Porto Rico: a população sai à rua contra o sexismo, a homofobia, a austeridade e a corrupção

As manifestações atingiram o cume com quase 100.000 pessoas nas ruas de San Juan.

Pierre Gottiniaux 31 jul 2019, 15:08

A 11 de julho, uma fonte anônima publicou mensagens pessoais da conta Telegram (aplicação de mensagens encriptadas equivalente ao Whatsapp) do governador, que tem ligações pessoais a Donald Trump. Dois dias mais tarde, o Centro de Jornalismo de Investigação de Porto Rico publicou-as na Internet, revelando mensagens de um tom profundamente misógino e homofóbico, enviadas pelo governador Rossello e por vários homens políticos próximos dele. Dois deles demitiram-se imediatamente após a publicação, nomeadamente o secretário de Estado Luis Rivera Marín. Mas isto não bastou para acalmar a cólera da população, que começou a juntar-se na rua a partir do momento em que o escândalo rebentou.

As manifestações atingiram um ponto alto a 17 de julho, com quase 100.000 pessoas nas ruas de San Juan, a capital, quando um consórcio de jornalistas revelou uma «rede de corrupção de vários milhões de dólares», envolvendo várias empresas públicas.

Desde 2016 que Porto Rico está sujeito ao controlo de um conselho de supervisão financeira (Financial Oversight Board) instaurado pela lei PROMESSA (Puerto Rico Oversight, Management and Economic Stability Act), aprovada na época da administração Obama. O objetivo desse conselho de representantes não eleitos é instaurar um plano de reembolsos aos credores da ilha (principalmente grandes fundos de investimento norte-americanos), por meio da aplicação de um plano radical de austeridade que inclui o encerramento de escolas, enormes cortes nas pensões e sobretudo a recusa de qualquer investimento na economia local, nas infraestruturas ou nas políticas sociais.

Foi neste contexto, e ilustrando perfeitamente a Teoria do Choque de Naomi Klein, que a ilha foi devastada, duas vezes consecutivas, por furacões que causaram enormes estragos, mataram mais de 3000 pessoas e destruíram a rede elétrica. Foram precisos mais de 11 meses para restaurar a corrente em toda a ilha, o que fez crescer ainda mais o número de vítimas resultantes do furacão, da falta de manutenção da rede elétrica e das escolhas catastróficas feitas durante a gestão da crise. As revelações do consórcio de jornalistas confirmaram largamente este ponto.

Para restaurar a rede elétrica, detida pela empresa pública PREPA (Puerto Rican Electric Power Authority), esta começou por assinar um contrato com uma empresa que não tinha qualquer experiência na região mas que mantinha laços estreitos com o secretário do Ministério do Interior, Ryan Zinke. O contrato acabou por ser anulado e novo contrato foi assinado com uma empresa ligada ao gigante das energias fósseis Mammoth Energy Services, apesar de a situação na ilha e a sua exposição aos furacões terem demonstrado à saciedade que é necessário recorrer à produção local de energias renováveis.

Ricardo Rossello certamente não conseguirá resistir a esta vaga de descontentamento. Os seus adversários políticos já estão a preparar um recurso judicial para tentarem obter o seu impedimento (impeachment). Mas nada disto anulará o mal já feito, nem mudará o programa do conselho de supervisão financeira, que prosseguirá na sua rota de austeridade, a favor dos credores da ilha, que dela sacam lucros monumentais. Entretanto, a época dos tornados está agora a começar…

Recordemos que o CADTM internacional foi a Porto Rico em dezembro de 2018 e que o seu parceiro local – a frente cívica pela auditoria da dívida – aí organizou um programa de atividades muito produtivo.

Reprodução da tradução de Rui Viana Pereira para o site de CADTM.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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