A verdade das ruas chilenas
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A verdade das ruas chilenas

O processo passa por um momento crítico no qual o governo busca a normalização do país e intensifica a repressão.

Bruno Magalhães 5 fev 2020, 14:07

“El violador eres tú!” dizem as mulheres apontando seus dedos e incomodando quase todos os homens que assistem a apresentação. Um comentarista de televisão declara “desnecessária” a intervenção enquanto reafirma seu apoio à “luta feminina”. E, sem dar a mínima para estes incômodos, companheiras de todas as idades se reúnem por todos os cantos do Chile para reproduzir a performance que se espalhou pelo mundo, Un violador en tu camino, do grupo feminista Lastesis.

Estudantes secundaristas, funcionárias das universidades, vizinhas dos bairros periféricos, em todos os lados se ouvia, se treinava ou se assistia a performance. Assim que começa uma apresentação, uma reação de felicidade toma a maioria das mulheres ao redor, que sorriem, aplaudem e até se juntam ao manifesto artístico. A canção tornou-se um hit do verão chileno, com grupos de amigas cantando a intervenção nos ônibus, no metrô, nas portas das festas e em tantos outros lugares, representando orgulhosamente as mesmas posições dos milhares de lenços verdes amarrados em mochilas e pescoços pela cidade.

Esta denúncia frontal ao patriarcado espalhada por toda parte é um exemplo do incrível processo que toma conta das ruas chilenas, tomadas por palavras de ordem que exprimem verdades há muito presas na garganta. “O estuprador é você” é um desses gritos de revolta, uma denúncia dos centenas de casos de assédios e abusos cometidos pelos carabineros contra as manifestantes, mas indo também às raízes da questão e denunciando a cultura do estupro presente na formação das masculinidades e disseminada por toda a sociedade.

E quando dizem “o Estado opressor é um policial estuprador” as companheiras estão longe de serem reducionistas. Pelo contrário, estão sintetizando uma fórmula que exprime a verdadeira natureza de um modo de organização social extremamente injusto, misógino e violento. Estão falando uma verdade incômoda porém muito profunda.

Verdades do mesmo tom são repetidas pelos estudantes secundaristas em diversas ocasiões. “Evade como Piñera” é uma frase escrita em praticamente todos os pontos de ônibus e em todas as estações de metrô, relembrando que a evasão de tarifas não é uma ação exclusiva da juventude pobre já que o próprio presidente Sebastián Piñera sonegou impostos territoriais durante anos e hoje realiza este pagamento devido a um acordo judicial. Se o sistema não é justo, se os ricos realizam manobras legislativas e contábeis para pagar menos impostos, se os lucros das grandes empresas não são taxados, então a evasão de tarifas do transporte torna-se uma ação de desobediência justa.

As diversas cenas de protesto que tomaram conta das formaturas escolares em dezembro também retratam o mesmo. Os “pinguins”, como são chamados devido aos seus uniformes, romperam as formalidades acadêmicas sem preocupações com retaliações e em escolas por todo Chile as cerimônias de conclusão de curso tornaram palcos de revolta contra o sistema político e de homenagem aos mortos e feridos durante o estallido.

Assim é também nos bairros nos quais moradores que antes pouco se falavam agora se reúnem e começam a provar formas de organização local, buscando tanto resolver seus problemas imediatos como incidir em profundas questões nacionais. Por una pobla digna y feliz, Asamblea San Luis!” é o que diz a faixa dos vizinhos da población San Luis, uma das regiões mais pobres da insurgente comuna de Maipú, expressando em poucas palavras os objetivos dos moradores da pobla e uma ferramenta organizativa pra conquistá-los.

Com um grande desenho de pares de tênis pendurados nos fios de eletricidade, talvez um costume nas periferias de todo mundo, a faixa é carregada com orgulho por aquela vizinhança se cada vez mais cria laços e certezas sobre o que quer.

Ao se escancarar a realidade, como fazem as mulheres, os jovens e os vizinhos chilenos, um sentimento inédito de liberdade toma conta daqueles e daquelas que lutam, reforçando a solidariedade entre pares e a confiança nos motivos destas lutas. Ao mesmo tempo, o mal estar toma conta dos opressores e cínicos, que só conseguem responder com mais violência e mais cinismo.

Isso coloca uma questão chave para a luta social. A luta do povo trabalhador é, antes de tudo, uma luta por verdade e justiça. Ainda que muitas vezes essa simples conclusão seja submersa entre academicismos e outras tentativas de distração, é um fato objetivo que o povo luta por verdade quando toma a história em suas mãos, luta por dignidade e felicidade. E esta luta, na qual a teoria e a formação política são essenciais, tem um sentido de justiça muito compreensível por aqueles e aquelas que sofrem a exploração e o preconceito nas suas próprias vidas.

E é exatamente por isso que a violência é vista de forma tão diferente dependendo do endereço de quem reflete sobre ela. A pedra que voa contra o blindado da polícia é ao mesmo tempo um ato terrorista para a burguesia chilena e um ato de coragem para os vizinhos das poblas. E os perigosos marcos “pela paz” tão repetidos pelo governo e pela direita do país são uma armadilha que carrega um enorme cinismo na medida que são proclamados pelos mesmos que reprimem com gás lacrimogêneo e balas de borracha a população mobilizada.

Neste momento, o processo de luta chileno passa por um momento crítico no qual o governo Piñera busca a normalização do país ao mesmo tempo que intensifica a repressão. O levante de outubro passado não logrou conquistar nenhuma das profundas mudanças econômicas pelas quais a população foi as ruas, assim como ainda não conquistou garantias de um processo constituinte soberano, mas já houve a aprovação de uma série de leis repressivas contra as manifestações e a liberdade de organização.

A esquerda parlamentar infelizmente tem dançado a música institucional e também se afastou do sentimento geral da população, pleiteando mudanças graduais a médio e longo prazo que acabam indo contra as tarefas centrais de mobilização cotidiana e permanente colocadas pela situação chilena. Apesar disso, diversas iniciativas locais e gerais também tem se desenvolvido pelo país, seja na organização de setores como as mulheres em luta as assembleias de bairro ou na própria organização de novas ferramentas políticas.

Os motivos que levaram ao estallido social chileno estão longe de serem resolvidos, e as placas tectônicas da população ainda estão se movendo, ainda que mais lentamente no momento atual. O levante contra o neoliberalismo, que tomou a bandeira do povo mapuche como principal símbolo, está levando a uma mudança radical de mentalidade que terá efeitos muito profundos na fraturada sociedade deste país, e a única saída realmente popular para o levante passa necessariamente pela construção de um programa que fale a verdade e defenda os princípios de uma profunda melhoria da vidado povo em geral, expressos nos anseios dos trabalhadores e trabalhadoras, da juventude e de outros setores mobilizados.

“A verdade é sempre revolucionária”. Esta frase, pintada em grandes letras nas paredes do agora fechado Centro Cultural Gabriela Mistral, parece sintetizar este espírito que impera nas mobilizações e nas assembleias de vizinhos em todo o país. As ruas não foram tomadas em busca de soluções paliativas, inúmeros jovens não perderam seus olhos por pequenas mudanças institucionais. O sentimento de urgência das ruas chilenas é carregado por verdades que passaram décadas nubladas pela ideologia dominante e agora se mostram evidentes com toda a sua força. O povo chileno continua em marcha.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
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