Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A greve feminista de 14 de junho, rumo a um movimento de massas na Suíça

Movimento mobilizou mais de meio milhão de pessoas.

A construção da greve feminista e feminina* na Suíça durou um ano inteiro e exigiu muitos esforços. De maneira geral, a construção de um movimento social e de protesto – num país onde reinam os partidos de direita e onde a principal arma das trabalhadoras e trabalhadores que é a greve, está nas mãos dos patronato, através da Pax Laboral[1] – não é uma tarefa fácil. No entanto, a greve feminista e de mulheres mobilizou mais de meio milhão de pessoas na última sexta-feira. Uma mobilização política histórica que ultrapassou a greve de 1991, tanto em números[2] quanto em repertórios de ações ou no nível de contestação social. Deve-se lembrar que o movimento atual denuncia abertamente a economia capitalista que pesa nas costas das mulheres*, algo que não estava presente em 1991!

Se a greve de 2019 assumiu uma escala sem precedentes, isso deve-se, especialmente, à sua natureza descentralizada. A partir do momento em que os coletivos nos bairros, nos locais de trabalho e de ensino foram criados, as mulheres* tomaram posse desse método necessário de ação política que a greve. A difusão e a preparação descentralizada popularizaram a greve, o que permitiu construir uma ampla frente de contestação.

No entanto, atualmente, resta fazer o trabalho político mais difícil. Depois de ter conseguido mobilizar tantas pessoas em torno das reivindicações do manifesto da greve[3] – sobre a relação com o corpo, com o trabalho ou com o espaço público – devemos absolutamente trabalhar para garantir um movimento social permanente e inclusivo que se reivindique enquanto um feminismo da totalidade, ou seja, um feminismo que não reproduza opressões contra outras categorias sociais[4]. Como ativistas feministas, antirracistas e anticapitalistas, devemos recusar o feminismo do Estado e assegurar que este movimento emergente se torne o mais amplo possível. A partir de agora, temos de estar atentas e atentos à forma que este movimento pode assumir, bem como à sua ancoragem política. O mesmo se aplica à estratégia política a ser adotada. Desenvolver um novo programa de reivindicações, a partir da (nova?) composição social do movimento? Manter as reivindicações, tornando mais visíveis as que até agora estavam implícitas, principalmente no que se refere ao racismo e à islamofobia da sociedade que afetam as mulheres muçulmanas, ciganas ou trabalhadoras sexuais? Procurar incluir em nossas reflexões, ações, manifestos, as pessoas cujas condições e direitos foram até agora mantidos invisíveis?

Uma coisa é certa, temos de continuar a evidenciar o trabalho reprodutivo feito pelas mulheres, defender o desenvolvimento dos serviços públicos, a redução geral do tempo de trabalho, mas também combater as políticas de austeridade que se impõem à agenda política e que impactam particularmente às mulheres mais vulneráveis e imigrantes, como é o caso do aumento da idade para se aposentar, da proibição do uso da burca ou ainda do aumento dos preços dos seguros de saúde! No entanto, combater as políticas elitistas e racistas não é suficiente para criar um movimento revolucionário ao qual tanto aspiramos. Para que ele seja verdadeiramente revolucionário e emancipatório, devemos promover ideias e trabalhar pelas liberdades de todas e todos. Somente por meio desse processo de conscientização, de politização e de reflexão coletiva – diretamente a partir da base e que já começou – é que nós conseguiremos nos colocar no centro do debate e das reivindicações das 99%[5].

Notas:

[1] A expressão original é “pax du travail”, “paz do trabalho”. Na Suíça, o direito a greve é mais restrito aos trabalhadores em comparação ao Brasil. A justificativa para isso é que, para os suíços, tudo pode ser resolvido diplomaticamente, incluindo conflitos entre patrões e empregados. Na prática, isso é usado para submeter a população a terríveis condições de trabalho e não permitir que eles se mobilizem contra isso por meio de greves.

[2] Ate a tradicional USS (União Sindical Suissa) informe mais de 500 000 pessoas : https://www.uss.ch/themes/egalite-des-sexes/article/details/la-plus-grande-manifestation-politique-de-lhistoire-recente-un-signal-clair-pour-une-marche-rapide-vers legalite/?fbclid=IwAR3Ku5jwKmr85OTbSd2nPl3Xoa4S9i8HYEJF4bbNZlLwmEfpyeN6tQbBmp4

[3] https://frauenstreik2019.ch/wp-content/uploads/2019/01/manifeste_greve-14.06.19.pdf

[4] Pour un féminisme de la totalité, Paris: Editions Amsterdam, 2017, (sous la dir. de Félix Boggio Ewanjé-Epée, Stella Magliani-Belkacem, Morgane Merteuil, Frédéric Monferrand)

[5] Faz referencia ao titulo do manifeste de C. Arruzza, T. Bhattacharya et N. Fraser (2019),¨Feminismo para os 99%”

Tradução de Allain Geffrouais. Reprodução da versão publicada pelo Portal da Esquerda em Movimento.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

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