As lições de Stonewall
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As lições de Stonewall

50 anos da batalha que marcou história da luta por direitos LGBTs no mundo

Bruno Zaidan 26 jul 2019, 17:56

A Revolta de Stonewall, que completa 50 anos no dia 28 de Junho de 2019, é talvez o acontecimento mais importante da história moderna para as LGBTs, que inspirou e inspira pessoas do mundo inteiro a manter viva a luta pelo livre direito à orientação sexual e à identidade de gênero. Relembrar essa luta não tem apenas um papel histórico, mas deve servir para preparar o movimento LGBT para as duras lutas que temos enfrentado e ainda vamos enfrentar.

Stonewall fez parte da efervescência política que tomou o mundo em 1968 com um caráter antissistêmico, colocando em marcha milhões ao redor do globo. O crescimento dos movimentos por direitos civis, como a luta antirracista, criou um ambiente propício para o desenvolvimento da luta LGBT, inspirando o surgimento de uma parcela mais militante, em especial na costa leste dos EUA (Poindexter, 1997).

Desde o começo do século XX, existiam grupos nos Estados Unidos que se juntavam para explorar questões relativas à sexualidade. A década de 1950 viu nascer algumas organizações homófilas¹ e expressões culturais da libertação sexual como a geração Beatnik. Em 1967, estudantes das universidades de Colombus e Nova York criaram os primeiros grupos homófilos nessas instituições; a primeira livraria gay foi fundada; e The Advocate, o primeiro jornal gay daquela nova geração, foi publicado em Los Angeles (Appenroth, 2015). Eram organizações ainda incipientes mas que abriram espaço para o que viria.

A perseguição às LGBTs na época era brutal. Até 1973, a homossexualidade e a transgeneridade eram tidas como doenças mentais pela Associação Psiquiátrica Americana (APA), e os atos sexuais entre pessoas do mesmo gênero eram criminalizados em todos os estados americanos, com exceção de Illinois, na década de 1960 (Notaro, 2017).

O senador Joseph McCarthy realizava audiências para tentar encontrar e retirar homossexuais de dentro do governo e de instituições americanas, por serem considerados tão perigosos quantos os comunistas. Sob acusação de serem homossexuais, milhares de pessoas tinham empregos negados, eram expulsas do exército e sofriam demissão de cargos públicos.

As licenças para vender bebida eram negadas em bares frequentados por homossexuais, e esses bares eram frequentemente invadidos pela polícia, levando presa uma parcela da clientela (em geral as travestis e pessoas negras), e liberando o restante para que dispersassem.

A noite em que tudo mudou

Em uma dessas batidas, algo fora do comum aconteceu e uma conjunção de fatores produziu algo inédito até então. Pela primeira vez as LGBTs se levantaram em resposta aos abusos e violências que sofriam e deram uma resposta coletiva e radicalizada.

Na madrugada do dia 28 de Junho de 1969, quando a polícia entrou no Stonewall Inn e começou a fazer as prisões, havia algo diferente. Conforme algumas pessoas iam sendo liberadas, elas não se dispersaram como era o usual, mas foram se juntando em frente ao bar. E ao invés de aceitarem pacificamente a violência e as prisões, os clientes reagiram. Quando a polícia bateu com o cassetete em uma travesti, a situação esquentou e a multidão, que até então estava só assistindo, começou a jogar pedras, moedas entre outras coisas em cima da polícia. Mas foi só quando uma lésbica resistiu à prisão e foi arremessada dentro da viatura que a revolta realmente começou.

A multidão – que vinha crescendo quando outras pessoas souberam o que aconteceu – ficou mais violenta e os policiais se fecharam dentro do bar. Algum manifestante pegou um parquímetro do lado de fora e quebrou a janela, e a partir de então começaram a jogar coquetéis Molotov e lixeiras pegando fogo para incendiar o bar. Foi quando a TPF chegou (Tactical Patrol Force²) pra tentar acabar com a revolta. Ainda assim, a multidão resistiu com táticas para se reagrupar e com drag queens³ na linha de frente, fazendo coreografias e cantando:

“We are the Stonewall girls,

We wear our hairs in curls.

We wear no underwear

We show our pubic hairs”4 (Nelson, 2015)

Somente por volta das 4h da manhã a polícia conseguiu retomar o controle da rua, com 13 manifestantes presos. Mais tarde, na noite do dia 28, cerca de 2 mil pessoas se reuniram em frente ao Stonewall Inn e fecharam a rua. Novamente a TPF veio para tentar controlar a manifestação. Mesmo com toda a brutalidade policial, não conseguiam parar a multidão e os enfrentamentos entraram madrugada a dentro. Os cassetetes não mais eram suficientes, as LGBTs haviam se levantado.

Se passaram dois dias de relativa tranquilidade, com ações pontuais, até que na quarta-feira, dia 2 de Julho, um novo protesto reuniu mais de mil pessoas, com apoio de organizações da esquerda e em resposta à cobertura LGBTfóbica feita pelos jornais da época. Foi o mais violento até então, “colocaram fogo em lixeiras na rua, lojas foram quebradas, ao mesmo tempo em que havia confronto físico com a polícia”5 (Nelson, 2015). Esse foi o último dos 5 dias de revolta, impondo uma derrota à polícia e à prefeitura de Nova York, e abrindo uma nova etapa para a luta LGBT.

Os atores políticos

Ao contrário do que alguns filmes e narrativas buscam construir, Stonewall não foi protagonizada por gays brancos de classe média. Pelo próprio caráter de classe das LGBTs na época, marcado pela marginalização, o Stonewall Inn era majoritariamente frequentado por pessoas negras e latinas, que eram jovens que haviam sido expulsos de casa e não tinham onde morar, prostitutas e garotos de programa, travestis e drag queens, uma parcela – embora minoritária – de lésbicas.

Por terem pouco ou nada a perder, enfrentaram a polícia com altivez e deram resposta à violência com sua radicalização. Não à toa, as primeiras pessoas a serem presas foram as travestis. Duas travestis, Marsha P. Johnson e Sylvia Rivera, são o exemplo do protagonismo desse setor antes, durante e após a revolta. Rivera (2001) conta que arremessou o segundo coquetel Molotov na madrugada do 28. Mais tarde, as duas fundaram um coletivo chamado STAR6, que deu origem à primeira casa de acolhimento para jovens trans e travestis.

A radicalização era oposta ao que defendiam alguns grupos homófilos. Quando os protestos começaram a se fortalecer, um desses grupos, o Mattachine Society, tentou atuar para que eles não tivessem continuidade. Isso porque defendiam que os homossexuais tivessem uma inclusão gradual no sistema, marcada pela adaptação ao modo de vida cisheteronormativo. Sustentavam que o papel do movimento era convencer os heterossexuais de que nós somos iguais a eles, e para isso deveríamos nos portar o mais parecido com eles possível.

No entanto, isso não era uma opção para todos. Aqueles que são vistos como corpos abjetos na nossa sociedade não conseguem se misturar aos demais, e portanto têm como única solução a luta social para explodir os armários e garantir o seu espaço. Buscam domesticar esses corpos porque eles produzem modos de vida que ameaçam um sistema que se utiliza da opressão para manter a exploração e a desigualdade social.

O legado de Stonewall

Os acontecimentos da Revolta de Stonewall pulsam até hoje e trazem luz a questões importantes para o movimento LGBT. Pra além de seus efeitos imediatos ou de curto prazo, como a explosão no número de organizações com essa pauta nos Estados Unidos e a criação da primeira Parada LGBT do mundo no dia 28 de Junho de 1970, Stonewall inaugurou uma nova perspectiva para o movimento ao colocar a mobilização e a luta coletiva no centro e espalhar o exemplo pelo mundo.

Foi isso que possibilitou avanços fundamentais que tivemos nas últimas décadas pelo mundo, como a despatologização da homossexualidade e da transgeneridade, a derrota de muitas leis que proíbem relações do mesmo sexo, o avanço do casamento civil igualitário, o fortalecimento do combate ao HIV/AIDS, algumas leis que garantem o direito à identidade de gênero, entre diversas outras conquistas.

Entretanto, em parte pela característica pluriclassista do movimento LGBT, uma parcela significativa do movimento foi cooptada pela ideologia do neoliberalismo progressista, da promessa de um reconhecimento sem que a estrutura econômica e política da sociedade seja mexida, se afastando de uma estratégia de transformação radical.

Essa revolta, que segue produzindo efeitos 50 anos depois, trouxe consigo o embrião de um movimento LGBT com potencial para esgarçar os limites do sistema e apresentar uma saída para o conjunto da sociedade. Para destacar três elementos que ilustram isso:

i) Perfil. O movimento LGBT não pode ser apenas uma sigla, mas deve se realizar como tal. Stonewall construiu uma identidade real entre travestis, pessoas trans, lésbicas, bissexuais e gays, que se materializa em muitos outros momentos, e não à toa constitui um movimento. Essa identidade, no entanto, se conforma como uma identidade de resistência (Castells, 1999) a partir de grupos oprimidos e se manifesta apenas na defesa de direitos e no enfrentamento a retrocessos.

Existe um desafio colocado para o movimento desde então, que é a construção de uma identidade não só de resistência, mas de projeto, que possa construir sujeitos sociais capazes de apresentar uma resposta coletiva e global à sociedade para a liberdade de orientação sexual e identidade de gênero, e também para o fim da opressão e exploração de conjunto.

ii) Radicalidade. A violência a que eram submetidas as LGBTs era brutal. Vimos aqui alguns exemplos, mas que não chegam a captar a profundidade do que o Estado e a sociedade impunham às LGBTs como forma de buscar a sua domesticação. Portanto, a ação direta e radical, aliada à comoção popular (as revoltas chegaram a contar até com héteros aliados), cumpriu um papel de colocar um freio no avanço dessa brutalidade e abrir espaço para o nosso avanço. Ao mesmo tempo, o confronto direto com a polícia possibilitou um desenvolvimento da consciência acerca do caráter de classe do Estado, dando um caráter antissistêmico à revolta.

iii) Independência política. Com o advento da AIDS no começo da década de 1980, o movimento LGBT deu um giro para o combate à infecção e passou com isso a estabelecer relações mais profundas com o Estado, se organizando a partir de ONGs, conselhos e instituições. Retomar Stonewall é produzir também uma reflexão sobre a necessidade de um movimento LGBT que seja independente, não apenas do Estado, mas também das empresas.

Um exemplo são as Paradas LGBT, que são espaços fundamentais para dar visibilidade às diferentes orientações sexuais e identidades de gênero e colocar na ordem do dia a pauta LGBT. No entanto, ao longo dos últimos anos, essas Paradas vêm sendo cada vez mais sequestradas pelo neoliberalismo progressista, com uma maioria de trios de empresas que disputam o sentido das Paradas e da pauta para uma inclusão pelo consumo ao invés de permitir o avanço da reivindicação por direitos e modificações estruturais.

Ecos da revolta no Brasil

Inspirados pela bravura das LGBTs norte-americanas, também no Brasil diversas organizações e coletivos foram criados a partir da década de 1970. O Grupo Somos foi um dos principais nesse período, e deu origem a vários outros mais tarde como o Grupo Ação Lésbica Feminista (GALF). O jornal Lampião da Esquina cumpriu um papel importante na ampliação do alcance e visibilidade do debate feito pelo movimento à época. Em 1980, se realizou a primeira manifestação do movimento homossexual e lésbico no Brasil, em resposta a uma operação policial contra prostitutas, travestis e homossexuais que chegou a prender mais de 1500 pessoas em uma noite.

Como reflexo político dessa luta social travada no começo da década de 80, em 1982 surge a primeira candidatura abertamente LGBT. Zezinho, que fazia parte da Democracia Socialista (DS), corrente interna ao PT, fez sua campanha a vereador de Porto Alegre com o mote “Desobedeça”, e tinha como uma de suas principais bandeiras “João ama Pedro! Por que não?”, trazendo pro debate político a questão homossexual.

O desenvolvimento do movimento LGBT no Brasil está colocado como uma necessidade para reverter a situação reacionária em que nos encontramos. Temos hoje um presidente abertamente LGBTfóbico, que estimula o discurso de ódio e busca construir uma maioria social para retroceder sobre todos os avanços que tivemos na última década. Nos 50 anos de Stonewall, é preciso nos inspirar naqueles que vieram antes de nós e construir um Stonewall à brasileira capaz de levantar a cabeça das LGBTs e derrotar esse projeto para o país.

Notas

¹ Homófilo (ou homophile em inglês) era um sinônimo de homossexual utilizado na época

² Força de Patrulha Tática, em português. Era um batalhão de choque, criado para instigar medo nas comunidades, e conhecidos por usar técnicas violentas pra dispersar multidões.

³ Na época, os termos drag queen, travesti e transgêneros eram muitas vezes usados de forma intercambiável.

4 “Nós somos as garotas de Stonewall / Nós usamos nossos cabelos cacheados / Nós não usamos roupas íntimas / Nós mostramos nossos pelos pubianos”, em tradução livre.

5 Tradução livre

6 Street Transvestites Action Revolutionaries

Referências bibliográficas

APPENROTH, Max Nicolai (2015). “The cis-washing of the Stonewall Riots–Why trans* activists can’t be heroes.”

CASTELLS, M. (1999). O poder da identidade (vol. II). São Paulo, Paz e Terra.

NELSON, T. R. (2015). A Movement on the Verge: The Spark of Stonewall.

NOTARO, S. R. (2017). The Stonewall Riots: Moving from the Margins to the Mainstream. In The Power of Resistance: Culture, Ideology and Social Reproduction in Global Contexts (pp. 143-164). Emerald Publishing Limited. POINDEXTER, C. C. (1997). Sociopolitical antecedents to Stonewall: Analysis of the origins of the gay rights movement in the United States. Social Work, 42(6), 607-615.

Este artigo faz parte da edição n. 13 da Revista Movimento. Compre a revista aqui!


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