“O feminismo dos 99% não é uma alternativa à luta de classes, é outra frente dentro dela”
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“O feminismo dos 99% não é uma alternativa à luta de classes, é outra frente dentro dela”

Em entrevista, Nancy Fraser dialoga a respeito do movimento feminista internacional.

Nancy Fraser e Rebeca Martínez 4 dez 2019, 14:41

Nancy Fraser se mostra contundente contra o feminismo liberal de mulheres como Hillary Clinton que só buscam galgar posições dentro das empresas. Frente a este feminismo das privilegiadas, Fraser aponta a urgência em se criar um feminismo que esteja do lado da maioria das mulheres: das trabalhadoras, das migrantes, das lésbicas e trans, e de seus problemas, que têm mais a ver com o racismo institucional que elas suportam e com a exploração que vivem dentro de seus locais de trabalho e de suas casas, onde se encarregam da maior parte dos cuidados. É precisamente sobre isto que fala no manifesto Feminismo Para os 99%, que assina junto com Cinzia Arruzza e Tithi Bhattacharya (…).

A professora de Filosofia na New School de Nova York esteve em Madri recentemente, em uma visita coordenada pelo Grupo de Estudos Críticos, e falou com a Viento Sur sobre este feminismo para a maioria e sobre o ataque que está sendo levado a cabo pelo neoliberalismo contra aspectos vitais tão importantes como a criação de meninos e meninas, o cuidado dos idosos, a saúde, a educação e a moradia.

Rebeca Martínez – Sobre o manifesto Feminismo para os 99% que assinou junto a outras mulheres, o que ele é e por que ele foi lançado agora?

Nancy Fraser – É um ensaio curto que pretendíamos que fosse popular e que fosse lido facilmente. Não é uma escrita acadêmica, tem a forma de um manifesto. Escrevi junto com outras duas pensadoras feministas: uma é a italiana Cinzia Arruza, que agora vive em Nova York, e a outra Tithi Bhattacharya, que é indiana e é professora nos Estados Unidos.

Esta foi a primeira vez, desde que comecei meu ativismo nos anos sessenta ou setenta, que escrevi um ensaio como esse, de autêntica agitação política, tendo em conta que sou professora de Filosofia. Contudo, os tempos agora são tão duros, a crise da sociedade e da política é tão severa, que senti que tinha que dar o salto e escrever para uma audiência mais ampla.

O manifesto é uma tentativa de articular uma nova via para o movimento feminista, que durante as últimas duas décadas esteve dominado pelo feminismo corporativo e liberal representado por Hilary Clinton nos Estados Unidos. Este é o feminismo de mulheres profissionais e diretoras, de mulheres relativamente privilegiadas, em sua maioria brancas, com formação e de classe média ou média-alta, que tentam colocar a cabeça no mundo dos negócios ou nos meios de comunicação. Com esse projeto o que pretendem basicamente é escalarem na hierarquia das empresas para serem tratadas da mesma forma que os homens de sua mesma classe e ter o mesmo salário e o mesmo prestígio.

Este não é um feminismo igualitário, é um feminismo que não tem muito a oferecer a uma vasta maioria de mulheres que são pobres ou da classe trabalhadora e que não tem esses privilégios: mulheres imigrantes, mulheres trans… Este feminismo do 1%, ou como muito dos 10%, tomou o nome do feminismo, associando-o à liderança, ao individualismo e à vida empresarial. Deu ao feminismo um mau nome e o associou com o neoliberalismo, a financeirização e a globalização, com políticas que vão contra a classe trabalhadora.

Nós três queremos propor uma alternativa a isso, e não estamos sozinhas, porque há outras feministas de esquerda que também tentaram fazê-lo. E, com efeito, a alternativa está crescendo coma as enormes marchas e as manifestações do 8 de março, que têm um caráter anticapitalista e antissistêmico, que protestam contra a austeridade e o ataque à reprodução social.  

Pensamos que era um bom momento para dar o salto e tentar criar um feminismo que seja realmente antissistema, anticapitalista e que se referencie nas mulheres pobres e da classe trabalhadora para melhorar suas vidas. O interessante é que é um movimento que deve se centrar em temáticas tradicionais, como o direito ao aborto e outros pontos, que são sem dúvida fundamentais, mas que tem que pensar também além, na grande crise da sociedade, para articular políticas e programas que beneficiem todo mundo. Por isso, o feminismo dos 99% não significa apenas 99% das mulheres, significa os 99% dos seres humanos do planeta. Essa é a ideia geral do manifesto.

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Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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