Coronavírus, impeachment e resistência
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Coronavírus, impeachment e resistência

A semana foi marcada pelo dinamismo político.

Rigler Aragão 22 mar 2020, 17:29

O Brasil a tempo encontra-se em uma crise ambiental, social, política e econômica. A esta combinação de crises soma a crise de saúde pública mundial com a pandemia do coronavírus que vem provocando abalos na economia mundial, a qual, já estava moribunda. Infelizmente muitos brasileiros não se deram conta da profundidade do abismo que o governo Bolsonaro nos jogou. Mas uma coisa é certa nesta história, nada será como antes, os impactos serão fortes na vida cotidiana dos brasileiros e especialmente do povo pobre que sofrerá mais com a pandemia. E, neste caos todo, a política estará viva e muito dinâmica.

A semana do dia 18M foi um bom exemplo de dinamismo político. O país, ao mesmo tempo que, está parando para se proteger da disseminação do corona vírus com escolas, universidades e serviços em geral suspendendo suas atividades para que a população fique em casa como medida de proteção ao contágio. Já tivemos dois panelaços contra o governo, se os atos de rua marcados para o 18m foram cancelados, a indignação popular teve que buscar outra forma de manifestação. O governo também viu sua reprovação voltar a crescer devido a incompetência e atitudes absurdas cometidas pelo presidente, que coloca a vida de milhares em risco, a ponto de subsidiar o pedido de impeachment, impulsionado por três deputados do PSOL, que ganhou as redes sociais com mais de 200 mil assinaturas em menos de 48 horas. Evidenciando, mais uma vez, a indignação do povo e colocando o “Fora Bolsonaro!” como palavra de ordem para o período.

Estamos em verdadeira luta política. O governo, em meio a crise, apresenta um plano que visa sustentar os patrões à custa de mais sacrifício da classe trabalhadora. Uma das propostas é ampliar a flexibilidade de acordo entre patrão e empregado, reduzir jornada de trabalho com redução de salário até 50%. Enquanto o governo joga bilhões para o mercado financeiro para manter os lucros dos ricos, cortou do bolsa família mais de 96 mil famílias da região nordeste, isto é, atingiu cerca de 61% dos beneficiados na região. Também já se fala em redução de salário de servidores públicos em até 20%. O congresso, sob a direção de Rodrigo Maia, pode aproveitar a situação para aprovar medidas de austeridades para os servidores públicos com pretexto de combater a crise nos estados e municípios.

Bolsonaro continua mentindo e minimizando os impactos da Covid 19 na saúde da população. Isso é um crime e vai de encontro com as recomendações da Organização Mundial da Saúde (OMS). A continuidade de Bolsonaro no poder coloca em risco a vida de milhões de brasileiros. Sabemos que o cenário é bastante delicado e merece toda atenção possível e responsabilidade, porém não devemos nos paralisar, a crise irá se aprofundar e as alternativas deverão ser construídas. O impeachment pode ser uma delas, pois acreditamos que a saída de Bolsonaro é uma necessidade para defender a vida.

Um possível impeachment dependerá do apoio popular e dos interesses da elite econômica quando perceber que Bolsonaro não lhe serve mais. Um impeachment, neste momento, nos colocaria em situação política diferenciada de 2016. Primeiro, porque quem estaria sendo derrotado no processo seria a ultradireita com seu plano ultra neoliberal. Segundo, haveria uma mudança no cenário de ofensiva sobre os direitos dos trabalhadores, no mínimo, paralisando as reformas e, mesmo que venha Mourão para tentar dar continuidade, o próximo governo estaria em situação de crise com o povo tendo aprofundado sua experiência. Terceiro, o plano de fechamento da crise política com a eleição do Bolsonaro estaria derrotado e o regime da nova república, mais uma vez, demonstraria sua total falência. Portanto a polarização política estaria muito mais latente.

Agora, o que fazer em um cenário de aprofundamento da crise? Vai depender dos setores consequentes do campo progressista e da esquerda em não temer fazer a luta política e compreender os movimentos espontâneos das massas que não serão dirigidos por organizações tradicionais e burocratas dos trabalhadores, como o PT e a CUT, que acreditam ainda em retornar ao poder por meio das eleições e voltarem a serem importantes para a Burguesia. Por isso, foi fundamental a compreensão do momento político de indignação e mudança da conjuntura que os deputados federais do PSOL Samia, Fernanda e David junto com intelectuais e artistas rapidamente tiveram com pedido de impeachment. Em nada, isso fere as possibilidades de tática de unidade de ação ou frente única com outros setores.

O que parece está correto, até agora, é que o povo não ficará em casa sem se manifestar. Apostamos por mais panelaços.

Fora Bolsonaro!    


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.