Os casos de intoxicação por dietilenoglicol encontrado em unidades da cerveja Belorizontina
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Os casos de intoxicação por dietilenoglicol encontrado em unidades da cerveja Belorizontina

Gabriel Veríssimo analisa caso de intoxicação de oito pessoas em Belo Horizonte (MG).

Gabriel Veríssimo 12 jan 2020, 18:45

O que é o dietilenoglicol?

​O dietilenoglicol (DEG) é uma substância tóxica, porém, utilizada em sistemas de refrigeração com função crioprotetora (anticongelante), ou seja, esta substância pode fazer parte da composição de líquidos refrigerantes que percorrem tubos e canos em um sistema de refrigeração, evitando o congelamento destes líquidos. A ideia é que não haja contato desse líquido com o meio que vai ser refrigerado, as trocas de calor entre eles ocorrem através de uma superfície, como por exemplo, a superfície da tubulação.

​A intoxicação por dietilenoglicol figurou na história da indústria farmacêutica estadunidense quando, em 1937, um elixir de sulfanilamida contendo DEG foi comercializado causando mais de 100 óbitos. Após esse caso, houve uma pressão social muito grande para um endurecimento nos critérios de registro de novos fármacos, o que resultou na Lei sobre Alimentos, Medicamentos e Cosméticos de 1938 que estabelecia novos padrões regulatórios para as três categorias de produtos.

Os sintomas gastrointestinais, renais e neurológicos da intoxicação são, portanto, amplamente conhecidos hoje. Em relação a estas manifestações clínicas, podem estar presentes: náuseas, vômitos, insuficiência renal aguda com evolução em até 72 horas, alteração na sensibilidade, paralisia facial, visão borrada ou perda parcial da visão.

O que se sabe até agora sobre o caso da cerveja “Belorizontina”?

​Até o momento, foram notificados 8 casos, incluindo um óbito, com características clínicas similares a intoxicação por dietilenoglicol ao Centro de Informações Estratégicas em Vigilância em Saúde – CIEVS-Minas (que compõe a Rede Nacional de Alerta e Resposta às Emergências em Saúde Pública do SUS). Todos os casos referem-se a pacientes do sexo masculino, com idades variando entre 23 e 76 anos e o tempo médio entre o início dos primeiros sintomas e a internação é de 2,5 dias.

​Nesse aspecto, é importante também ressaltar a importância do Sistema Único de Saúde – SUS, mostrando que o mesmo é utilizado por todos. Por meio das redes de vigilância e acompanhamento do SUS, foi possível levantar um sinal sobre o caso, o que permitiu o desenvolver das primeiras investigações epidemiológicas que relataram o perfil clínico e indícios iniciais da manifestação da intoxicação. Com isto fica evidente o quão é necessário e importante o papel que o SUS tem para a saúde da população, sendo que seu funcionamento deve ser não apenas garantido como fomentado.

Posteriormente, um laudo pericial da polícia civil de Minas Gerais datado de 09 de janeiro, constatou a presença da substância em amostras dos lotes L1 1348 e L2 1348 da cerveja Belorizontina, fabricada pela Cervejaria Backer. Essas amostras foram recolhidas na casa dos indivíduos que apresentaram as características clínicas da intoxicação.

​O fato dessas amostras terem sido recolhidas fora da indústria não permite concluir que a contaminação tenha ocorrido na unidade fabril. Portanto, isso significa dizer que contaminação ainda pode ter ocorrido em alguma etapa da distribuição, como por exemplo, durante o transporte ou no armazenamento em algum local de venda ou revenda. Com isto é importante aguardar e acompanhar as investigações antes de se ter alguma conclusão com valor técnico.

O que falta ser esclarecido?

Até o fechamento desta matéria as investigações estão em processo, com isso alguns questionamentos ficam para serem respondidos: “Como podem ser explicados os indícios de alguma ligação dos casos com o bairro Buritis?”, “Na hipótese de um problema de lote, quais informações justificariam que apenas 8 casos foram relatados até o momento?” e a principal questão: “Como ocorreu a contaminação por dietilenoglicol?”.

Se confirmada a alegação da cervejaria Backer de que a mesma não utiliza e não tem na fábrica o dietilenoglicol, mas sim monoetilenoglicol (fato que está sendo sustentado até o momento pelos comprovantes fiscais que a Polícia Civil obteve na sede da empresa), é necessário que seja desvendado como tal contaminação ocorreu e, ainda, como cada um dos dois lotes relatados pelo laudo contém 33 mil unidades e menos de 10 casos estão sendo notificados. Mesmo que os fatores dos processos de absorção, distribuição, metabolismo e eliminação apresentem significativa variação de indivíduo para indivíduo, a hipótese da contaminação do lote inteiro ainda parece carecer de fatos que a sustentem.

Com o que está sendo veiculado até o momento, pode-se dizer que é cedo para descartar qualquer hipótese. Dessa forma, é preciso cautela, os questionamentos de que a contaminação pode ter ocorrido em algum local de venda da cerveja ou mesmo a hipótese de sabotagem ainda são plausíveis. Com isto, é necessário acompanhar as análises de forma a desvendar como de fato essa contaminação ocorreu e como se explicam as nuances deste caso.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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