João Saldanha foi um brasileiro raro, destemido e carismático

O jornalista e técnico de futebol completaria 102 anos.

Juca Kfouri 3 jul 2019, 17:46

Nesta segunda João Saldanha completaria 100 anos.

Acordaria cedo para voar para São Paulo onde comentaria, na Arena Corinthians, a partida de seu Botafogo.

Estaria feliz com o desempenho do time que cumpre campanhas surpreendentes desde o ano passado, mesmo com investimentos muito mais modestos que o de seus rivais.

Assim mesmo, crítico da europeização de nosso futebol, gostaria de vê-lo mais ofensivo e envolvente.

E se irritaria profundamente com a propaganda do patrocinador na camisa do Glorioso, inconformado também com as placas de publicidade em torno do gramado.

Comunista de carteirinha, não se conformaria com certas modernidades que atribuiria à queda do Muro de Berlim, oito meses antes de sua morte em Roma, em plena Copa da Itália, em julho de 1990, onde estava para trabalhar em cadeira de rodas, vítima de enfisema pulmonar, tabagista militante.

O combativo João Sem Medo não tinha dúvida sobre certos assuntos.

A invasão do Exército Vermelho na antiga Tchecoslováquia, que horrorizou muitos comunistas no mundo e no Brasil, era explicada por ele em linguagem futebolística: “Dividiu na zona do agrião tem de entrar de sola”. E “vida que segue”, um de seus bordões prediletos.

No auge da carreira como comentarista de rádio seria impossível ir ao Maracanã sem ouvi-lo, mesmo que você não quisesse. Seus comentários ecoavam estádio adentro, tamanha a popularidade que desfrutava, imenso poder de comunicação não apenas ao falar, porque também escrevia, em suas colunas no “Jornal do Brasil”, como falava.

Despreocupado em ser politicamente correto, não gostava nem um pouco de futebol feminino. Certa vez, numa festa do jornal “Voz da Unidade”, do PCB novamente legalizado depois do fim da ditadura implantada em 1964, não se fez de rogado ao ser perguntado sobre o tema: “Imagine a cena. Meu filho me apresenta a namorada, eu pergunto o que ela faz e ela me diz que é zagueira do Bangu’. Não dá”, lascou, abrindo os braços e entortando a cabeça, para receber carinhosa e estrepitosa vaia de plateia majoritariamente feminina.

Leal e irreverente, Saldanha contava casos como ninguém e era capaz de falar por horas de suas fabulosas experiências mundo afora.

Sob seu comando como técnico de primeira viagem, o Botafogo ganhou o Campeonato Carioca de 1957 ao derrotar o Fluminense por 6 a 2 na decisão.

Também como treinador das “Feras do Saldanha” levou a seleção brasileira à Copa do Mundo de 1970, a do tricampeonato no México, com seis vitórias em seis jogos.

O medo da ditadura em vê-lo campeão do mundo causou sua queda, poucos meses antes do começo da Copa.

O “comentarista que o Brasil inteiro consagrou” era tão simples como explosivo, sangue gaúcho nas veias que o Rio de Janeiro transformou em carioca da gema.

Itaquera não terá hoje a alegria de recebê-lo. Nem nós, seus órfãos, poderemos saborear a riqueza de reencontrá-lo.

Tomara que o Corinthians ganhe de seu Botafogo neste domingo.

Só para que eu possa ouvi-lo dizer mais uma vez: “Ah, seu Corinthians é nosso freguês”.

(De fato. Os cariocas têm 45 vitórias contra 36 derrotas.)

Artigo originalmente publicado no jornal Folha de S.Paulo.

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