A mátria brasileira em cena
Adriana Esteves, Regina Casé e Taís Araújo vivem as protagonistas Thelma, Lurdes e Vitória, em 'Amor de Mãe' — Foto: João Cotta/Globo

A mátria brasileira em cena

Isaque Castella analisa a telenovela “Amor de Mãe”.

Isaque Castella 16 dez 2019, 17:00

Distante de serem uma exceção no país, os núcleos familiares compostos exclusivamente por mulheres e seus filhos já eram, em 2015, segundo levantamento do IBGE, mais de 11,6 milhões no Brasil. Dados do Conselho Nacional de Justiça (CNJ), baseados no Censo Escolar de 2011, mostram que 5,5 milhões de crianças brasileiras não possuem o nome do pai na certidão de nascimento. Os números ainda apontam que as mães são aquelas que, na maioria absoluta dos lares, se encontram fática e diretamente responsáveis pelos filhos.

Na mátria brasileira, em que predominam a ausência paterna e também a cultura fortemente marcada pela “divisão” sexual do trabalho, para a qual a mulher é levada a assumir sozinha a esfera da reprodução, tendo já assumido, muitas vezes, ambas, é comum nos depararmos com mulheres, mães, que se desdobram em várias para dar conta de conciliar as muitas tarefas diárias. Jornadas duplas, triplas… esse é o Brasil da vida real, da classe trabalhadora, mas que não deixa de perpassar, em maior ou menor medida, todas as classes sociais.

Para além de um heroísmo romantizado, às mulheres desse país nem sempre é dado o poder de escolha. É preciso dizer de maternidades, no plural, tais como as vivências plurais, singularmente coletivas, de família. Experiências diversas do ser mãe, que se encontram em alguma medida, e que inspiraram a narrativa sensível de Manuela Dias, autora da nova telenovela global da faixa das 21 horas, Amor de Mãe.

Repetindo a dobradinha com o diretor José Luiz Villamarim, após o sucesso internacional da série Justiça, agora com a responsabilidade de atingir uma audiência de aproximadamente 60 milhões no horário nobre da principal emissora televisiva do país, Dias lança mão de uma trama hiper-realista que busca se aproximar do público com uma história protagonizada por 3 mulheres, vividas por Regina Casé, Adriana Esteves e Taís Araújo, personagens capazes de gerar a imediata identificação dos telespectadores.

Lurdes, interpretada por Casé, para além das telinhas, se faz presente em milhões de lares brasileiros: uma mulher, de origem nordestina, que a vida construiu como uma fortaleza, cujo principal drama perpassa a busca por um filho vendido, quando criança, pelo ex-marido. Ao mesmo tempo, vivencia diversas situações desafiadoras envolvendo os outros filhos. Já no primeiro capítulo, Lurdes vê o filho Magno (Juliano Cazarré) enfrentar a culpa por supostamente ter matado um homem ao salvar de um estupro uma mulher que gritava por socorro em um beco escuro, cena que sucede um antológico plano-sequência da teledramaturgia brasileira.

Compartilhando a dor e angústia de muitas mães que têm seus filhos no cárcere, Lurdes acredita que o apenado Sandro (Humberto Carrão) é Domênico, seu filho roubado, e se desespera ao ter notícias de uma rebelião no presídio. Quantas mães brasileiras não choram sobre os caixões de seus filhos mortos em eventos desse tipo no questionável sistema prisional? Quantas não se encontram como se presas estivessem juntamente aos seus filhos? Quantas não sabem de onde tirar forças para enterrar os filhos vitimados pela violência de nossas caóticas urbes?

No primeiro capítulo de Amor de mãe, o público é apresentado à Lurdes através de uma entrevista de emprego. Sua interlocutora é a patroa Vitória (Taís Araújo), uma das mais bem-sucedidas advogadas do Brasil e que sofreu um aborto no ofício da profissão, quando empurrada pela indignada mãe da vítima de um homicídio cometido pelo seu cliente, absolvido no Tribunal do Júri. Vitória encontra dificuldades para engravidar e decide terminar seu relacionamento em nome do sonho de ser mãe.

Logo depois de deixar o apartamento de Vitória, Lurdes se depara com Thelma (Adriana Esteves) passando mal em uma movimentada avenida. É na sequência, já no hospital, que a personagem de Esteves descobre ter um aneurisma, o que a deixa arrasada. Thelma é mãe de Danilo (Chay Suede), de quem decide, de pronto, esconder o quadro de saúde. Eles vivem o drama em torno da manutenção de um restaurante familiar.

As três protagonistas pertencem a classes sociais distintas: Lurdes trabalha na casa de Vitória, que, por sua vez, é uma consagrada advogada, profissional liberal, detentora de um apartamento de alto padrão. Já Thelma compõe um núcleo de classe média, que passa por dificuldades financeiras. O que as conecta? Experiências de maternidade solo que acabam por se encontrar e, assim, determinam o seguimento da trama, costurada a partir de eventos cotidianos, sem a presença, contudo, de um grande vilão ou vilã na posição de condutor(a).

Em que pese ainda operar na matriz narrativo-estético-cultural melodramática, haja vista a estratégia aproximativa do público, o apelo aos dramas familiares e às sensações fortemente experimentadas e expressadas, Amor de Mãe pode representar uma atualização contemporânea do melodrama, vez que não trabalha com os arquétipos clássicos do esquema maniqueísta, que encarnam os tipos sociais do mocinho, totalmente bom, e do vilão, inteiramente mau.

A ausência de um grande vilão, ainda que existam personagens mais tendentes à vilania, é uma especificidade da trama escrita por Dias, que, assim, acaba se aproximando, em grande medida, do estilo narrativo de Manoel Carlos, ressalvadas as diferenças entre os dois autores. Manuela Dias, contudo, traz uma história predominantemente suburbana, marcada pela pegada realista, na esteira de outros grandes sucessos globais como Avenida Brasil, telenovela da qual Villamarim fez parte.

Amor de Mãe, tal como Avenida Brasil, tematiza um novo país, que passou por importantes mudanças recentes, como a inclusão social de setores mais precarizados da população, ainda que precariamente, pela via do consumo. Mas se a telenovela de João Emanuel Carneiro representava a euforia com uma dita “nova classe C”, em ascensão naquele momento, a trama de Manuela Dias retrata o momento mais contemporâneo, de perceptível decadência social e econômica. Não se percebe mais aqui um núcleo comercial pujante, mas um cenário generalizado de maior vulnerabilidade e crise. Temáticas atuais como a questão da exploração desmedida e irresponsável dos recursos naturais ganham destaque na narrativa.

Trata-se, em suma, de uma telenovela que consegue tocar de maneira sutil e, ao mesmo tempo profunda, em questões sociais relevantes na agenda Brasil. Um trabalho de direção primoroso contribui para tanto. A história é contada de modo delicado, em que as personagens têm sua intimidade respeitada, haja vista o uso frequente de planos fixos e mais distantes. Do mesmo modo, a inteligência da audiência não é subestimada, mas, pelo contrário, valorizada, na medida em que o público é convidado a pensar a partir das lacunas deixadas, obviedades não ditas e que talvez não sejam tão óbvias quanto aparentam ser.

Para aqueles que insistem em torcer o nariz para as produções televisivas, identificadas pejorativamente como pertencentes a uma cultura menor, de massas, enquanto locus necessário de alienação, Amor de mãe aparece surpreendentemente como uma telenovela das 21 horas que alia crítica social inteligente, trabalho de direção artística caprichado, digno de premiações internacionais, atuações impecáveis de grandes nomes da teledramaturgia brasileira e que carregam enorme representatividade e um texto sensível e primoroso de uma autora, e mãe (e que fala desse lugar), que se apresenta como uma das grandes revelações no mundo das telenovelas nacionais.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.