Bacurau: você que não entendeu não perde por esperar
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Bacurau: você que não entendeu não perde por esperar

Aqueles que subestimam o poder e resistência do povo terão que enfrentar os vários Bacuraus desse país.

Iolanda Silva Barbosa 9 set 2019, 12:00

Numa escola, adultos e crianças ao chão, sob a mirade um tiroteio. 

Eis uma cena real em escolas de algumas comunidades do Brasil que se encontram na rota de conflitos e disputas, mas que no caso compõe também o rico, violento e belíssimo amalgama que é Bacurau, filme que tem colecionado elogios, inúmeras análises e que já é premiado pelo júri em Cannes, tendo, a níveis de cinema nacional, superado muitas expectativas de público e crítica, consolidado-se como obra de grande alcance e sucesso. A riqueza e a qualidade da obra demonstram mais uma vez a importância de se valorizar e defender o cinema nacional, em especial contra os ataques dos que, tal como o atual governo, não o compreendem ou reconhecem nele uma ameaça ao seu projeto político.

Bacurau é escrito e dirigido por Kleber Mendonça, o mesmo de O som ao redor (2013) e Aquarius (2016), dessa vez em parceria com Juliano Dornelles. Enredos por vezes alegóricos e com temáticas reconhecidamente políticas não são novidade para o diretor. No caso de O som ao redor, são as heranças colonialistas e escravagistas que se reproduzem no Brasil de hoje. No caso de Aquarius, a inescrupulosa ganância do capital, através da especulação imobiliária premente, que consome não apenas edificações mas, em essência, história e memórias — subjetivas e coletivas — nelas encerradas. O mesmo Aquarius marcou o início do governo de Michel Temer, notadamente quando seus atores e produtores denunciarem ao mundo, no festival de Cannes, as artimanhas que haviam levado o então presidente ao poder. 

Bacurau, no entanto, supera, tanto em conteúdo temático quanto em estilo e composição, as duas obras anteriores, abandonando qualquer sutileza e deixando mais evidentes as vísceras de uma sociedade em profunda crise, convocando à tela, à arena do conflito, a própria memória histórica e os valores culturais e morais. 

A cena inicial do filme traz, ao som de Gal Costa, imagens do espaço sideral, aproximando-se aos poucos da Terra, do continente sul-americano, nos fazendo embrenhar até o profundo interior do Brasil. É uma perspectiva que parte imagética e alegoricamente do universal para o local, em um enredo que, no entanto, evidencia o caráter universalizante de Bacurau, tal como a construção genial do sertão de Guimarães Rosa — retomado no filme pela canção “Réquiem para Matraga”, em mais uma demonstração de que a trilha sonora também é parte fundamental e muitíssimo significativa da narrativa.

Ainda na sequência inicial, um caminhão pipa atravessa estradas esburacadas do sertão, já anunciando o cenário escolhido para se falar de tantas problemáticas: o Brasil profundo, por muitos inacessível, o Brasil que só se alcança ao penetrar-se profundamente nos rincões. É à essa profundidade que o filme se lança. O Brasil das capitais, por outro lado, aparece apenas como referência — na figura dos “sulistas brancos” e na tela de um aparelho, anunciando um espetáculo com execuções em praça pública.

Ao desenrolar do filme, fica logo evidente que a pequena Bacurau vive uma dinâmica social própria, baseada em princípios de auto-organização e solidariedade. Em sua rua principal, coexistem harmoniosamente vários organismos da cidade: escola, bar, ambulatório, além de uma igreja, que curiosamente é relegada ao papel de depósito. A cultura é também fundamental na cidade — desde as bibliotecas a que se refere o prefeito, à roda de capoeira, além da aula de música mostrada de passagem. A importância maior, no entanto, é dada ao museu local, que a princípio parece, a quem não é da cidade, irrelevante, assim como o lugarejo é considerado pacato, de população vulnerável e frágil (estereótipo com o qual muitos estigmatizam os nordestinos).

Entretanto, desde o princípio, demonstra-se que o povo local é ativo e altivo, vivendo em disputa direta com o prefeito, que figura o típico político coronelista das oligarquias — segundo o jingle, ele caminha “no meio do povo”, porém fica logo evidente que ao povo ele só recorre em defesa dos próprios interesses — o que não é perdoado pelo povo de Bacurau. A personalidade rasteira da personagem também é manifesta na emblemática cena em que livros, carregados em caminhão basculante, são despejados como “doação” na porta da escola.

A cidade aos poucos vai demonstrando que, tal como o pássaro que lhe dá nome, é um “bicho brabo”. Sob ameaça, sabe defender-se. Nesse processo, alia-se a Lunga, pária de personalidade ambígua e sanguinária, que guarda muitas semelhanças com os líderes do cangaço — outra referência continuamente retomada no filme. De aparente fragilidade, o povo desse lugar pega em armas — algumas delas do próprio acervo do tão importante museu. Neste momento, é interessante notar que Bacurau toma em mãos não apenas as armas de seu museu, mas a própria história que ele encerra — uma história de resistência. 

Consegue-se por fim derrotar os forasteiros. As semelhanças e referências ao cangaço e a Canudos ficam cada vez mais fortes, fazendo valer o registro de Euclides da Cunha: “o sertanejo é, antes de tudo, um forte”. 

Ainda que vencido o combate, no entanto, Bacurau amarga a perda de muitos dos seus. Nesse momento, o diálogo com episódios recentes da nossa realidade ficam ainda mais evidentes. Entre os mortos, crianças — uma delas, assassinada pelas mãos de um agente que confunde uma lanterna com uma arma. Mães choram a perda de seus filhos e roupas ensanguentadas são hasteadas no varal (como não lembrar de Bruna da Silva a brandir o uniforme ensanguentado do filho, Marcos Vinicius, assassinado a caminho da escola?). Os tiros contra carros parecem guardar dolorosa referência à família alvejada pelo exército dentro de um carro no Rio de Janeiro ainda neste ano, além do próprio assassinato de Marielle, nome que é citado no filme entre as vítimas do conflito local. Retomando a cena mencionada no início do texto, temos a escola sob a mira de tiroteios. Ainda que alvo, no entanto, a escola constitui-se também como centro de resistência da cidade.

Sob o impacto do filme, não podemos deixar de refletir sobre nossos próprios desafios e tarefas ante tantos ataques e em uma realidade que, tal como o filme, por vezes se aproxima tanto de uma distopia. 

Em uma sociedade que, assim como os forasteiros amantes de armas que competem e colecionam assassinatos no filme, se compraz com a violência gratuita, em que dizimam os nossos e na qual querem nos ver “fora do mapa”, não temos escolha que não resistir. É preciso resgatar de nossos museus (ainda que em chamas) nossa história de resistência e nossas armas. É necessário nos negarmos a tomar o que no filme se denomina tranquilizantes tarja preta — que, em várias formas, tentam nos alienar. É preciso fortalecer nossas comunidades, nossos pequenos Bacuraus, e lutar em sua defesa. 

Tudo isso é necessário se quisermos derrotar os que querem nos dizimar, para que, antes que cogitem nos atacar, conheçam nossa história de resistência, e temam. Plínio (professor e liderança popular), ao relembrar sua mãe, Carmelita (figura matriarcal de Bacurau), assevera que os herdeiros dela são muitos e estão espalhados pelo Brasil e pelo mundo — “Bacurau e Carmelita vivem em todos eles”. Incorporando essa declaração à nossa realidade: somos muitos os que resistem e carregamos em nós a herança de muitos que vieram e lutaram antes de nós. Da placa que indica caminho de Bacurau, a mensagem é incisiva: “se for, vá em paz”, pois aqui vive povo guerreiro, que resiste e não se entrega.

Bacurau é o retrato potente de um país que, em pequenas comunidades, se organiza, resiste, combate, e que vencerá.

Aqueles que subestimam o poder e resistência do povo terão que enfrentar os vários Bacuraus desse país: “Você, que não me entendeu, não perde por esperar.”


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.