Breves comentários sobre a conjuntura
Ricardo Moraes/Reuters

Breves comentários sobre a conjuntura

Precisamos criar as condições e forças para construir um novo estado de coisas.

Gilson Amaro 11 abr 2020, 15:40

No momento em que o Brasil começa a ter um acentuado aumento do número de infectados e mortes por causa da pandemia de coronavírus, no último boletim foram 141 — a tendência é que o crescimento siga, podendo se tornar exponencial — faz-se necessário observarmos algumas movimentações das forças políticas no país.

Por um lado, Bolsonaro dobra a aposta e intensifica sua campanha genocida. Ele fortalece a propaganda demagógica em torno da cloroquina (não é a primeira vez que evoca uma substância “milagrosa”, lembram da “pilula do câncer” a fosfoetanolamina?) e aumenta a frequência de seus passeios por Brasília. Talvez animado pela queda na adesão à quarentena, comprovada por dados recém divulgados, os quais mostram várias cidades bem mais movimentadas. De outro lado o PT decide não aderir ao “fora Bolsonaro” em meio à pandemia do coronavírus, e anuncia que irá cobrar do governo ações de enfrentamento à covid-19.

É preciso consciência que vivemos uma situação muito peculiar no Brasil. A deposição do chefe de Estado e governo, se tornou um dos elementos mais importantes no combate à atual crise sanitária, social e econômica. O sentido histórico do movimento da deposição de Bolsonaro, como resposta à campanha genocida deste que quer avançar um projeto de poder (que representa uma parcela da população e a burguesia brasileira) sobre pilhas de cadáveres de trabalhadores pobres do Brasil, tem um caráter civilizatório e inegavelmente positivo na luta de classes.

A postura eleitoreira, rebaixada e previsível do PT, prova a velha máxima do Barão de Itararé, afinal “de onde menos se espera, daí é que não sai nada mesmo”. Frente à atual crise sanitária, um partido que se diz de esquerda, anunciar que irá “cobrar” de Bolsonaro ações contra a pandemia é um escárnio típico das forças da ordem e status-quo da segregação social.

Estruturar uma suposta oposição e combate ao governo Bolsonaro orientado pelos conchavos, cálculos eleitorais, mapas e bússolas da falida Nova República não é apenas um erro, mas uma opção. Bolsonaro é contra as medidas mais básicas em defesa da vida na pandemia como as quarentenas e aposta na miséria e desespero do povo para gerar o caos e fortalecer sua luta contra as medidas sanitárias de prevenção. A vida acima dos lucros não pode ser apenas uma retórica, pois isso cabe até na boca de governadores higienistas e dos reacionários mercantilizadores da saúde, que agora são alçados no meio da crise, à heróis nacionais apenas por estarem, momentaneamente, em contraste com Bolsonaro.

A opção política de atuar pelos parâmetros dos conchavos e acordos das forças políticas mantenedoras da segregada ordem social brasileira, nos marcos do jogo institucional ainda existente, vai para além do PT e inclui outras forças e personalidades políticas à esquerda, que estão concretamente se localizando no campo da ordem do capital e possuem como horizonte máximo a gerência da desigualdade social. Nossa tarefa não pode ter como estratégia e destino abraçar setores da direita para derrotar a extrema-direita eleitoralmente. Agir e pensar assim é atestado de falência.

Precisamos criar as condições e forças para construir um novo estado de coisas, que passa por uma transformação radical do Brasil. Não entender o sentido histórico e gravidade da atual crise, e que o futuro terrível que temos pela frente, é indissociável do passado que o produziu, será repetir a história como farsa ou tragédia, como bem nos lembra um grande pensador.

Vivemos momentos dramáticos, e não podemos ter ilusões. A crise será de longuíssima duração e múltiplas dimensões. Para além das necessárias medidas sociais emergenciais, caso não surja um movimento concreto de combate a crise em sua raiz política econômica e social, esta seguirá se aprofundando ao custo de mortes e miséria dos trabalhadores.

Precisamos radicalizar a defesa das urgentes medidas sociais que estejam a altura das necessidades do povo para que todos e todas possam ter suas vidas salvas. De igual modo é indispensável entender que precisamos de um movimento que derrote o governo Bolsonaro e apresente uma alternativa concreta para o povo brasileiro.

#forabolsonaro


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Publicamos a décima sétima edição da Revista Movimento ainda sob o impacto da pandemia da Covid-19. Em todo o mundo, as contradições acumulam-se. Este volume está dedicado à análise de várias dimensões desta verdadeira crise global e de seus desdobramentos. Com destaque, tratamos da mobilização antirracista nos Estados Unidos e no mundo, iniciada após o assassinato de George Floyd, e da situação brasileira, discutindo a crise do governo Bolsonaro e as recentes manifestações dos trabalhadores por aplicativos.