Defendendo a autonomia de Hong Kong: uma vitória parcial

Defendendo a autonomia de Hong Kong: uma vitória parcial

A voz do povo é um claro e forte “não” contra as políticas de linha dura do establishment.

Au Loong Yu 23 dez 2019, 15:03

A vitória esmagadora do campo da oposição nas eleições distritais locais de Hong Kong, a 24 de Novembro, pode ser considerada como um referendo tanto sobre o governo de Hong Kong como sobre Pequim. A voz do povo é um claro e forte “não” contra as políticas de linha dura do establishment.

A oposição normalmente tem cerca de 55-60 % de apoio nas eleições legislativas e apenas cerca de 40 % nas eleições distritais. O fato de a oposição ter agora obtido 57% dos votos, em comparação com os 41% dos partidos pró-Pequim, é certamente uma grande vitória.

É uma vitória ainda maior em termos de lugares efetivamente preenchidos. Os pan-democratas ganharam 388 assentos no total – um aumento de 263 assentos em relação ao último turno das eleições – enquanto os partidos pró-Pequim perderam 240 assentos, mantendo apenas 59 assentos no total.

A popularidade do campo pan-democrata chegou a ser captada em algumas pesquisas antes das eleições: 83% da população coloca a culpa da violência no governo, enquanto apenas 40% pensava que era também responsabilidade dos manifestantes.

Mesmo assim, ninguém nunca pensou que os pan-democratas pudessem vencer por uma margem tão grande nas eleições distritais, especialmente num momento em que os elementos radicais do movimento começavam a declinar.

Durante a semana anterior às eleições a polícia sitiou a Universidade Politécnica ocupada pelos manifestantes, e apesar de várias dezenas deles ainda se recusarem a render-se, havia pouco que eles ou os seus apoiantes lá fora pudessem fazer. Gradualmente, a maioria deles se rendeu e foi presa. Alguns, no entanto, conseguiram escapar.

A vitória eleitoral certamente aumenta a moral da oposição. É também encorajador que mais de sessenta dos recém-eleitos membros do conselho distrital tenham ido hoje à entrada do Politécnico para expressar solidariedade com os manifestantes que ainda se escondem lá dentro e para reconhecer a contribuição dos estudantes para o movimento.

A polícia finalmente entrou no campus em 28 de novembro, mas sem fazer novas prisões.

Na verdade, esta é a segunda grande vitória da oposição – desde a última que forçou o governo de Carrie Lam a retirar a lei anti-extradição em 4 de setembro.

Com estas duas grandes vitórias, um novo tipo de ativismo pode emergir neste movimento que Hong Kong ainda não viu. Pelo contrário, o Movimento dos Guarda-Chuvas em 2014 foi totalmente derrotado, seguido de um longo período de desmoralização entre os ativistas. Com mais de dois milhões de pessoas sendo mobilizadas, o movimento tem agora uma oportunidade de aprender com suas experiências passadas.

Por último, houve pelo menos cinco tentativas de convocar uma greve geral. Apenas a greve geral de 5 de agosto foi bem sucedida, paralisando essencialmente metade da cidade. Esta é a primeira greve geral em décadas e demonstra o poder dos trabalhadores para o povo.

Há agora jovens ativistas que percebem a importância da luta laboral e apelam à adesão ou à formação de novos sindicatos.

O que é único nestes esforços recentes de sindicalização é que eles são radicalmente descentralizados, sendo auto-organizados por participantes bastante anônimos em plataformas online como o Telegram, em vez de se organizarem face a face no local de trabalho.

Resta ver até que ponto este impulso sindicalizador se pode consolidar e tornar eficaz. O chamado de um jovem funcionário público para formar um novo sindicato de funcionários públicos suscitou uma resposta muito boa: a notícia relatou que centenas de funcionários públicos se alistaram.

Artigo originalmente publicado no International View Point em 30 de novembro de 2019. Tradução de Charles Rosa para a Revista Movimento.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.