Golpe de Estado na Bolívia e os impasses da América Latina
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Golpe de Estado na Bolívia e os impasses da América Latina

Interpretação da história recente do país.

Felipe Bandeira 14 nov 2019, 18:11

Evo Morales sofreu um golpe de Estado neste domingo (10) que pôs fim aos 13 anos de governo do primeiro presidente indígena da Bolívia. O comunicado de sua renúncia aconteceu após quase três semanas de intensos protestos organizados por grupos de direita e extrema direita que não aceitaram o resultado das eleições ocorridas no dia 20 de outubro. Mesmo após o presidente anunciar a convocatória de novas eleições, os grupos opositores e as Forças Armadas exigiram sua renúncia como saída aos impasses da crise política. Evo Morales foi eleito pela primeira vez em 2005, com 53,7% dos votos, processo que foi confirmado por um referendo em 2008, em que obteve 67% dos votos. Desde então, foi reeleito em 2009 (64%), 2014 (61,3%) e finalmente em 2019 (47,8%).

As eleições deste ano, em particular, foram marcadas pelo acirramento dos conflitos étnicos e de classe que começaram a ganhar força a partir de 2016, quando Evo amargou a primeira grande derrota nos seus dez anos de governo. No dia 21 de fevereiro, realizou-se um referendo para modificar a Constituição a fim de permitir a reeleição indefinida para os cargos de presidente e vice. Os votos contrários a essa proposta somaram 51,3% do total, o que na prática inviabilizava a candidatura de Evo para o quarto mandato em 2019. Porém, um ano depois, o Tribunal Constitucional decidiu que a reeleição poderia ocorrer indefinidamente. A oposição acusou Evo de passar por cima do resultado do Referendo, fato que deu margem para que sua candidatura fosse contestada por seus adversários.

Assim, a eleição presidencial deste ano se inseriu num contexto de aumento dos conflitos sociais na Bolívia. Embora o resultado tenha sido favorável a Evo, com uma margem maior que 10% do segundo candidato, Carlos Mesa, sua vitória foi contestada pela oposição, que convocou inúmeros protestos para exigir a anulação do pleito. As tensões tornaram-se insustentáveis quando a OEA divulgou um relatório preliminar que afirmava ser estatisticamente improvável a vitória de Morales em primeiro turno. A auditoria do órgão também encontrou cédulas com assinaturas adulteradas. Em nota oficial, o secretário-geral da OEA, Luís Almagro, pediu que “a eleição do último dia 20 de outubro fosse anulada e que o processo eleitoral começasse novamente”.

Evo Morales, que havia aceitado que a OEA conduzisse a auditoria, acatou o resultado e convocou novas eleições na manhã do dia 10 de outubro. Afirmou também que seguiria a recomendação da OEA e substituiria todos os membros do TSE. Entretanto, os setores da direita e extrema direita, articulados com os militares, exigiram a saída do presidente. Com a perseguição e redução de sua base de apoio, seguida da renúncia de vários ministros, Evo anunciou a renúncia ao lado do vice-presidente, Álvaro Garcia Linera. A presidenta do senado, Adriana Salvatierra, a terceira na linha de sucessão, também anunciou sua renúncia, seguida do presidente da Câmara dos Deputados, Victor Borda. Após dois dias de indefinição, a senadora Jeanine Áiñes se autoproclamou presidenta da Bolívia. Diante da crise, Evo exilou-se no México, de onde busca reorganizar o campo político de resistência ao golpe.   

Impasses Históricos da Bolívia

Marcada pelo processo histórico da colonização, a Bolívia tem participado da divisão internacional do trabalho numa posição subordinada, como exportadora de matérias primas em estado bruto ou com um processamento rudimentar, o que lhe conferiu por décadas os piores indicadores sociais da América Latina. Por séculos, as riquezas extraídas do subsolo boliviano produziram miséria para os povos originários e riquezas para os colonizadores.

Um símbolo expressivo deste trágico destino econômico é a paisagem de Cerro Ricco, uma montanha situada nos arredores de Potosí. Como destaca Igor Fuser, suas entranhas outrora repletas de prata foram esvaziadas pelos colonizadores para alimentar a riqueza do império espanhol. Entre os séculos XVI e XVIII, Potosí foi o centro da vida colonial da América espanhola, fornecendo a prata que embarcava pelo porto de Lima, o principal centro administrativo da época. Com o fim do ciclo da prata, a região foi condenada a decadência e ao abandono.

Um novo ciclo econômico se abriu no início do século XX, com a descoberta de grandes jazidas de estanho no altiplano da Bolívia. A importância deste minério ganhou um protagonismo cada vez maior na pauta exportadora boliviana e já em 1909 representava 40% das exportações do país, proporção que aumentou até atingir 75% em 1949. O aumento das exportações, entretanto, pouco contribuiu para produzir o desenvolvimento nacional. Isto porque a cobrança de impostos sobre a produção era muito baixa, situando-se entre 3% e 5%, o que somava-se a concentração da produção de minérios em pouquíssimas mãos. Assim, a maior parte do excedente boliviano era transferida para o exterior. A partir dos anos 1950 a extração do estanho entrou em decadência.

Incialmente à sombra do estanho, desenvolveu-se a extração de outra riqueza que no final do século XX se tornaria essencial para a Bolívia: os hidrocarbonetos. A exploração do petróleo ganhou impulso com a entrada no país, em 1921, da multinacional estadunidense Standard Oil. Sem a fiscalização do governo, a Standart Oil atuou livremente e cometeu inúmeros crimes, como a exportação ilegal de petróleo para a Argentina e sonegação de impostos. A empresa também foi acusada de sabotar o envio de combustível para o exercito boliviano durante a guerra do Chaco (1932-1935) contra o Paraguai, que deixou um saldo de mais de 60 mil bolivianos mortos e a perda de 240 mil quilômetros quadrados de seu território.

O trauma da guerra do Chaco uniu a nação boliviana e despertou uma onda nacionalista no país. Esse processo chegou ao cume em 1952, quando aconteceu uma grande revolução nacional-popular encabeçada por Victor Paz Estenssoro e que durou até 1964. Nesse período, consolidou-se a participação política dos camponeses, indígenas, trabalhadores urbanos e mineiros. Assim que tomou posse, Estenssoro decretou o sufrágio universal, medida que finalmente garantiu o direito de voto a uma grande massa de indígenas e camponeses. Também foi realizada a nacionalização das minas, passando-as para a administração Cooperação Mineira da Bolívia (COMIBOL), além da criação da Central Obrera Boliviana (COB). Em 1953, realizou-se uma profunda reforma agrária, que devolveu aos indígenas e camponeses grande parte de suas terras roubadas pelos grandes latifundiários.

Entretanto, em pouco tempo, a Revolução Nacional, como ficaram conhecidas as mobilizações de 1952, começou a mostrar seus limites. Juntamente com o processo de modernização econômica se formou uma nova elite política articulada com a burocracia estatal e os setores mais conservadores do governo. Este setor constituiu uma burguesia nacional, até então inexistente na Bolívia. A reforma agrária de 1953 mostrou-se limitada às terras do altiplano andino. No Leste, região que inclui as planícies amazônicas e as terras férteis da província de Santa Cruz, manteve-se uma estrutura fundiária altamente concentrada. Ao longo dos anos, a desigualdade e o acesso à terra foi aumentando junto com a expansão da fronteira agrícola e os conflitos territoriais.

Com o deslocamento do eixo econômico do estanho para o petróleo, os governos bolivianos concederam acesso crescente de suas reservas minerais às transnacionais estrangeiras. Por fim, um golpe militar realizado em novembro de 1964 encerrou o ciclo político nacional-popular e abriu um período de governos militares que se estendeu até 1982. À semelhança do Brasil, o governo ditatorial de Barrientos reprimiu as organizações operárias e indígenas e aprofundou o modelo econômico desenvolvimentista autoritário. Barrientos também foi o responsável pelo assassinato do comandante guerrilheiro Che Guevara, no dia 8 de outubro de 1967.

A morte inesperada de Barrientos, em uma queda de helicóptero em 1969, levou à tomada de poder pelo general Ovando Candía, que procurou aproximar o governo da esquerda reformista. Candía legalizou o Central Obrera Boliviana (COB), suspendeu a repressão aos trabalhadores das minas e nacionalizou petroleira estadunidense Bolívia Gulf Oil Company. Com a intensificação das lutas sociais, Candía foi derrubado em outubro de 1970 pelo general Juan José Torres, que deu início a um governo fortemente centrado no programa da esquerda radical. Além de confrontar diretamente o governo dos Estados Unidos, a inciativa mais ousada de seu governo foi a tentativa de substituir o Parlamento tradicional por uma Assembleia Popular, em que os sindicatos detinham a maioria absoluta das cadeiras e quase todos os participantes eram ligados aos partidos de esquerda. Mas a Assembleia Popular se mostrou sem força para pôr em pratica suas próprias deliberações e diante da crescente pressão das oligarquias tradicionais, a proposta fracassou. Após um intenso processo de golpes e contra golpes, se iniciou um longo período neoliberal que persistiu até o início dos anos 2000, processo que foi interrompido com o avanço das lutas contra o neoliberalismo e que levou à vitória eleitoral de Evo Morales, em 2005.

A crise do Neoliberalismo e a ascensão de Evo Morales

Com a posse de Víctor Paz Estenssoro, em 1985, iniciou-se um novo momento político na Bolívia marcado pelo aprofundamento de políticas neoliberais. Assim, foram privatizadas as empresas estatais, reduzidos os gastos públicos em áreas sociais, acompanhado do aumento da carga tributária para os trabalhadores e queda dos salários reais.

O “ajuste estrutural” na economia provocou profunda crise de desemprego e aumentou a dependência externa da economia boliviana. Nos anos 1990, a onda de privatizações atingiu as seis maiores empresas estatais do país, dentre as quais, a YPFB, detentora de grandes reservas de petróleo e gás, e a Empresa de Telecomunicações (ENTEL). Essas seis companhias, representavam a época, 12,5% do PIB boliviano e respondiam por 60% da arrecadação fiscal do Estado.

A perda de receitas e a dificuldade em financiar o endividamento público empurrou o Estado Boliviano para uma situação de insolvência e dificultou a obtenção de recursos para financiar o déficit orçamentário. Com a economia estagnada e com crescentes taxas de desemprego, a Bolívia se tornou um país extremamente dependente dos capitais internacionais.

Com a crise do modelo neoliberal, os movimentos indígenas e camponeses tomaram novamente protagonismo na cena política. Nesse novo ciclo de lutas populares, dois grupos foram fundamentais: os cocaleiros do Vale do Chapare, no departamento de Cochabamba, e os Aimará do altiplano andino.

 A coca é uma planta de uso milenar entre os indígenas bolivianos, que mascam sua folha para enfrentar a fome, o frio, se comunicar com o sagrado e suas ancestralidades. A principal área de cultivo da coca se situa na região do Chapare e garante a sobrevivência de mais de 35 mil famílias. A repressão estatal aos cocaleiros, aconteceu após forte pressão do governo dos EUA, que defendiam a erradicação do cultivo da coca como parte da campanha internacional de combate as drogas. Muitos governos bolivianos tentaram erradicar a produção de coca e convencer os agricultores a substituí-la por outros cultivos, como os de abacaxi e palmito. Todas essas medidas fracassaram.

Com o objetivo de acabar a produção de coca à força, o presidente Hugo Banzer Suárez, em 1997, formou um destacamento com mais de 300 policiais para reprimir os cocaleiros. Sem outra fonte de sobrevivência, os cocaleiros travaram uma intensa luta contra as forças armadas do governo. Ao final do conflito, um banho de sangue deixou um saldo de 200 mortes camponesas, episódio que mobilizou o país inteiro em grandes atos de indignação. Foi no contexto dessas lutas que emergiu a figura de Evo Morales.

Filho de mãe Aimará e pai Quechuá, Morales emigrou para o Chapare e logo se tornou uma respeitada liderança cocaleira. Apoiado pelos sindicatos camponeses e associações locais organizadas em todo o país a partir dos anos de 1970, Evo expressava os anseios de lutas populares contra o neoliberalismo. No final dos anos 1990, as mobilizações indígenas e camponesas intensificaram seus métodos de luta, com bloqueios de estradas e grandes marchas. Incialmente essas mobilizações se deram por fora das instituições partidárias, porém, com o acirramento das lutas, paulatinamente houve uma convergência de grande parte dos ativistas em direção ao Movimento Al Socialismo – Instrumento Político para la Soberanía de los Pueblos (MAS-IPSP). A nova legenda partidária surgiu como herdeira de diferentes tradições políticas.

Evo Morales se destacou, desde o início, como principal dirigente do MAS. A perseguição que sofreu como líder dos cocaleiros do Chapare o projetou como uma figura de prestígio nacional e inimigo intransigente dos governos neoliberais. A ascensão política do MAS foi beneficiada também pela Lei de participação Popular, com a introdução do voto distrital para o legislativo e a criação de centenas de novos municípios nas zonas rurais. Essa novidade permitiu ao movimento indígena- camponês vencer as eleições em muitos municípios e ocupar cargos legislativos em âmbito nacional.

Em abril do ano 2000, quando se conseguiu reverter a privatização da empresa de água e saneamento de Cochabamba, o MAS se tornou definitivamente o grande partido de oposição ao neoliberalismo. Em setembro de 1999, a empresa municipal de fornecimento de água foi privatizada em favor do consórcio “Aguas del Tunari”, controlado pelas companhias norte-americana Bechtel e a italiana Edison. Ao mesmo tempo, o governo Banzer aprovou a lei de Serviços Básicos e extinguiu as associações comunitárias criadas para administrar esses serviços. Em Cochabamba, a privatização desse serviço levou de imediato a um aumento de 300% nas tarifas de água, provocando uma reação popular de grandes dimensões. O confronto teve início em janeiro de 2000 com o fechamento de estradas. Em fevereiro do mesmo ano, uma marcha com milhares de participantes ocupou a praça central de Cochabamba, transformando-a em quartel general das mobilizações, episódio conhecido como Guerra da Água. As mobilizações se prolongaram por vários meses e, por fim, o povo boliviano reverteu a privatização da água.

A Guerra da Água foi a primeira grande vitória dos movimentos populares depois de quinze anos de governos neoliberais. Este fato inaugurou um ciclo de mobilizações sociais cujo eixo de atuação logo se espalhou para as comunidades Aimará no altiplano andino. Os Aimará apoiaram as pautas que buscavam combater o neoliberalismo e defender seu território e suas formas tradicionais de existência. Assim, se fortaleceu no interior da sociedade boliviana a ideia de que a soberania do país dependeria da recuperação do controle da sociedade sobre seus recursos e do reconhecimento das diversas identidades culturais dos povos originários.

O esgotamento do projeto neoliberal se tornou mais evidente em 2003, quando Sánches Lozada, o Goni, presidente eleito no ano anterior, propôs um projeto de exportação do gás natural para os EUA. Um consócio de empresas estadunidense, transportaria o gás do campo de Margarita, no sudeste da Bolívia, para um porto chileno no Oceano Pacífico, de onde seguiria para os EUA. O projeto permitiria que o consórcio norte-americano vendesse o gás natural por um valor 20 vezes superior a quantia paga pela empresa ao governo boliviano. Essa proposta foi rechaçada pela população, que exigiam a convocação de uma nova Assembleia Constituinte, com o objetivo de refundar a Bolívia e acabar com o caráter colonial do Estado e garantir plenos direitos as populações indígenas.

Essa plataforma política produziu uma grande aliança entre camponeses, Aimará, Quéchua, cocaleiros, sindicalistas e organizações populares urbanas, que paralisaram o país em protestos contra os planos de exportação do gás. Uma greve geral, convocada pela COB irrompeu na capital e muitas regiões do país passaram a sofrer com a crise de abastecimento. O momento decisivo do conflito ocorreu quando Goni, em 12 de outubro, ordenou as tropas a abrirem fogo contra os manifestantes a fim de garantir a passagem de caminhões de combustíveis. A operação militar deixou 26 mortos. A partir de então, a palavra de ordem de nacionalização do gás foi substituída pela renúncia imediata do presidente. Neste período, Carlos Mesa, vice-presidente, rompeu com governo e abriu espaço para uma saída negociada ao assumir a presidência após a renúncia de Goni.

Pressionado pelo FMI e por setores oligárquicos internos, Mesa não conseguiu dar respostas necessárias para as questões colocadas pelo povo Boliviano. Em meio ao cenário de intensa mobilização, no dia 7 de maio de 2005, foi aprovada no Congresso boliviano a Lei Geral de Hidrocarbonetos, que impunha maiores alíquotas de impostos sobre a extração mineral. A lei foi questionada por inúmeras petroleiras transnacionais, dentre elas a Petrobrás, que ameaçaram questionar a decisão nos tribunais internacionais. Carlos Mesa procurou postergar o quanto pode a aplicação da lei, fato que reacendeu as revoltas populares. No dia 6 de junho de 2005, quando as estradas do país inteiro estavam bloqueadas por manifestantes, Mesa apresentou sua carta de renúncia. No mesmo ano foi aprovada a convocação para as eleições gerais.

O resultado das eleições de 18 de dezembro de 2005 foi uma inequívoca vitória dos movimentos populares e democráticos que exigiam mudanças profundas na política econômica do país. Com quase 54%, Evo Morales foi o primeiro presidente indígena eleito e alcançou a margem mais alta de votação na história democrática da Bolívia, com comparecimento recorde de 84% dos eleitores nas urnas.

O governo de Evo Morales

Evo Morales assumiu a presidência da Bolívia em 2006 e alimentou as esperanças dos mais pobres de combater o neoliberalismo e produzir melhorias no bem-estar de todos os cidadãos. Na visão dos dirigentes do MAS, esse processo passava pela nacionalização do petróleo e do gás natural. Como já havia prometido em Campanha, não confiscou os ativos das empresas estrangeiras. O foco da nacionalização dos hidrocarbonetos passava pela revisão dos contratos e não pela expulsão das companhias petroleiras. Assim, as empresas transnacionais foram autorizadas para continuar operando em território boliviano.

A reafirmação da propriedade estatal sobre o petróleo e o gás natural e o aumento as taxas de impostos pagas pelas petroleiras aumentou fortemente as receitas do Estado. Somado a isto, foi definida uma política de soberania industrial no setor, com grandes investimentos e protagonismo da empresa estatal YPFB. O governo Evo estimulou o projeto de industrialização nacional que tinha como foco a transformação do petróleo e do gás natural em produtos de maior valor agregado. Tratava-se na prática de substituir a base neoliberal por uma política em que o Estado operasse como núcleo do desenvolvimento nacional.

Como resultado da política de nacionalização, a parcela das receitas do governo oriundas dos hidrocarbonetos passou a corresponder a 70% da receita total, enquanto os 30% restantes eram apropriados pelas empresas transnacionais. No ano de 2006, a renda do país obtida com a exportação de petróleo e principalmente gás natural atingiu quase 1,3 bilhão de dólares, mais do que o dobro da receita do ano anterior, de 608 milhões de dólares.

Em 2008, com o aumento dos preços internacionais do petróleo (que afeta diretamente o valor do gás), a receita boliviana ultrapassou 1,6 bilhão de dólares, ou seja, 25% maior do já espetacular salto realizado em 2006. Com o aumento das receitas e da soberania nacional sobre seus recursos, o PIB da Bolívia cresceu nos três primeiros anos do governo de Evo a um ritmo acelerado de 5,2% ao ano e fechou 2009 com 3,5%, a maior taxa de crescimento da América Latina. Assim, a Bolívia pôde constituir as bases fiscais para ampliar as políticas sociais.

A maior batalha travada no primeiro governo de Evo foi sem dúvida a nova Constituinte. Entre os temas que mais provocavam divergências, estavam a autonomia provincial e a autonomia indígena. Liderada pelo partido de direita “Podemos” que havia sido derrotado nas eleições de 2005, os setores da burguesia empresarial e agrária impulsionaram suas demandas a partir dos departamentos da chamada Meia-Lua (Bení, Pando, Santa Cruz e Tarija), no leste do país.

A Meia-Lua se tornou o foco de contestação ao governo Morales à medida que as forças políticas ligadas ao neoliberalismo foram perdendo espaço das regiões andinas, onde o apoio ao presidente era hegemônico. No lesta da Bolívia, a elite econômica era bem mais forte politicamente que no Oeste, apoiadas pelos interesses transnacionais do gás e, principalmente, do agronegócio. Os conflitos se tornaram cada vez mais frequente e atingiu seu auge quando grupos fascistas espancaram indígenas na rua de Sucre, capital do departamento de Chuquisaca. As forças populares se insurgiram e, por fim, no dia 9 de novembro de 2007, a nova Constituição foi votada.

Derrotado na tentativa de impedir a elaboração da nova Constituinte, os setores conservadores reorientaram sua ofensiva contra o governo. Diante do impasse político produzido pelo quase estado de guerra civil, foi realizada uma consulta popular para decidir a revogação ou não do mandando de Evo. O presidente recebeu um amplo apoio da sociedade boliviana, obtendo quase 70% dos votos, o que fortaleceu sua legitimidade. O governo que a pouco tempo parecia fragilizado, emergiu da consulta popular mais forte e pronto para enfrentar os temas fundamentais da Constituição aprovada no ano anterior.

Em uma prova do fortalecimento das instituições diretas de participação popular, a Constituição do Estado Boliviano foi submetida a um referendo em 25 de janeiro de 2009 e aprovada por 61,4% dos votos. Entre um de seus principais avanços, a atual Constituição da Bolívia estabeleceu o caráter plurinacional e comunitário do Estado.

Embora os avanços sociais sejam inegáveis na Bolívia, acompanhado com um fortalecimento dos instrumentos democráticos, o governo de Evo não deixou de expressar algumas contradições que explicam parte do golpe de Estado que ocorreu no último dia 10 de novembro.

O crescimento econômico da Bolívia foi o mais estável e mais alto da América Latina. O salário mínimo, que era de 440 bolivianos (moeda nacional) em 2005, subiu para 1646 bolivianos em 2015, enquanto a taxa de desemprego que era de 8,1% em 2005, caiu para 5,5% e a inflação se manteve estável em 5% para o período assinalado. Em seu conjunto, os três principais programas sociais do país (Bônus Juacinto Pinto, Renda Dignidade e Bônus Juana Azurduy) beneficiaram diretamente 42% da população.

Com a nacionalização do setor elétrico, as tarifas de eletricidade também reduziram drasticamente e permitiu a ampliação do acesso a energia elétrica para as regiões mais pobres.

As conquistas na arena econômica e social, também foram expressas no plano da política e da cultura, dando início a um forte processo de descolonização do Estado Boliviano, com ampliação do direito de ingresso de indígenas e camponeses aos postos de poder. Em 2011, cinco dos nove governadores eleitos eram de origem indígena ou camponesa, e 90% dos 166 deputados eleitos na Assembleia Legislativa eram oriundos dos movimentos sociais. No Judiciário, a composição total possuía um número recorde de 50% de mulheres indígenas e camponesas juízas e promotoras.

Assim, a presença indígena tornou-se o elemento central na refundação da Bolívia. As divergências entre Evo e sua base social indígena se deu incialmente a partir das diferenças materiais entre a economia “extrativa” e o Estado de Bem-Viver defendido pelos povos tradicionais. O primeiro grande conflito ocorreu em 2011, quando foi anunciado a construção de uma rodovia que cruzava o Território Indígena Parque nacional Isiboro-Securé (Tipins), uma área de proteção ambiental com 1,1 milhão de hectares e onde viviam 12 mil pessoas pertencentes aos povos Yucaré, Moxenho e Chimane. O Tipins localiza-se na Amazônia e produziu intensos debates que envolveu os povos indígenas, o governo e ambientalistas. Após intensos conflitos e a tentativas de impor a construção da rodovia, Morales recuou em sua proposta.

Desta forma, conflitavam interesses entre elevar a necessidade de extração mineral para geração de divisas com a perspectiva do Bem Viver de muitos povos originários, que em sua essência, difere diametralmente de qualquer vertente do capitalismo.

A oposição soube se aproveitar dessa fragilidade e mobilizar sua base social para desestabilidade do governo de Morales. Foi nesse contexto que se deu a derrota de Evo no referendo de 2016 e que se desdobraram nos conflitos sociais deste ano.

Os impasses da América Latina e da Bolívia hoje

A experiência da esquerda latino-americana no governo marca o término de uma longa história mundial caracterizada pela tentativa de consolidar políticas redistributivas, regulação dos agentes econômicos e incorporação das massas populares ao campo eleitoral. A Bolívia, sem dúvida, representa uma das expressões mais avançadas desse processo.

É importante observar que o neoliberalismo impactou profundamente toda a região e buscou restituir os elementos neocoloniais que estruturam o processo de subdesenvolvimento dos países latino-americanos. Assim, se desenvolveu no interior das sociedades locais um forte processo de polarização que buscava combater o neoliberalismo e o déficit crescente de participação popular nos processos políticos.

Na Bolívia, o processo de nacionalização dos recursos naturais permitiu fortalecer a soberania nacional e aprofundar o processo de desenvolvimento e distribuição de renda. Neste sentido, o fracasso da experiência dos governos progressistas de países como o Brasil ou Chile, possuem marcadores diferentes do que observamos na Bolívia, embora existam também muitas semelhanças.

Dentre os elementos que nos aproxima, observa-se a dependência econômica e a participação subordinada na divisão internacional do trabalho, processo que estrutura graves impasses econômicos e políticos em toda América Latina. A força dos países hegemônicos, associada aos grupos internos de poder, buscam reduzir as condições de existências dos povos latino-americanos e superexplorar sua força de trabalho.

Esta política visa extinguir os padrões mínimos de solidariedade social e alimenta conflitos abertamente racistas. Em linhas gerais, pode-se dizer que esta é a base que sustenta a polarização entre os grupos de esquerda e extrema direita nos dias de hoje.

Portanto, os impasses da gestão social na América Latina, se quiser romper com o racismo estrutural, deverá operar de outra forma, deslocando as forças progressistas para reformas estruturais e enfrentando os grupos conservadores que buscam a todo custo perpetuar as estruturas neocoloniais. Na Bolívia, o povo mobilizado e o peso dos movimentos indígenas e camponeses são contrapesos fundamentais para responder aos ataques golpistas perpetrados no último dia 10 de novembro. Os capítulos dessa história ainda estão por ser escritos e o avanço de consciência da sociedade boliviana joga um peso fundamental no enfrentamento da crise política que se instaurou no país.

Somos solidários a luta do povo boliviano, pois esta também é nossa luta!

Referências

FUSER, Igor. Bolívia. São Paulo. Editora Perseu Abramo, 2016.

LINERA, Álvaro Garcia. La sublevación indígena popular en Bolivia, Revista Chiapas, n. 16, Cidade do México, 2004.

PANNAIN, Rafaela N. A Reconfiguração da política boliviana: reconstituição de um ciclo de crises. Revista Lua Nova, n. 105, 2018.  

PERICÁS, Luiz Bernardo. Processo e Desenvolvimento da Revolução Boliviana. Revista Lutas Sociais, São Paulo.  

STEFANONI, Pablo: Governo Evo Morales: permanências, mudanças e desafios. Revista Lutas Sociais, n.24. São Paulo, 2010.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.