A ciência como passaporte para o futuro
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A ciência como passaporte para o futuro

A defesa da ciência é o ponto de partida para combater a presente pandemia e um ponto de chegada na luta por outro futuro.

Israel Dutra 2 abr 2020, 11:06

A entrevista com Atila Iamarino no Roda Viva foi uma lufada de ar fresco no debate nacional. Atila, um biólogo com bela capacidade de articular suas ideias, defendeu os pressupostos elementares da ciência. Colocou sua inteligência a serviço de combater a pandemia da Covid-19. Muito longe de ideias socialistas, portanto, fora do nosso espectro político e ideológico, Atila demonstrou como a ciência pode e deve ser utilizada para defender vidas. E como essa posição ainda não é compreendida por parte dos agentes políticos que lidam com a pandemia, especialmente a corrente encabeçada por Jair Bolsonaro.

Eis o conteúdo da batalha que vem se dando no país, que opõe o principal mandatário (e seu núcleo próximo) à inteligência nacional. Tal batalha que teve capítulos importantes, desde quando a ignorância e as fake news galgaram postos no Palácio do Planalto, agora ganhou uma forma central: a luta pelo distanciamento social. Enquanto a ampla maioria dos governadores atua para adotar as orientações da OMS, Bolsonaro e sua base de apoio minimizam os efeitos, justificando que a “gripezinha” não deve fazer o “Brasil parar”. Com a fórmula de “isolamento vertical”, Bolsonaro organizou carretas para desautorizar a quarentena. Com base nas necessidades reais de pequenos e médio comerciantes desesperados pela ruína que os aguarda, Bolsonaro mente, engana e coloca em risco todo o povo. Seu argumento se choca com a ciência. A própria médica responsável pela primeira campanha do governo Bolsonaro contra o coronavírus, Ana Escobar, rompeu com o governo, acusando-o de enganar as pessoas. Há um tensão com o ministro Mandetta, que tem buscado um discurso diferente de Bolsonaro.

Por trás da disputa, mais que do uma postura, está uma concepção que organiza a extrema-direita, no Brasil e no mundo: o descrédito com a ciência. A máxima evidência teórica se reproduz em conceitos como o negacionismo climático e terraplanismo. A disputa ao redor do distanciamento social já teve lugar em outras partes do planeta, como em Milão, onde a prefeitura teve que voltar atrás, reconhecendo o desastre que foi a ideia não parar. Enquanto isso, o campo da ciência trabalha a todo vapor para encontrar saídas para a pandemia, em tempo recorde. Dois exemplos devem ser louvados: o grupo de pesquisadores da UFRJ, UnB e USP, que difundiu uma carta e organizou um “mapa” para verificar a ocorrência da pandemia nas diversas áreas do país; o segundo exemplo é o esforço de pesquisadores da Unicamp e da USP de desenvolver um teste rápido e barato em escala massiva para parar a Covid-19.

Atila definiu : “O mundo não vai voltar a ser o que era (…) É uma situação preocupante. Têm pessoas querendo voltar ao que tinham antes. Temos um histórico mais recente de negação da ciência, dos fatos”. O momento dramático, similar a de uma guerra, encontra a política, o social e uma visão científica, num ponto único, para barrar o cenário mais aterrorizador. A defesa da ciência, da pesquisa, do vasto acúmulo do campo da saúde pública se mostra como útil e necessária para amplas parcelas da população. Tal condição gerou uma hipótese fundamental, a de colocar a defesa da ciência como uma luta de maioria social.

Um dos fenômenos mais vivos do mundo atual remonta o lugar da ciência na luta contra a extrema-direita: nos Estados Unidos, além das mulheres, foi a marcha da ciência que enfrentou Trump de forma pioneira, ressignificando a coalizão “Science for the People”; a jovem Greta levantou o mundo contra negacionismo climático, o ajuste nos orçamentos levou a defesa das pesquisas às ruas em várias partes do mundo.

A luta de agora é fundamental: demonstra que apenas uma visão que não se comprometa com os lucros da grandes empresas pode ser consequente na defesa da ciência como ferramenta para defender o conhecimento; para usar esse conhecimento a serviço da vida e da maioria da população. O vetor da esquerda socialista deve ser o de estimular e defender a ciência para amplas camadas, combatendo a ignorância. Para tanto buscamos a unidade de ação com todos aqueles que defendem a ciência, o financiamento público da pesquisa e o caráter social da mesma. Isso nos une com setores que nada tem de socialistas ou revolucionários, como o próprio biólogo Átila, mas se chocam na prática contra a extrema- direita no poder.

A defesa da ciência é o ponto de partida para combater a presente pandemia e um ponto de chegada na luta por outro futuro. Nosso programa imediato deve ser a ampliação do orçamento para pesquisa em saúde, com medidas emergenciais, além do incentivo aos pesquisadores que estão se jogando na campanha de combate ao vírus. O corte de bolsas de doutorado e os ataques do governo só atrapalham as já difíceis condições de atuar nesse cenário. Além disso, a organização de conferências que busquem construir uma rede de emergência de técnicos e profissionais da saúde em parceria com o campo científico e suas organizações (SBPC, universidades) deve ganhar peso a despeito da linha do governo central. A construção de tal ponte, tendo como base vários exemplos mundiais, deve levar em conta todos os profissionais da saúde que estão na “ponta”, seus sindicatos, associações e conselhos.

Estamos entrando numa situação similar à de uma guerra. E, como queria Clausewitz, a guerra não só é a continuação da política por outros meios, como intensifica o conjunto dos meios políticos, condensando de forma extraordinária o caráter das batalhas. E, nesse caso, compreender a ciência como uma aliada estratégica da classe trabalhadora é postular-se na trincheira da defesa da população contra o governo de turno. Bolsonaro é colaboracionista com os dois vírus: o Covid-19 e o capitalismo neoliberal, como forma de esmagar as parcelas mais vulneráveis do povo.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.