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As lições de Stonewall

50 anos da batalha que marcou história da luta por direitos LGBTs no mundo

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A Revolta de Stonewall, que completa 50 anos no dia 28 de Junho de 2019, é talvez o acontecimento mais importante da história moderna para as LGBTs, que inspirou e inspira pessoas do mundo inteiro a manter viva a luta pelo livre direito à orientação sexual e à identidade de gênero. Relembrar essa luta não tem apenas um papel histórico, mas deve servir para preparar o movimento LGBT para as duras lutas que temos enfrentado e ainda vamos enfrentar.

Stonewall fez parte da efervescência política que tomou o mundo em 1968 com um caráter antissistêmico, colocando em marcha milhões ao redor do globo. O crescimento dos movimentos por direitos civis, como a luta antirracista, criou um ambiente propício para o desenvolvimento da luta LGBT, inspirando o surgimento de uma parcela mais militante, em especial na costa leste dos EUA (Poindexter, 1997).

Desde o começo do século XX, existiam grupos nos Estados Unidos que se juntavam para explorar questões relativas à sexualidade. A década de 1950 viu nascer algumas organizações homófilas¹ e expressões culturais da libertação sexual como a geração Beatnik. Em 1967, estudantes das universidades de Colombus e Nova York criaram os primeiros grupos homófilos nessas instituições; a primeira livraria gay foi fundada; e The Advocate, o primeiro jornal gay daquela nova geração, foi publicado em Los Angeles (Appenroth, 2015). Eram organizações ainda incipientes mas que abriram espaço para o que viria.

A perseguição às LGBTs na época era brutal. Até 1973, a homossexualidade e a transgeneridade eram tidas como doenças mentais pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), e os atos sexuais entre pessoas do mesmo gênero eram criminalizados em todos os estados americanos, com exceção de Illinois, na década de 1960 (Notaro, 2017).

O senador Joseph McCarthy realizava audiências para tentar encontrar e retirar homossexuais de dentro do governo e de instituições americanas, por serem considerados tão perigosos quantos os comunistas. Sob acusação de serem homossexuais, milhares de pessoas tinham empregos negados, eram expulsas do exército e sofriam demissão de cargos públicos.

As licenças para vender bebida eram negadas em bares frequentados por homossexuais, e esses bares eram frequentemente invadidos pela polícia, levando presa uma parcela da clientela (em geral as travestis e pessoas negras), e liberando o restante para que dispersassem.

A noite em que tudo mudou

Em uma dessas batidas, algo fora do comum aconteceu e uma conjunção de fatores produziu algo inédito até então. Pela primeira vez as LGBTs se levantaram em resposta aos abusos e violências que sofriam e deram uma resposta coletiva e radicalizada.

Na madrugada do dia 28 de Junho de 1969, quando a polícia entrou no Stonewall Inn e começou a fazer as prisões, havia algo diferente. Conforme algumas pessoas iam sendo liberadas, elas não se dispersaram como era o usual, mas foram se juntando em frente ao bar. E ao invés de aceitarem pacificamente a violência e as prisões, os clientes reagiram. Quando a polícia bateu com o cassetete em uma travesti, a situação esquentou e a multidão, que até então estava só assistindo, começou a jogar pedras, moedas entre outras coisas em cima da polícia. Mas foi só quando uma lésbica resistiu à prisão e foi arremessada dentro da viatura que a revolta realmente começou.

A multidão – que vinha crescendo quando outras pessoas souberam o que aconteceu – ficou mais violenta e os policiais se fecharam dentro do bar. Algum manifestante pegou um parquímetro do lado de fora e quebrou a janela, e a partir de então começaram a jogar coquetéis Molotov e lixeiras pegando fogo para incendiar o bar. Foi quando a TPF chegou (Tactical Patrol Force²) pra tentar acabar com a revolta. Ainda assim, a multidão resistiu com táticas para se reagrupar e com drag queens³ na linha de frente, fazendo coreografias e cantando:

“We are the Stonewall girls,
We wear our hairs in curls.
We wear no underwear
We show our pubic hairs”4 (Nelson, 2015)

Somente por volta das 4h da manhã a polícia conseguiu retomar o controle da rua, com 13 manifestantes presos. Mais tarde, na noite do dia 28, cerca de 2 mil pessoas se reuniram em frente ao Stonewall Inn e fecharam a rua. Novamente a TPF veio para tentar controlar a manifestação. Mesmo com toda a brutalidade policial, não conseguiam parar a multidão e os enfrentamentos entraram madrugada a dentro. Os cassetetes não mais eram suficientes, as LGBTs haviam se levantado.

Se passaram dois dias de relativa tranquilidade, com ações pontuais, até que na quarta-feira, dia 2 de Julho, um novo protesto reuniu mais de mil pessoas, com apoio de organizações da esquerda e em resposta à cobertura LGBTfóbica feita pelos jornais da época. Foi o mais violento até então, “colocaram fogo em lixeiras na rua, lojas foram quebradas, ao mesmo tempo em que havia confronto físico com a polícia”5 (Nelson, 2015). Esse foi o último dos 5 dias de revolta, impondo uma derrota à polícia e à prefeitura de Nova York, e abrindo uma nova etapa para a luta LGBT.

Este artigo faz parte da edição n. 13 da Revista Movimento. Para ler o texto completo, compre a revista aqui!

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Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

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