Por que construir a greve geral do clima no Brasil?
13-14-55-COP15-System-Change-not-Climate-Change-485x255

Por que construir a greve geral do clima no Brasil?

A necessidade de intensificar a mobilização em defesa do Meio Ambiente.

Fernanda Melchionna e Sâmia Bomfim 20 set 2019, 13:16

Os últimos quatro anos (entre 2015 e 2018) foram os anos mais quentes de nossa história, desde que as temperaturas passaram a ser medidas regularmente e em escala global, no ano de 18801. O aquecimento global é uma realidade, negada apenas por aqueles que insistem em atacar a ciência. O excesso na emissão de gases como o dióxido de carbono e o metano – principalmente a partir da queima de combustíveis fósseis (petróleo, gás e carvão) e da atividade pecuária – intensifica o efeito estufa, um fenômeno de retenção de calor no Planeta Terra.

As mais graves consequências do aquecimento global estão relacionadas com o desequilíbrio ambiental do planeta. Corremos sérios riscos de devastação a partir de furacões e enchentes; o derretimento de geleiras nos pólos, responsável pelo aumento do nível dos oceanos, pode causar o desaparecimento de ilhas e a inundação de cidades litorâneas; a atividade agrícola, a produção de alimentos, pode ser fortemente prejudicada ou mesmo inviabilizada com o aumento de temperatura e a desertificação dos solos.

O aquecimento global e a mobilização mundial em defesa do meio ambiente pressionaram os governos pela elaboração e execução de documentos como o Protocolo de Kyoto (1997) e o Acordo de Paris (2015), diretrizes para a redução na emissão de gases do efeito estufa. No Mundo, a atividade industrial é a maior responsável pela emissão destes gases e em virtude disso a implementação de acordos com este conteúdo esbarra na sede de lucros dos grandes empresários. Segundo a Nasa, a concentração de gases de efeito estufa na atmosfera segue aumentando, sendo que no início do século 20 estava em menos de 300 ppm (partes por milhão) e em 2019 ultrapassa a marca de 400 ppm2.

A crise climática mostra a face mais destrutiva do capitalismo contemporâneo. Além da degradação humana provocada pela exploração do trabalho – chegando à superexploração em grandes áreas do globo – a degradação da natureza é uma consequência catastrófica da lógica de acumulação infinita do capitalismo, especialmente em sua fase globalizada e financeirizada. A produção destrutiva que caracteriza o atual regime de acumulação de capital está produzindo uma destruição do planeta com consequências incalculáveis. Em poucas palavras, a crise ambiental não é apenas uma característica da crise econômica global, mas a evidência mais brutal do caráter destrutivo do capitalismo como modo de produção.

No Brasil vivemos uma situação crítica. Nas últimas décadas o país vem aumentando sua participação na emissão de gases do efeito estufa3, sendo que em nosso país o principal responsável por este aumento é o desmatamento, promovido pelo setor do agronegócio4. Com o Governo Bolsonaro e o Ministério do Meio Ambiente controlado por Ricardo Salles a situação se agravou bruscamente. Membros do alto escalão do governo chegam ao absurdo secundarizar5 ou mesmo contestar6 a existência do aquecimento global. Desde Janeiro convivemos com ataques constantes e o enfraquecimento do IBAMA e ICMBio, ataques estes diretamente responsáveis pela diminuição da fiscalização que permitiu a existência de ondas de queimada como a que atingiu a Amazônia nas últimas semanas.

Ao ser omisso e conivente com o desmatamento da Amazônia o Governo Bolsonaro é responsável pelo aumento na emissão de gases do efeito estufa, privilegiando apenas o agronegócio, que por sua vez está preocupado com seus lucros e exportações, em detrimento da situação climática mundial ou mesmo da produção de alimentos e geração de empregos para o povo brasileiro.

A repercussão internacional do desmatamento da Amazônia colocou o Brasil ainda mais na rota da construção da Greve Mundial do Clima, durante o mês de Setembro de 2019, um movimento internacional articulado e convocado pelo Fridays For Future7 que visa denunciar o aquecimento global e a conivência dos governos.

Nos próximos dias marcharemos por todo o Brasil, em consonância com a Greve Mundial do Clima. Marcharemos ao lado dos indígenas e quilombolas pela demarcação de terras, em defesa da biodiversidade, da Amazônia, do Cerrado, do Pampa, por um outro mundo e por um outro sistema, que privilegie a vida e a natureza e não os lucros de um punhado de ricaços! Não há Planeta B, é preciso acabar com o capitalismo de desastres.


1- https://g1.globo.com/natureza/noticia/2019/08/13/emissao-de-gases-de-efeito-estufa-na-atmosfera-atingiu-novo-recorde-historico-em-2018-diz-estudo.ghtml

2 – https://climate.nasa.gov/vital-signs/carbon-dioxide/

3 – https://wribrasil.org.br/pt/blog/2019/04/ranking-paises-que-mais-emitem-carbono-gases-de-efeito-estufa-aquecimento-global

4 – https://revistagalileu.globo.com/galileu-e-o-clima/noticia/2018/11/agronegocio-segue-como-maior-emissor-de-gases-de-efeito-estufa-no-brasil.html

5 – https://www1.folha.uol.com.br/ambiente/2018/12/discussao-sobre-aquecimento-global-e-secundaria-diz-futuro-ministro-do-meio-ambiente.shtml

6 – https://epoca.globo.com/guilherme-amado/ernesto-araujo-nega-aquecimento-global-fui-roma-em-maio-havia-uma-onda-de-frio-23851347

7 – https://www.fridaysforfuture.org/


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.