“AntiBacurau”
Cena do filme Bacurau. Reprodução

“AntiBacurau”

Erra quem acreditar que vai ter alguma solução para a verdadeira guerra civil contra os pobres que está em curso sem soluções radicais.

Israel Dutra 5 set 2019, 12:34

O filme de Kleber Mendonça Filho e Juliano Dornelles já é um sucesso em si. Não quero aqui resenhá-lo ou dar spoliers. Muitos bem mais talentosos do que eu podem contar melhor, em forma e conteúdo, a beleza do filme. Apenas registro que gostei bastante.

Entretanto, me chamou a atenção a coluna de Marcelo Coelho, na Folha de São Paulo de 04/09, caderno Ilustrada. Ao comentar o filme, retrata o enredo como algo do tipo “bolsonarismo às avessas”, o que seria fruto do desespero da situação. Como expressão das camadas médias acomodadas, Coelho conclui que a “violência ilegal” ou uma espécie de violência anômala não pode ser combatida com meios violentos. E esse pensamento tem lugar em muitas vertentes de esquerda. Todo um setor advoga que o problema fundamental do país é a polarização. Ou seja, Bolsonaro erra porque polariza e “passa dos limites”. Nesse caso, seria fundamental retomar um outro tipo de escuta, ou razão comunicativa que nosso país teria perdido em algum momento. Construir um “pacto mínimo do bom senso” seria a tarefa elementar do período.

E nesse caso, o filme “Bacurau” seria um exemplo ruim. Um exemplo onde a auto-organização da comunidade (professores, pequenos comerciantes, transportistas, funcionários da saúde, comunidade em geral) não poderia se defender. Não poderia entrar na luta por seus direitos, de forma armada, porque isso seria algo que não lhe pertence. O monopólio das armas seria do Estado e os transgressores seriam os vilões (o grupo de estrangeiros psicopatas que defendem a supremacia branca). Assim Bacurau, na visão de Coelho, seria a forma idealizada de uma resposta equivocada, que ao final, só fortaleceria os métodos de Bolsonaro e dos que tem na violência sua principal bandeira. Chega a comparar com movimentos reacionários como Taleban.

O filme em nenhum momento defende uma linha “terrorista” no sentido de ações individuais. Tudo é feito dentro e para uma dada comunidade. E isso choca Marcelo Coelho, colunista da Folha, que acredita ser a polarização a contradição principal da realidade nos dias de hoje.

Dessa forma, é impossível pensar uma saída geral para o mal-estar que o país vive. Em defesa de Bacurau — que não precisa e não quer defesa — posso afirmar que o filme apenas retrata de forma brilhante tal mal estar. Na mesma edição da Folha de São Paulo, uma das notícias principais era a da tortura de um jovem negro num supermercado paulistano, despido e chicoteado, Ou seja, a violência se demonstrando presente, não numa análise ou crítica literária, mas sim na sua forma mais crua. Não entender ou fingir não entender essa violência é um gesto de omissão.

Voltando ao filme e aos temas candentes do Brasil de 2019: erra quem acreditar que vai ter alguma solução para a verdadeira guerra civil contra os pobres que está em curso sem soluções radicais. Bolsonaro está buscando uma solução radical para o impasse brasileiro.

Ou a ampla maioria social se joga e se organiza para derrotar esse projeto — que é o mesmo que está no núcleo da guerra de rapina de Bacurau — ou seguiremos na linha de tiro da extrema-direita. Na cabecinha, diria o governador. Na cabecinha.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.