.

Outro fato, são as condições econômicas que se deterioram cada vez mais. O número de desempregados chega próximo dos 14 milhões, aumentou o número de pessoas subempregadas ganhando menos de um salário mínimo chega a 27 milhões. O custo de vida está cada dia mais elevado devido aumento dos combustíveis e da energia elétrica, milhares de pessoas já voltaram a cozinhar à lenha, porque, não conseguem comprar um botijão de gás. A paciência do povo é cada vez menor para aguentar as velhas desculpas que a culpa é do governo anterior.    

Temos um governo que preza pelo conflito, que estabelece seus inimigos e reforça o cenário de polarização. Sua tentativa é de permanecer mobilizando seus apoiadores e continuar canalizando setores descontentes com o regime político. Bolsonaro não está preocupado com um sistema mais democrático, está a todo momento justificando a possibilidade de um golpe para governar sem se importar com a impressa, com o judiciário ou o parlamento, ele quer um regime autoritário, pois, no atual teria que compartilhar com muitos outros setores oportunistas da velha política de onde ele sempre fez parte.

Mesmo tentando passar a falsa ideia de um governo novo que não aceitará a velha política para governar, os fatos da realidade se apresentam com mais força. A começar pelos escândalos das candidaturas laranjas que envolve o PSL e o Ministro do Turismo. E agora com a quebra do sigilo fiscal do Flavio Bolsonaro a relação com as milícias, corrupção e a morte de Marielle podem ser uma grande tormenta para a família Bolsonaro. São fatos que combinados podem gerar profunda crise e possível derrota da reforma da previdência.

É hora de lutar, o governo tem demonstrado enfraquecimento político e perda de apoio popular. Segundo pesquisas de opinião, o número de pessoas que reprovam o governo aumentou, superando os que aprovam. O diálogo com a população neste momento de perda de ilusões no governo é fundamental para fortalecer a mobilização contra a retirada de direitos e, principalmente, defender a universidade enquanto patrimonio do povo brasileiro e sua importância para o desenvolvimento que, leve em conta os anseios de trabalhadores e trabalhadoras.

As manifestações dos dias 15 e 30/05 foram vitoriosas. Milhões de pessoas em mais ou menos 200 cidades do país foram as ruas contra os ataques do governo a educação e a previdência. Demonstraram o potencial de mobilização e disposição de lutar do povo, pincipalmente, da juventude. Foram os primeiros atos de massa contra o governo, uma reação inicial forte e contundente, que mostrou o processo de polarização da conjuntura e instabilidade política que se aprofunda.

Apesar de ser um ponto de inflexão na conjuntura, será necessário maior unidade e capacidade de mobilização para derrotar a pauta que unificar os setores burgueses e os mantém apoiando Bolsonaro. Por isso derrotar a reforma da previdência irá abalar a confiança da burguesia e causará um profundo enfraquecimento do governo.

Assim como houve elementos conjunturais que se combinaram com as fortes mobilizações em 2017 contra a reforma da previdência, que enfraqueceram Temer. Temos visto elementos semelhantes neste momento, o partido do presidente envolvido no escândalo das candidaturas laranjas e o envolvimento de seu filho, Flávio Bolsonaro, com as milícias, em que, cada vez que se aprofunda as investigações mais próximo de Bolsonaro se chega, mostra a relação familiar com as milícias do Rio de Janeiro e a morte de Marielle e Anderson. Investigação que pode provocar desmoronamento do governo e frear toda agenda ultra neoliberal. Esses temas devem fazer pauta de nossas mobilizações não podem ficar em segundo plano ou desprezadas, a esquerda tem que voltar a ser a referência da pauta contra a corrupção.

É claro que o parlamento não veria isso de prazos cruzados, e tentaria assumir o protagonismo e a direção da aplicação das reformas. Rodrigo Maia a todo momento deixa isso claro, tenta se preservar caso ocorra o enfraquecimento do governo. Como vivemos uma profunda crise política, todos os cenários são possíveis.

A única certeza que temos, é de apostar na mobilização da classe trabalhadora, sem fazer isso, em qualquer cenário perderemos. As centrais sindicais não podem dar um passo atrás na mobilização do dia 14/06. Mesmo passando por uma crise de representação com as formas tradicionais de organização da classe trabalhadora, os trabalhadores têm dado demonstração de energia para o enfrentamento os dias 15 e 30/05 são provas disso, das ruas o povo não arredou o pé!

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

MES: Movimento Esquerda Socialista MES: Movimento Esquerda Socialista