Bernie Sanders e a luta socialista nos Estados Unidos
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Bernie Sanders e a luta socialista nos Estados Unidos

Após a confusão em Iowa e a vitória em New Hampshire, o senador independente Bernie Sanders avança na disputa das primárias do Partido Democrata

Bruno Magalhães 12 fev 2020, 14:12

A campanha de Bernie Sanders nas primárias presidenciais do Partido Democrata norte-americano tem empolgado militantes e ativistas brasileiros que buscam por novas experiências de luta ao redor do mundo. A recente vitória em New Hampshire e a manipulação dos resultados das plenárias em Iowa – para impedir a vitória de Sanders neste estado – demonstram a força da candidatura do senador socialista e o impressionante movimento popular em seu favor, representado politicamente principalmente pela organização independente Democratic Socialists of America, ou DSA.

No país de Donald Trump, onde encontramos a maior e mais organizada extrema-direita do mundo, cresce também um dos movimentos socialistas mais promissores do planeta. A profunda polarização é a marca do cenário político estadunidense, levando tanto à rendição do Partido Republicano para o outsider Trump como ao surgimento de um socialista radical entre os favoritos nas primárias democratas. Por um lado, o magnata racista e misógino realiza duros ataques à classe trabalhadora do país, principalmente contra as populações negras e imigrantes, ao que é respondido pelo programa político mais à esquerda das últimas décadas. O chamado centro político se esvazia e o nível de tensão social aumenta.

A análise da situação dos Estados Unidos e as lições da construção de seu movimento socialista podem dizer muito aos socialistas brasileiros sobre como enfrentar a extrema-direita. Extremamente jovem e com pouca tradição política recente, o movimento socialista democrático norte-americano é profundamente classista e combativo, arrastando o debate político geral para a esquerda ao apoiar greves e pautar reivindicações vistas como impossíveis há poucos anos, como o Medicare for All (assistência médica universal), a anulação das dívidas estudantis, o fim do encarceramento em massa, entre outras.

Em um momento de crise existencial da esquerda brasileira, os exemplos internacionais são essenciais para pensar o futuro de nosso país e as tendências que a realidade mundial apresenta. O avanço do neoliberalismo autoritário defendido como alternativa pela extrema-direita mundial marca nossa época tanto quanto as respostas – algumas vezes desesperadas – de diversos povos ao redor do mundo. E ainda que estejamos bastante atrasados na construção de uma ferramenta política internacional efetiva, os exemplos recentes não só nos Estados Unidos como também no Chile, no Equador, no Sudão, na Argélia, na França, em Hong Kong, entre outros, nos lembram que a história se movimenta.

Dentro da barriga do monstro

Inside the belly of the monster, ou “dentro da barriga do monstro”, é uma expressão utilizada pelos camaradas norte-americanos para simbolizar a situação de seu movimento socialista construído dentro da maior potência imperialista mundial. Este elemento não é menor, imprime diversas características e impõe duros desafios para a construção de uma alternativa política no país. Para entender realmente o movimento socialista democrático é preciso ter isso sempre em mente porque as condições de organização política nos EUA sempre foram muito difíceis.

A perseguição histórica contra os socialistas estadunidenses sempre foi duríssima. Prisões e execuções políticas marcaram a história do país, como as dos anarquistas italianos Sacco e Vanzetti na década de 1920 ou do casal Rosenberg na década de 1950, e tanto as polícias locais como as agências de inteligência tem comprovada atuação na espionagem e na intervenção dentro do movimento sindical e outros movimentos sociais. Os assassinatos de Malcolm X, Martin Luther King e dos inúmeros mortos nos levantes urbanos das comunidades negras, nas lutas dos trabalhadores e em mobilizações estudantis são exemplos da dureza do aparato repressivo interno desta potência imperialista, assim como as criminosas intervenções secretas promovidas por agências como o FBI ou a CIA dentro do movimento contra a Guerra do Vietnã e do Partido dos Panteras Negras.

Além da repressão estatal, o poder econômico da burguesia dá certas características de mercado para as relações políticas, com a prática do lobby disseminada e campanhas eleitorais funcionando como grandes empresas cuja viabilidade é determinada pela capacidade de arrecadação. Apesar de determinadas características democráticas herdadas de suas revoluções dos séculos XVIII e XIX, o elemento marcante da luta política no país é a relação entre financiamento e capacidade de pressão institucional sobre governos e legisladores. Em contradição com a liberdade individual constantemente evocada pela direita, a liberdade de organização é sistematicamente reduzida pela regulação e pela repressão.

Um exemplo evidente da restrição ao direito de organização é a proibição de greves de funcionários públicos na grande maioria dos estados, impedindo medidas concreta de luta e estimulando o corporativismo e a capitulação promovida pelo sindicalismo burocratizado. Outro exemplo é a política generalizada de repressão policial, que ameaça e encarcera sistematicamente membros das comunidades negras e imigrantes além de incidir fortemente sobre qualquer mobilização reconhecida como ameaça pelo status quo.

Isso influencia inclusive a definição do campo político por lá. Os socialistas democráticos afirmam a importância da democracia em contraposição aos exemplos de autoritarismo e campismo presentes em diversas experiências revolucionárias ao longo do século XX, afirmando a necessidade de participação da maioria da população nos processos de decisão. É importante levar em conta a localização destes socialistas para entender o desenvolvimento de seu programa pois, ainda que hajam algumas confusões teóricas em seu interior (que não é marxista de forma unânime, incorporando também reformistas e anarquistas), é um movimento de massas extremamente progressista.

Eu não, nós

Not me, us é o principal mote de campanha de Bernie Sanders e remete à impressionante ação coletiva que a campanha representa. Além do DSA, organizações políticas como o Our Revolution, o Sunrise Movement e a Socialist Alternative, entre outras, declaram seu apoio à Sander. Entre os sindicatos a adesão também é cada vez maior, com entidades nacionais a exemplo da American Postal Workers Union (dos trabalhadores dos correios), a National Nurses United e da National Union of Healthcare Workers (da saúde), além de diversos sindicatos locais da área da educação, saúde, transportes e indústria.

Bernie é de longe o candidato favorito entre a juventude e nas escolas e universidades o apoio é muito grande. Os EUA tem uma larga tradição de luta no movimento estudantil, marcada pela luta contra a Guerra no Vietnã nos anos 1960 e 1970 e também mais recentemente contra as invasões no Afeganistão e Iraque. Diversos campi espalhados pelo país são verdadeiras fortalezas da campanha de Sanders e em muitos destes cresce também a popularidade do marxismo enquanto ferramenta teórica e política.

O recente processo de renovação do sindicalismo também compõe este cenário, iniciado com as heroicas greves de professores nos estado tradicionalmente governados por republicanos (chamados red states porque a cor do Partido Republicano curiosamente é o vermelho) e se espalhando por diversas outras categorias, como trabalhadores da área da saúde, dos transportes, de grandes empresas como a Amazon, entre outras. A crescente onda de apoio de sindicatos e federações à campanha de Bernie indica esta renovação, assim como o movimento de entrada de jovens socialistas em categorias de trabalhadores combativas.

A força da campanha vem também de um apoio popular extremamente diversificado, com milhares de voluntários de diversas origens fazendo a campanha de porta em porta e uma diversificação enorme na quantidade de doadores. A campanha de Bernie é financiada majoritariamente através de pequenas doações de trabalhadores, como professores e enfermeiras e, somente no último mês de janeiro já recebeu 25 milhões de dólares com uma média de menos de 20 dólares por doação.

Este movimento coletivo expressado por Sanders representa bem a onda de mobilização que surgiu nos EUA principalmente a partir do movimento Occupy, que começou em Wall Street e se espalhou pelo país. A luta da multidão de jovens contra o 1% da população que controla grande parte da riqueza foi a semente de uma onda de contestação que hoje se materializa na campanha das primárias democratas. A ideia de um amplo movimento popular como única alternativa para derrotar Trump é muito concreta e vem se espalhando cada vez mais tanto dentro como fora do Partido Democrata.

Batendo a máquina

Beating the machine é o nome dado ao processo de enfrentamento dos socialistas independentes sobre as máquinas eleitorais do Partido Democrata na escolha dos candidatos. As deputadas federais Alexandria Ocasio-Cortez, Rashida Tlaib e Ilhan Omar, além do próprio Bernie, são os maiores exemplos da capacidade de enfrentamento da juventude e de outros setores mobilizados contra o aparelho que controla as candidaturas democratas. Respondendo à polarização estimulada por Trump com propostas reais para a melhoria da vida para quem vive nos Estados Unidos, estes novos nomes da política representa uma forma nova e viável de fazer política no país.

O sistema bipartidário norte-americano influencia bastante nas táticas eleitorais dos socialistas porque é muito difícil disputar o processo por fora das centenárias estruturas dos partidos Democrata e Republicano. As eleições presidenciais não são definidas por eleições diretas mas por um Colégio Eleitoral eleito a partir dos estados por um mecanismo no qual uma vitória simples do partido significa a eleição da totalidade de delegados estaduais. Nesse modelo, é possível (e cada vez mais comum) que o candidato vitorioso nas eleições não seja aquele que obteve a maioria dos votos e o próprio Trump venceu as últimas eleições apesar de ter recebido quase 3 milhões de votos a menos que a democrata Hillary Clinton.

Outra diferença está no registro de eleitores de cada partido, o equivalente as filiações partidárias no Brasil, porque o sistema estadunidense é muito mais fluído e em alguns casos o eleitor pode mudar seu registro partidário no momento das prévias. Isso teoricamente torna os partidos mais maleáveis à participação do conjunto da população enquanto na prática dificulta a construção de alternativas partidárias. Além disso, existe a prática do gerrymandering, ou seja,uma manobra legal na qual os parlamentares de cada estado ou cidade podem alterar geograficamente os distritos eleitorais segundo suas necessidades, em geral reduzindo a representatividade das comunidades negras e imigrantes.

É importante notar que, apesar de concorrer novamente nas primárias democratas, Bernie Sanders é um senador independente e grande parte de seus apoiadores não são membros do Partido Democrata. O próprio DSA é muitas vezes confundido como sendo uma tendência ou um partido-satélite dos democratas enquanto na verdade é uma organização independente que disputa fortemente contra este partido em suas próprias primárias. Essa confusão leva a erros de avaliação como se os socialistas democráticos estivessem tentando “disputar o Partido Democrata por dentro” quando na verdade estes camaradas estão incidindo no processo eleitoral de forma independente.  

Outro fator importante do processo conhecido como beating the machine é a afirmação de posições radicais, e muitas vezes anticapitalistas, em contraposição à direção democrata financiada pelos grandes investidores do mercado financeiro. Longe de vacilar perante a defesa do status quo, os socialistas democráticos vêm a radicalidade de suas posições como única saída para dialogar com a diversa classe trabalhadora e juventude estadunidenses e derrotar Trump. A medida que a polarização da sociedade norte-americana cresce, as propostas políticas tradicionais possuem cada vez menos apelo e são substituídas tanto pela retórica de extrema-direita quanto pelas saídas cada vez mais populares apresentadas pelos socialistas.       

Acredito que vamos vencer

I believe that we will win! é um famoso chant (“canto” ou “grito de guerra”) das torcidas nos estádios e ginásios norte-americanos que hoje é repetido também nas manifestações e comícios socialistas por todo país. A ideia de que é possível vencer, tão distante nas mobilizações estadunidenses nas últimas décadas, torna-se cada vez mais concreta e sensibiliza um número cada vez maior de apoiadores. A esperança surge como uma característica central daqueles e daquelas que cruzam cidades e estados em prol da campanha de Sanders e mesmo a grande mídia já é obrigada a reconhecer o impressionante apoio popular tanto à Bernie como às ideias socialistas.

Uma recente pesquisa do Instituto Gallup divulgada em novembro de 2019 mostra que o socialismo já é tão popular quanto o capitalismo entre adultos estadunidenses, e recebe ainda mais apoio entre a juventude, demonstrando uma alteração histórica no quadro ideológico do país. Essa mudança é sentida em todas as comunidades e bastante forte entre as juventudes imigrantes, negras ou brancas pobres e representa um vetor que ainda irá abalar bastante o cenário político e social dos EUA.

Mas os desafios também são enormes. Em primeiro lugar porque a indicação de Sanders pelo Partido Democrata ainda parece muito difícil tendo em vista o poder econômico e político da máquina deste partido, que já mudou regras de apoio para permitir que o bilionário e ex-prefeito republicano de Nova York Michael Bloomberg concorra nas primárias a partir da Super Terça (dia no qual um grande número de estados realizam suas primárias simultaneamente). Além disso, a influência dos “superdelegados”, ou seja, delegados com assento automático nas primárias que representam quase 15% dos votos na Convenção Democrata, é outra ferramenta que pode impedir a vitória dos socialistas.

Não há dúvida de que o Partido Democrata representa fielmente os interesses de grandes capitalistas no processo eleitoral e pode realizar qualquer tipo de manobra, ou mesmo de fraude, para impedir a indicação de Bernie à candidatura presidencial democrata. Também não há dúvida que muitos dirigentes democratas prefeririam outro governo de Trump ao risco presentado por uma candidatura socialista viável, e estes dois elementos são centrais para refletir concretamente sobre as reais possibilidades colocadas no xadrez eleitoral do país.

Esse cenário abre uma série de questões. É realmente possível que o Partido Democrata aceite a favoritismo de Sanders? Em caso negativo, haveria a possibilidade de uma terceira candidatura socialista? Qual seria o impacto desta candidatura hipotética perante a necessidade de unidade contra Trump? E, talvez a pergunta mais importante: em que estágio de desenvolvimento estão as forças que buscam a construção de uma alternativa política independente nos EUA?                

Estas respostas ainda estão longe de serem definidas, apesar do dinamismo da situação política, mas representam as indicações do caminho para o futuro da luta de classes nos Estados Unidos.  E os rumos da luta de classe lá afetam os rumos da luta de classes em todo mundo, obrigando os socialistas de todo mundo a acompanhar e apoiar a luta dos nossas camaradas norte-americanos. E, em qualquer cenário, é importante levar em conta que o processo por lá está apenas começando, há uma longa estrada e duras tarefas à frente dos socialistas democráticos. E sim, eles e elas podem vencer.

Artigo originalmente publicado pela Fundação Lauro Campos.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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