São Carlos e as duas faces do governo Bolsonaro
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São Carlos e as duas faces do governo Bolsonaro

Ariane Machado, militante de São Carlos (SP), sobre a violência e a corrupção do governo Bolsonaro.

Ariane Machado 24 jan 2020, 19:00

Na semana seguinte ao discurso nazista do ex-Secretário de Cultura, dois fatos de extrema relevância marcaram a cidade de São Carlos na rota da política nacional. Ambos revelam duas faces do Governo Bolsonaro que são fundamentais para a sustentação e implementação de uma política fascista no Brasil: a violência e a corrupção. Eu participei diretamente de um deles e, depois, descobri que existiam mais pontos em comum entre as duas situações do que o esperado.

O caso em que me envolvi de forma pessoal, foi a repressão que um grupo de homens extremamente violentos impôs a uma manifestação que organizamos em função da visita da Ministra Damares Alves à cidade. Nós pretendíamos protestar contra as declarações machistas, LGBTfóbicas e racistas da ministra e de Bolsonaro, assim como pela inabilidade completa na elaboração de políticas públicas para a saúde e a segurança da mulher. A resposta foi irônica. Sob agressões físicas e ameaças, o grupo não nos deixou chegar até a esquina do Paço Municipal, disseminando exatamente aquilo contra o que lutávamos. Eu, apenas por estar filmando, tomei um tapa na mão e tive meu celular pisoteado. Ainda que a polícia ali presente nada tenha feito para assegurar o cumprimento da lei, todos resistimos bravamente em defesa do nosso direito de ir e vir e de livre manifestação.

O segundo fato foi uma entrevista ao vivo da Deputada Federal Carla Zambelli para a Rádio Pop FM que, em uma tentativa de responder publicamente ao Secretário da Saúde de São Carlos sobre o descumprimento de uma promessa de emendas parlamentares para a cidade, admite que houve um esquema de compra de deputados para a aprovação da Reforma da Previdência. O governo que foi eleito com o discurso de combate à corrupção se mostra cada dia mais corroído por dentro de suas estruturas. Ao deixar os idosos à míngua depois de décadas de trabalho, o presidente, a Deputada Carla Zambelli e os demais deputados vendidos demonstram que defendem uma política de morte e miséria para a população brasileira, ao passo que não poupam esforços para fortalecer a elite.

As duas faces do governo se manifestam de maneira cristalina se as pensamos separadamente. Por um lado, o cinismo de dizer que combate a corrupção, mas na prática agindo de forma corrupta, comprando o voto dos deputados a partir do controle da liberação de emendas, mostrando cada vez mais que pouco se diferencia da lógica do velho balcão de negócios da política. Com o Governo Bolsonaro os direitos do povo são moeda de troca para os interesses dos mais poderosos setores da sociedade. Por outro, a violência fornece as bases para o medo. E o medo, por sua vez, é a melhor arma que um tirano pode ter para manter silenciado um povo.

Porém, se observarmos os fatos com a mesma lente, percebemos um ponto de contato estratégico. A aprovação da Reforma da Previdência foi um dos maiores ataques sofridos desde o início do governo, não só porque tirou direitos da população, mas também por ser, assim como a violência, uma representação da necropolítica – política de morte – de Bolsonaro. A naturalização da violência, por sua vez, também é exemplo desta política de morte do governo, que autoriza que certos cidadãos, seja pela cor da pele, pela orientação sexual e de gênero, ou apenas pelos posicionamentos políticos, podem ser agredidos, ter seus direitos retirados e até mesmo mortos.

Não é coincidência que um dos homens que me agrediu na manifestação é assessor da Deputada Carla Zambelli, um dos principais expoentes do bolsonarismo na câmara dos deputados. Carla é a imagem e semelhança deste governo, vociferando em abstrato contra a corrupção, mas fazendo balcão de negócios com emendas prometidas a municípios em troca de palanque, e admitindo que negocia seus votos na câmara para ter acesso a mais dinheiro de emendas, ao mesmo tempo em que mantém entre os nomeados de seu gabinete um assessor que ameaça, agride e violenta as pessoas e a democracia de nosso país.

Muitos me perguntam se não tive e não tenho medo, pois existe uma necropolítica em curso, onde milícias políticas nos ameaçam e agridem fisicamente nas ruas e redes, o medo cresce e os direitos sociais nos são arrancados também violentamente vertiginosamente, e mais do que isso me questionam o por quê seguir?

Respondo que é porque a coragem é contagiosa. Ela é capaz de arrastar muitos corações dispostos a disputar uma nova política, livre do “toma lá, dá cá” da velha política, democrática e onde os 99% mais pobres tenham vez e voz. As agressões não nos fizeram parar, mas com nossa firmeza para enfrentá-la e denunciá-la milhares de pessoas pelo Brasil se inspiram de que é preciso e possível confrontá-los. Eles tentaram nos matar, nós viramos sementes.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.