Arquivo 29  de agosto: Dia da Visibilidade Lésbica
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Arquivo 29 de agosto: Dia da Visibilidade Lésbica

É preciso fazer o exercício contínuo de contar a história dessa parcela da população.

Sara Azevedo 29 ago 2019, 19:22


A história como nos é contada é asséptica. Sem cor, sem gênero, sem povo. Somos fruto de toda a história da humanidade, especialmente a história da luta de classes. O que me faz lembrar de Eduardo Galeano, parafraseando um provérbio africano que diz: “Até que os leões tenham seus próprios historiadores, as histórias de caçadas continuarão glorificando o caçador.” E no dia de hoje, em que marcamos o Dia da Visibilidade Lésbica, temos de ter o exercício contínuo de contar a nossa própria história e pincelá-la com todas as cores e dores que nos fazem ser quem somos hoje nesta sociedade.

Nossas dores não têm números. Somos várias, mortas e violentadas por sermos quem somos e assumirmos ao mundo nossa sexualidade e afetividade. Em estudo inédito do Grupo de Estudo Lesbocídio, somente entre 2014 e 2017 foram registradas 126 mortes. Esses dados são obtidos por redes sociais, sites, jornais e noticiários. Aliada a isso, a falta de saúde pública específica nos faz contrair doenças sexualmente transmissíveis pelo simples fato de não sermos um público relevante aos laboratórios e farmacêuticos.

Nossas cores são manchadas pela invisibilidade constante –  seja no meio social, seja no meio político. Somos poucas nas casas legislativas, sendo que na maior delas, a Câmara Federal, não temos representação. O preconceito e a discriminação contra a existência lésbica causa consequências irremediáveis, levando de nós referências como Marielle Franco.

Ainda assim, persistimos. A lesbofobia, assim como todas as fobias de gênero e sexualidade, é parte de uma ideologia dominante, calcada no patriarcado, em ter repulsa pelo feminino, julgando assim necessária a presença masculina em todo e qualquer relacionamento. Ao negar o feminino, tentam negar e esconder a nossa história.

O amor entre duas mulheres, sejam elas cisgêneras ou transgêneras, continua sendo símbolo de resistência. Lembremo-nos das mulheres que subverteram a ordem, em meio a ditadura civil-militar brasileira, para vender o seu jornal “Chanacomchana” no bar Ferros em SP. Lembremo-nos daquelas mulheres que em 1996 fizeram pela primeira vez um Seminário Nacional de Lésbicas. Lembremos, pois, neste cenário regressivo político nacional, que o amor é subversivo. O governo Bolsonaro que censura filmes com temáticas LGBTs, proibindo o patrocínio pela Ancine a produções com essa temática, tenta mais uma vez violar os direitos e a visibilidade conquistada nos últimos anos.

Por isso, um recado: não seremos nós a geração de sapatões que voltará para os armários.

Artigo originalmente publicado no site do PSOL.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.