Por uma esquerda plural e independente

Por uma esquerda plural e independente

O Brasil precisa de uma oposição social e política à altura para enfrentar a extrema-direita e o coronavírus.

Fernanda Melchionna 20 mar 2020, 14:13

O Brasil caminha para uma crise sem precedentes. A união da crise econômica profunda, resultado das medidas ultraliberais com a entrada da pandemia de coronavírus, pode nos levar a uma situação de muitas mortes e uma recessão brutal. Talvez seja o momento mais difícil de nossa história, que, irresponsavelmente, é potencializado por um Presidente insano, que a todo tempo tenta restringir as liberdades democráticas, prioriza a saúde dos mercados e ignora a Ciência, aumentando as possibilidades de muitas mortes decorrentes dessa pandemia global. Não nos restam dúvidas de que para salvar o povo brasileiro é necessário derrotar Bolsonaro.

Um setor do movimento de massas expressa esse anseio. Foram milhões de pessoas que participaram de panelaços e janelaços na última quarta-feira (18) demonstrando a indignação diante da situação. A cada dia que Bolsonaro segue no poder, o Brasil caminha mais ao abismo. É verdade que ainda não há correlação de forças para seu impedimento, mas é preciso “colocar o debate no horizonte” como bem escreveu Pablo Ortellado. Por isso, um movimento social e político, com mais de 70 assinaturas entre eles meus colegas Sâmia Bomfim e David Miranda além de intelectuais e artistas, entrou com a peça pedindo o impeachment de Bolsonaro. Além disso, adesões não param de crescer e potencializam esse pedido, que, em menos de dois dias, já conta com quase 200 mil assinaturas.

Entendendo a esquerda plural e que pode haver diferenças táticas, inclusive no seio do PSOL, abstive-me de comentar a nota que está circulando pela imprensa, enviada por Juliano Medeiros, ainda que a nota tenha muitas inverdades. O próprio Juliano Medeiros participou de duas reuniões sobre o tema e soube de nossa disposição de entrar com nossos mandatos com o impedimento. Essa é uma liberdade que a Constituição Brasileira nos dá como parlamentar. E mais, é um direito conferido a qualquer cidadão e cidadã. Mesmo assim, antes do protocolo da peça, fiz questão de comunicar ao próprio, esperando a honestidade intelectual e em respeito aos diversos campos da esquerda socialista. Infelizmente, não foi o que ocorreu. A declaração de Juliano, igualando um protocolo de impeachment ao voto de membros do PDT na votação da reforma da previdência é lamentável.

Pode-se ter um debate aberto e saudável sobre táticas. Todo partido confiante e aberto deve fazê-lo. Mas o PSOL não pode tolerar nenhuma sugestão de que os esforços para remover Bolsonaro sejam contrários ao nosso partido. Resistir a Bolsonaro com toda nossa força ainda mais quando ele coloca em risco a saúde pública e a vida de milhões é o principal objetivo do PSOL. Nossa militância exige nada menos.

A declaração na Folha foi lamentável, ainda mais levando em consideração que o pedido de impedimento não fere nenhuma cláusula estatutária do regimento do nosso partido e é, na verdade, uma questão tática, da luta jurídica e política parlamentar como alertou o companheiro Milton Temer. Se alguns companheiros acham que não é o momento de protocolar por uma análise séria da correlação de forças, também é nosso direito fazê-lo com o entendimento de que a cada minuto que Bolsonaro segue governando as medidas urgentes para conter o coronavírus não estão sendo feitas. Ao contrário, as ações do governo custarão muito caro a nossa população. Por isso, a Bancada do PSOL na Câmara apresentou de conjunto mais de 22 medidas urgentes e lutaremos por elas.

Mas voltando a polêmica com Juliano Medeiros, é fato que um setor da esquerda acha que é preciso esperar 2022 para desgastar Bolsonaro e tentar, através do processo eleitoral, derrotá-lo nas urnas. Lula e a direção do PT têm sido os porta-vozes dessa política. Na nossa opinião, isso é um erro, pois as liberdades democráticas estão ameaçadas agora por esse governo autoritário de Bolsonaro, e nesse momento a vida dos mais de 200 milhões de brasileiros e brasileiras também.

Entretanto, estou entre aquelas que defendem toda a unidade de ação para enfrentar Bolsonaro, mas a independência política entre as organizações para afirmar suas propostas. Lula e PT são aliados importantes na luta contra Bolsonaro. Não nossos líderes. Não esperaremos suas definições para postular nossa política.

A comparação correta que Juliano deveria fazer é com a reforma da previdência em 2003, quando Luciana Genro, Heloísa Helena, Babá e João Fontes foram expulsos do PT por votar contra a tal reforma em uma demonstração cabal que não cabia ali mais a esquerda socialista e o espaço para as diferenças táticas e estratégicas. Talvez Juliano não lembre, afinal não estava no PSOL nesse momento. Será esse o fim que ele gostaria de dar ao nosso partido? Desautorizar uma ação parlamentar tática, típica de mandatos e com todo o cuidado para não falar em nome dos que não tem a mesma compreensão que nós? Muita luta ele terá que fazer para isso. Somos milhares no PSOL e lutamos muito para construir uma ferramenta plural, que rejeita o centralismo para expressar as diferentes matizes da esquerda.

Me estranha ainda que dezenas de iniciativas táticas tomadas por parlamentares, em diversos momentos do PSOL, não tenha tido a mesma preocupação de Juliano. Seria uma questão de gênero dos que querem calar a diferença e mulheres do nosso partido? Nossa história vem de longe. A luta socialista é nosso norte e a resistência a extrema-direita nossa tarefa imediata. Não serão polêmicas desnecessárias que nos farão desviar dessa curva. O Brasil precisa de uma oposição social e política à altura para enfrentar a extrema-direita e o coronavírus. Vamos seguir nessa linha!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.