Grécia: o ocaso da Aurora Dourada
Comício da Aurora Dourada em Atenas em 2015 - DTRocks, Wikicommons.

Grécia: o ocaso da Aurora Dourada

Sobre a crise terminal do grupo neonazista grego.

Esquerda.net 2 out 2019, 13:59

Durante sete anos, a Aurora Dourada teve uma presença parlamentar significativa na Grécia. Chegou a ter cerca de meio milhão de votos, oscilou entre 17 a 21 deputados, com percentagens a rondar os sete porcento, consoante as eleições. Parecia ser uma história de sucesso para um partido de estética neo-nazi e de práticas arruaceiras.

É este sucesso que agora chega ao fim. O símbolo dessa derrota é o estado de abandono da sede de cinco andares do partido na Avenida Mesogeion, outrora um ponto de encontro de centenas de militantes da extrema-direita mais agressiva. E o facto de estar já à venda. A sua página de internet também está intermitente, tendo caído e depois sido recuperada.

A crise acentuou-se até um ponto que parece agora de não retorno. Vários quadros do partido bateram com a porta, incluindo os principais deputados. Yannis Lagos, eurodeputado, foi pelo mesmo caminho, tentando criar uma nova força mas com pouco sucesso.

A Aurora Dourada aumentou a sua força com um discurso que aproveitava a crise económica, culpava refugiados e a elite política do país. Construiu-se não só nas urnas mas também nas ruas, com violência, alegando “manter a segurança” em vários bairros e atacando os alvos habituais da extrema-direita, com projetos “sociais” de caráter xenófobo como a distribuição de comida apenas a gregos, com presença fortemente documentada nas forças policiais.

Uma ascensão que não aconteceu sem que um enorme movimento anti-fascista se tenha construído para os travar. Constituíram-se comités de bairro anti-fascistas, fizeram-se inúmeras manifestações desde as mais locais até às nacionais, agiu-se contra a normalização da presença dos neo-nazis no espaço pública, apresentaram-se insistentemente queixas judiciais sempre que havia motivos para isso.

E havia. Enquanto cresciam, os neo-nazis não deixaram de usar a violência contra os seus adversários, sobretudo contra migrantes. O caso que gerou a maior onda de indignação, e que muitos consideram como o princípio do fim da Aurora Dourada, é o do assassinato de Pavlos Fyssas, um rapper anti-fascista.

Seguiram-se mais manifestações anti-fascistas, desta vez gigantescas, e mais acusações judiciais, desta vez atingindo toda a liderança do movimento que foi acusada de organização criminosa. Até às últimas eleições legislativas, onde o resultado foi modesto, tendo perdido a representação parlamentar. As saídas e os conflitos internos têm marcado a fase final do partido. E as denúncias de ex-membros sobre o caráter abertamente neo-nazi e criminosa da estrutura dão a machada final.

Artigo originalmente publicado no Esquerda.net.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.