Revista Movimento Movimento Movimento: crítica, teoria e ação

A 45 anos do golpe de Pinochet no Chile

Sobre o gole de Estado que depôs Salvador Allende.

O então presidente chileno Salvador Allende, em 1971 -  Raymond Depardon
O então presidente chileno Salvador Allende, em 1971 - Raymond Depardon

Estamos em um novo aniversário da triste derrota do processo chileno e o início da sangrenta ditadura do Pinochet no Chile. Quando se via vir a tragédia chilena na Argentina post-cordobazo fazíamos uma manifestação muito numerosa pedindo “armas para o Chile caralho”. É sozinho uma lembrança. Agora é um momento para refletir sobre uma das várias lições que deixa essa derrota: como se podia parar naquele momento à direita e o fascismo. Um tema que tem atualidade ante o avanço do totalitarismo e a direita profascista no mundo e no Brasil.

O governo de Allende

Como parte do processo de ascenso da luta de massas no Cone Sul de Latinoamericano nas eleições gerais do Chile de 1970, triunfa a Unidade Popular, uma frente entre o Partido Socialista e o Partido Comunista, pela Izquierda Cristiana (que era uma divisão do partido burguês de Freire que tinha sido presidente, e outros agrupamentos menores. Esse trunfo foi possível graças ao fato que o Partido Conservador e o partido de Freire (os dois grandes partidos burgueses foram divididos as eleições.

Existe a ideia em muitos setores da atual vanguarda brasileira e mundial que, com o governo de Allende era já um governo socialista, e que isto demostra que se tem possibilidade de ter uma via pacifica ao socialismo. Na realidade o governo de Allende era um governo anti-imperialista (com rasgos mais profundos de radicalização do que foi o governo de Chaves na Venezuela, mais não era um governo de ruptura com a burguesia; Chile estava em uma grande turbulência revolucionaria, mas o estado seguiu sendo burguês, em particular porque seu exército no foi tocado pelo governo de Allende. O governo de Allende abreu uma situação revolucionaria em Chile, mas esta situação infelizmente, se viu quebrada pelo golpe militar de Pinochet de 11 de setembro de 1973.

A vitória da Unidade Popular abriu uma situação de efervescência de massas e de luta por suas reivindicações. O governo de Allende tomou medidas enormemente progressistas frente ao imperialismo. Nacionalizou as minas de cobre, o mais importante recurso econômico do país, fez a reforma agrária em setores do campo bastante produtivos, nacionalizou outras fábricas e implantou um sistema de produção misto e de cooperativas. Nacionalizou o sistema bancário e começou reformas educativas profundas.

Não poderíamos dizer que era um governo dos trabalhadores, já que os Partidos Comunista e Socialista estavam no poder junto a um partido pequeno burguês produto de uma racha da burguesia da burguesia (Trotsky chamou estes governos de Frente Popular). Ainda que tenha havido profundas transformações, a estrutura do Estado não foi modificada e uma instituição fundamental, o Exército, seguiu sendo a mesma. Pinochet foi comandante-em-chefe nomeado ao final depois do primeiro intento de golpe de estado fracassado pelo governo de Allende.

Na realidade este governo começou a ser um sanduíche entre o movimento de massas que queria radicalizar o processo rumo ao socialismo e a burguesia e o imperialismo que começaram a acossá-lo pela direita. Ante tal avanço da direita, os trabalhadores começaram o processo de auto-organização dos cordões industriais – que eram formas soviéticas de organização a partir das fábricas. Algo semelhante ocorria nos bairros populares. Em muitas fábricas, ante a pressão da direita que lançou uma greve de caminhoneiros, começaram-se a produzir armamentos. Os trabalhadores viam como inevitável o enfrentamento e para tal se preparavam. Entre a suboficialidade do exército e, particularmente, entre os marinheiros, houve um processo de levante contra os militares conspiradores especialmente após a primeira tentativa golpista. Entretanto, Allende manteve-se como o defensor da “institucionalidade”, inclusive nomeando Pinochet como comandante-em-chefe do Exército.

O reconhecido gesto de Allende fotografado enfrentando com uma metralhadora o bombardeio do Palácio de La Moneda não apaga o fato de que ele tinha em suas mãos todas as possibilidades de enfrentar o golpe não só com uma metralhadora nas mãos, mas facilitando – e não obstando – o armamento dos trabalhadores e do povo (O governo requisitou as armas nas fábricas dias antes do golpe). Isso teria significado colocar o poder nas mãos dos trabalhadores e do povo para avançar em a revolução socialista. Tal foi o que Allende não quis fazer.

O governo chamou a pacificação para evitar um derramamento de sangue, mas a sangue foi maior pelas manos da sangrenta ditadura de Pinochet.

Foi o fracasso da via pacífica ao socialismo. Esta era a palavra de ordem que instrumentavam em todo o continente os partidos comunistas. Esta estratégia era utilizada para dizer que deveria ser mantida a legalidade no Chile, e que não se deveria provocar a direita para seguir avançando pelo curso institucionalidade. Este caminho escolhido principalmente pelo Partido comunista se demostro bem errado.

A situação atual é bem diferente. Estamos em outro patamar, longe de uma situação revolucionaria em nosso país e no continente. Mas elas virão e temos que tirar lições da tragédia chilena.

Artigo originalmente publicado no Portal da Esquerda em Movimento em setembro de 2018.

Movimento - Crítica, teoria e ação

Apresentação

A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.

Ilustração da capa da Revista Movimento

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