Greve à francesa
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Greve à francesa

Israel Dutra analisa a greve geral na França contra a reforma da previdência de Macron.

Israel Dutra 11 jan 2020, 19:01

A virada do ano foi movimentada em várias partes do planeta. Os incêndios na Austrália, a escalada militar entre Estados Unidos e Irã; as movimentações da política em vários países, bem como conflitos sociais que não deixaram de existir mesmo no primeiro dia do ano em Hong Kong, no Chile e na Índia. O ano 20 começa com a instabilidade e polarização que marcaram 2019. 

Nesse quadro mais geral, é necessário olhar com atenção ao que está acontecendo na França. Uma potente mobilização, de greve contínua, que já dura quase 40 dias e enfrenta o governo. O ponto de conflito é a proposta de Reforma da Previdência, coração do ajuste de Macron. Alguns meios de comunicação falam em “guerra social” ou “guerra de classes”. Nada mais atual. 

A França está permeada por um profundo processo de insatisfação social. Tivemos vários sintomas recentes do “mal-estar”. A entrada em cena- inesperada- do movimento dos “Coletes Amarelos”, há mais de um ano, colocou a disputa de rua no centro da política nacional. No âmbito da cultura, um dos filmes mais aclamados foi “Em Guerra”, de Stephan Brizé, onde o cenário é de uma greve duríssima contra as demissões na indústria; um dos livros mais vendidos do ano de 2019 foi “Serotonina”, de Michel Houlebeq, um romance que liga a desesperança das camadas médias com uma inusitada revolta de agricultores na “França profunda”; a foto que ganhou destaque no final do ano foi o protesto da Ópera de Paris, dançando em praça pública, o “Lago dos Cisnes” de Tchaikovski. 

O presente embate, que concentra as contradições acumuladas ao longo do período Macron, se iniciou há mais de dois meses, quando o governo enviou a proposta de reforma do sistema previdenciário. A proposta do governo busca eliminar as diferentes modalidades de aposentadorias (hoje são 42) para uma única, elevando a idade mínima para 64 anos, perdendo inúmeros direitos. Imediatamente os sindicatos e centrais convocaram protestos e greves. 

Tivemos quatro jornadas de greves gerais, contudo, algumas categorias votaram greves permanentes. A mais importante e que segue firme é a greve dos transportes, onde os ferroviários (SNCF e RATP) se destacam. É a greve mais longa da história do setor. A quarta grande jornada de protesto aconteceu no dia 09/01(última quinta-feira). O governo conclamou uma trégua “natalina” durante o período de recesso. A ampla maioria dos sindicatos, ampliando para setores médios como os advogados,  respondeu com a continuidade dos protestos. A greve geral foi convocada pelas principais organizações sindicais (CGT, FO, FSU, CFE, Solidarites), apoiada pela UNEF e UNL, entidades ligadas ao movimento estudantil. Apenas a CFDT não se mobilizou para essa greve geral, ainda que tenha convocado a do dia 17/12. 

As manifestações chamam a atenção pelo seu caráter político, pela radicalidade e a criatividade. A convergência entre trabalhadores da cultura, pilotos e trabalhadores da Air France, com a vanguarda juvenil e o vigoroso movimento dos Coletes Amarelos dão o tom. As refinarias estão bloqueadas há quase uma semana, impondo piquetes como método, ampliando a hipótese de um desabastecimento geral de combustíveis. As pesquisas de opinião indicam que dois terços dos franceses apoiam os protestos. 

A crise orgânica que vive o regime político francês, no qual as conjunturas políticas se tornaram voláteis nos últimos anos, encontrou finalmente uma medida de força organizada de toda a classe trabalhadora francesa. Macron chegou ao poder se apresentando como uma força “renovadora” de Centro, para conter os ímpetos da extrema-direita ou o que chamou de “demandas populistas da esquerda”. Vale recordar que Marine Le Pen e Mélenchon tiveram 21,3% e 19,6%, respectivamente, no primeiro turno do último pleito presidencial em 2017. Alçado à condição de “Júpiter” por considerar-se forte diante dos governos, Macron conheceu o declínio de seu capital político ao longo do mandato. A entrada em cena dos “Gillets Jaunes”, os famosos Coletes Amarelos, rompeu o esquema de estabilidade aparente e trouxe para superfície as questões sociais e políticas até então reprimidas. A irrupção do método radical dos estratos mais sofridos da classe trabalhadora mudou a paisagem política do país. Desde a imprensa aos locais de trabalho e estudo, a marca do protesto foi revelando o mal-estar do conjunto da sociedade. Protestos e enfrentamentos com as forças policiais viraram rotina durante os meses de protestos dos Coletes Amarelos, com o governo ora reprimindo e criminalizando ora concedendo, como o ganho real para o salário mínimo. 

Movimentos anteriores como o da juventude, “Nuit debout” contra a lei que precarizava o trabalho, ajudaram a forjar uma vanguarda importante e combativa. Essa camada hoje atua junto ao movimento grevista, nas diferentes esferas. 

E junto aos outros processos internacionais de revolta, podemos afirmar que a França tem um componente estratégico. Ao afirmar não apenas uma luta reivindicativa, mesmo que tenha sido reivindicativo o ponto de partida, a classe trabalhadora toma consciência e dá um salto de qualidade na luta de classes, como afirmava Lenin. A grande greve de 1995 deixou marcas fundamentais na sociedade como resposta ao neoliberalismo, num cenário internacional bastante mais estável e defensivo. Agora, uma vitória que torça o braço do governo pode significar um ponto de inflexão, na luta de classes e na subjetividade da vanguarda do movimento operário.

Desta maneira a greve, no seu modo francês, recoloca peça estratégicas no tabuleiro da disputa política. Por isso é tão importante o apoio incondicional, a solidariedade internacionalista, e acompanhar seus desdobramentos. Enquanto escrevemos estas breves considerações, o primeiro-ministro Édouard Philippe anuncia neste sábado (11/01) a retirada do aumento da idade mínima de aposentadoria de 62 para 64 anos. Trata-se de uma concessão do governo ganha a fórceps pelo movimento operário francês que conseguiu desequilibrar o conjunto da opinião pública a seu favor. Os próximos dias serão decisivos para avaliar o impacto desta medida.

O ano de 2020 começa com a luta da classe trabalhadora francesa inspirando o mundo e soprando esperança em tempos de combate. 


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
O MES completa 20 anos. A edição n. 14-15 da Revista Movimento é dedicada por completo ao importante evento que marca duas décadas de nossa história. Apesar de jovens, podemos dizer que poucas organizações na história política da esquerda brasileira alcançaram essa marca com tamanho vigor. Longe de autoproclamação, desejamos transformar nossos êxitos em força social e militante para novos e amplos impulsos. Ainda não cumprimos uma maratona, mas nossa história sem dúvida deixou para trás a visão de curto prazo, que alguns adversários nos chegaram a prognosticar. Diante das muitas provas, vitórias e algumas derrotas, podemos celebrar e somar forças para enfrentar as tarefas imediatas: derrotar a tentação autoritária de Bolsonaro e avançar na construção de uma alternativa socialista.