Todo apoio ao povo chileno: não são só 30 pesos!
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Todo apoio ao povo chileno: não são só 30 pesos!

Abaixo o toque de recolher! Contra os abusos de Piñera!

Todo apoio ao povo chileno: não são só 30 presos! Abaixo o toque de recolher! Contra os abusos de Piñera!

O Chile é considerado um exemplo para o governo Bolsonaro e o empresariado brasileiro. Alguns setores políticos do nosso país invejam o modelo econômico chileno, que chamam de “Suíça latino-americana”. Mas a revolta popular que estourou em Santiago nos últimos dias mostra que há algo totalmente errado nesse diagnóstico. Não há “neoliberalismo que dá certo” sem mal-estar social profundo.

Na segunda-feira, 14 de outubro, o presidente Sebastián Piñera implementou um aumento de 30 pesos chilenos na tarifa do metrô. Coincidentemente, o valor corresponde aproximadamente a 20 centavos de real (o estopim do junho de 2013). As mobilizações contrárias ao aumento da tarifa cresceram ao longo da semana, com convocatórias para “evasão”, ou seja, para que se pulassem as catracas sem pagar a tarifa.

A revolta cresceu entre os estudantes secundários ao longo da semana, se espalhando entre a juventude trabalhadora. Na sexta, dia 18, frente à radicalização social, Piñera declarou Estado de Emergência, entregou o ministério do interior para as Forças Armadas, colocou tanques nas ruas de todo país. A revolta cresceu: mais de 20 estações de metrô foram incendiadas pela população em Santiago naquela madrugada. As imagens de estações incendiadas viralizaram rapidamente nas redes. No sábado, 19, os chilenos desafiaram o Estado de Emergência e o Toque de Recolher, seguiram com incêndios de ônibus e enfrentaram a repressão massivamente. Até que o presidente cancelou o aumento da passagem, embora não tenha recuado da militarização.

É fácil perceber que não são só 30 pesos chilenos. O Chile tem as piores aposentadorias da região: em 2018, metade dos chilenos obteve pensões menores que o piso de 870 reais. A média nacional das aposentadorias não alcança o salário mínimo de 1200 reais. Além de trabalhar, os idosos gastam somas inacreditáveis com remédios e hospitais privados. O país apresenta uma das mais altas taxas de endividamento familiar, alcançando seu recorde histórico de 73% da renda das famílias (quase o dobro do brasileiro). O direito de greve é proibido e ilegal na maior parte das empresas, que não oferecem garantias laborais mínimas. Os trabalhadores não têm direitos sindicais suficientes para lutar por melhorias. A cada 10 empregos criados no país, 7 são terceirizados ou precários.

O povo equatoriano há uma semana venceu sua batalha contra o pacote neoliberal e a repressão. O exemplo dessa luta, encabeçada pela CONAIE(Confederação das Nacionalidades Indígenas do Equador), já se faz sentir em todo continente latino-americano.

O PSOL concorda com a análise de que o neoliberalismo radical como o chileno precisou de banhos de sangue para ser implementado durante a ditadura de Pinochet. A violência do modelo chileno é cotidiana, está nas relações de trabalho, no desemprego disfarçado, na mercantilização extrema da saúde, da previdência, da educação. Manifestamos nossa mais ampla solidariedade ao povo chileno, que afinal luta pelo mesmo que nós lutamos: um forte sistema de direitos sociais com financiamento público, que ofereça dignidade e bem-estar a toda população.

Já são 11 mortos. Exigimos o fim do toque de recolher, a liberdade imediata de todos os presos e o fim do Estado de Emergência, nefasta herança dos anos Pinochet!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.