Municipários de Pelotas indicam o caminho: a luta
Sede da Prefeitura Municipal de Pelotas

Municipários de Pelotas indicam o caminho: a luta

Trabalhadoras e trabalhadores do município de Pelotas decidiram nesta manhã entrar em greve em virtude do atraso dos salários.

Jurandir Silva 3 out 2019, 17:21

Trabalhadoras e trabalhadores do município de Pelotas decidiram nesta manhã entrar em greve em virtude do atraso dos salários. O governo do PSDB e aliados alega que uma grave crise atinge as finanças do município, e que para honrar os salários dos servidores municipais seria necessário um conjunto de medidas, entre as quais aprovar um pacote de novas taxas na Câmara de Vereadores, sobrecarregando assim toda a população, na qual os próprios servidores públicos são parcela significativa. Nitidamente, o governo tenta colocar uma parte da população contra os servidores municipais, afirmando que para honrar os salários, seria necessário um “esforço a mais”.

De fato, vivemos uma crise gravíssima. O que o governo omite são as suas responsabilidades para que chegássemos até esta situação. Omite também os seus alinhamentos ideológicos no panorama nacional, sem os quais é impossível explicar a situação financeira delicada pela qual passam os municípios brasileiros.

Os partidos que dão sustentação ao governo de Paula Mascarenhas são exatamente os mesmos responsáveis por termos um sistema tributário (arrecadação de impostos) injusto e que privilegia os mais ricos. Neste exato momento, no plano nacional, estão debatendo e tentando aprovar uma reforma tributária que piora esta situação. Estes mesmos partidos compuseram e mantém um pacto federativo que concentra o orçamento público brasileiro no governo federal. Estes mesmos partidos defendem que o orçamento do governo federal siga tendo parcela significativa destinada ao pagamento de juros e amortizações da dívida (dinheiro para o sistema financeiro). Estes mesmos partidos votaram a favor da PEC do teto dos gastos, ainda no governo Temer, limitando investimentos fundamentais para as cidades. Há enfim, uma enorme quantidade de exemplos de medidas concretas defendidas e adotadas por estes partidos no âmbito nacional que pertencem a uma mesma lógica: o Estado deve atender aos interesses dos mais ricos, e se existe uma crise é necessário cortar dos serviços e dos servidores públicos, fundamentais para os mais pobres.

Os partidos que dão sustentação ao governo de Paula Mascarenhas controlam Pelotas há diversas gestões. Nas últimas eleições sua bela propaganda afirmava que vivíamos em uma cidade maravilhosa e que isso era resultado de sua “boa gestão” das finanças do município. Levaram aquelas eleições no primeiro turno e o ex-prefeito fez votação recorde em Pelotas no processo eleitoral que o levou ao governo do Estado, em 2018. Afirmamos e seguimos afirmando que essa “boa gestão” era conversa mole, que era necessário inverter prioridades, e que cedo ou tarde viveríamos suas terríveis consequências. O pano de fundo da tal boa gestão é o endividamento do município para a realização de obras de prioridade discutível, com evidente interesse eleitoral.

E existe um caminho ou saída? Sim, eu tenho fé que sim. Agora, na minha opinião não tem saída fácil, ideia mirabolante e salvador da pátria. Precisamos de uma mudança profunda, de longo prazo. Aliás, já li e ouvi gente dizendo que “temos que esperar as eleições para mudar isso tudo que está aí talkei”. Olha gente, eleição é bem importante, mas sem aumentar a consciência, a organização e a mobilização da população, não adianta tanto votar no candidato A, B, C ou D.

A saída é a luta e os servidores municipais estão nos dando exemplo. São atacados, se organizam coletivamente e saem às ruas para lutar por seus direitos. Aliás, para quem diz que servidor público é tudo vagabundo, digo para lavar a boca e pelo menos respeitar a coragem destes trabalhadores, que vão à luta pelos seus direitos, sem ter recebido, sendo que a avassaladora maioria deles têm um salário desrespeitoso.

Para quem acha que não tem nada a ver com o assunto e chegou até esta parte deste textão, peço um último minuto de reflexão: se o municipário não receber é menos gente pra gastar no comércio e nos serviços; o filho do cobrador de ônibus é atendido na escola por servidores municipais; quem atende no postinho é servidor municipal; quem organiza o trânsito (o que dá pra organizar neste trânsito caótico) são os servidores municipais. Estamos todos juntos, na mesma cilada. O grande medo deles é a gente entender isso e se apoiar. Conversemos sobre isso.

Todo apoio à luta dos municipários!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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