Uma vez mais, o povo move o pêndulo da América Latina
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Uma vez mais, o povo move o pêndulo da América Latina

A heroica rebelião do povo equatoriano dá exemplo e mostra o caminho. A maré está virando no continente.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 10 out 2019, 18:59

Nas últimas semanas, soou o alarme para Bolsonaro e para a extrema-direita. No cenário internacional, seus principais aliados enfrentam dificuldades crescentes. Nos Estados Unidos, Donald Trump é fustigado pelo processo de impeachment aberto pela Câmara dos Deputados e, após as eleições israelenses, Benjamin Netanyahu, sobre quem pesam investigações por corrupção, não possui mais a maioria que lhe permitiu governar ao longo dos últimos 10 anos.

Da América Latina, por sua vez, vêm as melhores notícias. A aposta de Bolsonaro numa orientação autoritária e neoliberal para o Brasil e o continente tem enfrentado graves revezes. Após a derrota da operação de nomear Guaidó como “presidente” da Venezuela, derrubando Maduro por meio de uma intervenção externa coordenada pelos Estados Unidos, agora é a linha de ajuste estrutural do FMI, imposta a países como Argentina e Equador, que começa a ser derrotada.

Uma vez mais, fora FMI!

Na história recente latino-americana, sobretudo desde os anos 1980 e 1990, o grito de “Fora FMI!” ecoa nas lutas dos povos contra os programas de “ajuste estrutural”, privatizações e entrega de patrimônio local, destruição de serviços públicos, desregulamentação financeira e desmonte de direitos sociais e trabalhistas encomendados pela burguesia transnacional, a mando de quem atua o Fundo Monetário Internacional. Uma vez mais, o “Fora FMI” volta a ocupar as ruas latino-americanas contra governos entreguistas e repressores.

As eleições primárias da Argentina, em agosto, já haviam indicado o amplo rechaço ao programa de ajuste imposto pelo fundo. Maurício Macri foi castigado e as pesquisas de intenção de voto indicam que sua derrota será confirmada nas eleições de 27 de outubro. A derrota de Macri será um duro golpe nas pretensões externas de Bolsonaro, que muitas vezes declarou seu apoio à reeleição do presidente argentino – para a alegria, aliás, das campanhas opositoras.

Já o Equador vive uma rebelião popular fortíssima desde que Lenín Moreno anunciou cortes no subsídio dos combustíveis e uma série de medidas de restrição orçamentária obedecendo às ordens do FMI. Após uma guerra dos transportes que paralisou Quito, dezenas de milhares de indígenas organizados pela CONAIE saíram em marcha rumo à capital para somar-se aos protestos. Isolado e temendo a ira popular, na noite de segunda-feira, Moreno anunciou o traslado temporário da capital para Guayaquil e, numa demonstração de fraqueza, acusou o ex-presidente Rafael Correa e a Venezuela de coordenarem os protestos. Nesse momento, a sorte de seu governo baseia-se na capacidade de reprimir a mobilização, que, por sua vez, não parece disposta a recuar até derrubar o governo, como mostrou a ocupação da Assembleia Nacional.

A luta na América Latina mostra o caminho

Além de Equador e Argentina, o Peru também vive semanas de instabilidade política e mobilizações populares. A crise do regime político – esfacelado pelas revelações de compra de partidos políticos, parlamentares e ex-presidentes do país pela empreiteira Odebrecht – ganha novo capítulo com a decisão do presidente Martín Vizcarra de dissolver o Parlamento, de maioria fujimorista, que buscava nomear composição do Tribunal Supremo do país favorável à libertação de Keiko Fujimori e de outros envolvidos em esquemas de corrupção. Forças populares como o Movimiento Nuevo Perú, liderado por Verónika Mendoza, tem ido às ruas enfrentar o golpismo fujimorista e denunciar o apodrecimento do regime político peruano.

As mobilizações e conflitos em todo o continente mostram o aumento da polarização de classes e os choques políticos. A emergência da direita neoliberal após anos de crise econômica veio acompanhada da rejeição popular a mais uma onda de ataques. Bolsonaro, que no início do ano falava confiante na organização de uma frente de direita latino-americana, vê ampliar seu isolamento interno e externo. A política de alinhamento total aos Estados Unidos, por sua vez, revelou-se inócua, já que o governo Trump, ao contrário do prometido, não apoiou a entrada imediata do Brasil na OCDE, grande prioridade de Bolsonaro, em troca da qual entregou vergonhosamente a base de Alcântara, derrubou a exigência de vistos a turistas estadunidenses e se comprometeu a rejeitar o status de país em desenvolvimento na OMC.

Além das dificuldades de seus principais aliados e da desmoralização internacional com a crise das queimadas – que fez retroceder o acordo Mercosul-UE tão celebrado pelo agronegócio brasileiro –, o governo assiste a seu programa autoritário e neoliberal enfrentar mais resistências internas, à divisão de setores burgueses que o apoiavam e à instabilidade de sua coalização governante, que pode levar à ruptura do PSL. É hora de o povo entrar em cena no Brasil, unificando as lutas de todos os afetados pela agenda de ataques do governo Bolsonaro. A heroica rebelião do povo equatoriano dá exemplo e mostra o caminho. A maré está virando no continente. É hora de ir às ruas!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
A décima terceira edição da Revista Movimento dedica-se ao debate sobre os desafios da esquerda socialista no Brasil diante da crise nacional que se desenrola há anos e do governo Bolsonaro. Para tanto, foram convidados dirigentes do PSOL, do MES e de outras organizações revolucionárias que atuam no partido. O dossiê sobre a estratégia da esquerda e o PSOL reflete os desafios da organização de um polo socialista no interior do partido. Há também, na seção nacional, reflexões sobre a crise econômica brasileira, as revelações de The Intercept e as lutas da juventude e da negritude. As efemérides do centenário da escola Bauhaus e do cinquentenário do levante de Stonewall também aparecem no volume, além da tese das mulheres do MES para o Encontro de Mulheres do PSOL.