García Márquez, um narrador natural

García Márquez, um narrador natural

Em memória aos 6 anos da morte do escritor.

Rafael Narbona 17 abr 2020, 13:49

Os escritores que nos fascinaram na juventude sempre correm o risco de nos decepcionar na madurez. Não é o caso de Gabriel García Márquez, que suporta o passo do tempo com a imperturbabilidade dos clássicos. Essa qualidade somente aparece quando uma obra transcende sua época e nos proporciona as chaves para interpretar nosso presente. Tende-se a destacar as inovações estéticas de García Márquez, um dos autores essenciais do “boom” da literatura latino-americana e um dos máximos expoentes do “realismo mágico”, mas a fórmula que se cristalizou em Cem anos de Solidão (1967) e que já havia sido esboçada em contos e romances breves (A revoada, 1955; Ninguém escreve ao coronel, 1961; Má hora: veneno da madrugada, 1962; Os funerais de mamãe grande, 1962), não brota do nada, mas de uma síntese apaixonada das órbitas narrativas de Faulkner, Joyce, Hemingway, Malcolm Lowry e Juan Rulfo. Carpentier, Lezama Lima e o Valle-Inclán de Tirano Banderas lhe ensinaram a combinar o barroquismo com o mágico, o irracional e o prodigioso. O barroquismo é uma pirueta da linguagem que somente adquire consistência quando rompe as costuras da razão, recuperando os aspectos do “pensamento selvagem”. Para García Márquez, não há um pensamento primitivo, mas uma visão integradora que reconcilia a evidência e o mistério, o imediato e o improvável, a historiografia e a fábula mitológica.

García Márquez nunca ocultou sua dívida com Rulfo, que lhe mostrou a importância do mítico e do telúrico num continente, onde a racionalidade europeia não conseguiu apagar o imaginário popular reticente a estabelecer fronteiras entre o real e o possível. Hemingway não resultou menos influente, pois lhe ensinou a imprimir fluidez e agilidade no relato, neutralizando os excessos retóricos. Faulkner lhe proporcionou a ideia de construir um território fictício, mas com a força simbólica de um cosmos. Macondo não é um universo alternativo, mas uma recreação do mundo. De fato, sua história possui de um Gênesis e um Apocalipse, que desenham a peripécia de uma humanidade dividida entre o niilismo e o utópico. O “real maravilhoso” não é uma ocorrência, mas uma chave hermenêutica que alarga nossa percepção das coisas. Atribui-se a García Márquez um “deicídio”, mas eu creio que seria mais correto falar de uma ontologia fundamental.

Cem anos de solidão não deve ser abordado como uma simples leitura, mas como uma vivência que nos obriga a reeducar nossos sentidos e a revisar nossas convicções. Em Macondo, coincidem os vivos e os mortos, se realizam profecias tão inelutáveis como as advertências de Cassandra ou se produzem levitações que escarnecem a lei da gravidade, mas o verdadeiramente assombroso não se encontra no ultraje de nossas expectativas racionais, mas no pequeno e insignificante. Um ímã, a lupa ou o gelo são objetos cotidianos, mas sua capacidade de alterar a realidade é uma poderosa objeção contra o absolutismo da Razão. A insônia, a chuva inacabável e o esquecimento são fenômenos que impugnam o pensamento científico e racional, obrigando-nos a reelaborar e reinventar a linguagem. As palavras somente têm um poder denotativo, mas resvalam pela superfície do real, conseguir captar sua essência. A ontologia fundamental de García Márquez se parece à filosofia primeira de Aristóteles ou Heidegger, que nunca atribuiu ao signo a capacidade de usurpar os objetos representados. A escritura se limita a nomear, vasculhar, especular, sonhar, divagar. Isso é tudo. Não há deicídio, mas impotência criadora.

A política sempre ocupou um lugar central na obra de García Márquez. Em Macondo, o imperialismo se disfarça de modernidade, com a aparição da United Fruit Company, uma bananeira que explora e empobrece a região, varrendo os protestos dos peões com “rajadas de metralhadora”. Não se escreveu muito sobre este episódio de Cem anos de solidão, que reproduz um fato real. Em 1928, o exército colombiano disparou contra uma manifestação convocada para lutar contra as inumanas condições de trabalho na United Fruit Company. Os historiadores falam de 300 trabalhadores assassinados, mas alguns testemunhos presenciais multiplicam a cifra por dez. Não se trata de um episódio menor de um romance monumental, mas de uma verdadeira declaração de princípios contra o capitalismo e o imperialismo. García Márquez nunca retirou seu apoio à Revolução Cubana e não economizou elogios a Fidel Castro. Diz-se que o escritor gosta de estar próximo do poder, mas o certo é que confessou a seu amigo Plinio Apuleyo Mendoza: “Quero que o mundo seja socialista e creio que cedo ou tarde assim será”. Suas viagens à União Soviético e aos países do Leste Europeu lhe produziram certo desengano, mas nunca o desviou de suas convicções. Seria grotesco afirmar que O outono do patriarca (1975) poderia servir como retrato de Fidel Castro, pois o protagonista é um general ancião imposto pelos Estados Unidos depois de um golpe de estado.

Do meu ponto de vista, é o romance mais perfeito de García Márquez, com seu estilo árduo e hermético que evoca as audácias de Lezama Lima, tentando condensar o mundo numa indecifrável metáfora. A solidão do patriarca é uma espécie de exercício teológico sobre o poder político. O velho general somente é uma marionete, um fetiche, um mandarim, que confunde a brutalidade com o poder, sem entender que sua crueldade lhe converte num monstro tragicamente cindido de seus semelhantes. Alguns destacaram que García Márquez também manteve relações cordiais com Bill Clinton, mas numa entrevista feita por Jon Lee Anderson declarou: “Tudo mudou desde Kosovo.  […] Com Kosovo, Clinton encontrou o legado político que quer deixar atrás de si: o modelo imperial norte-americano”.

O Simón Bolívar que García Márquez recriou em O general em seu labirinto (1989) não está muito afastado do Hugo Chávez que entrevistou em 1999 durante um voo entre La Habana e Caracas. Em O enigma dos dois Chávez, escreveu: “À medida que me contava sua vida ia eu descobrindo uma personalidade que não correspondia nada com a imagem de déspota que tínhamos formada através da mídia. […] Tem um grande sentido de manejo do tempo e uma memória com algo de sobrenatural, que lhe permite recitar de memória poemas de Neruda ou Whitman, e páginas inteiras de Rómulo Gallegos. […] Desde o primeiro momento me havia dado conta de que era um narrador natural”. Não me ocorre uma definição melhor para García Márquez: “um narrador natural”, devotado a transformar todas suas vivências em literatura, ou seja, em verdade, beleza e radicalidade. É impossível imitar a um criador desta natureza sem fracassar  estrepitosamente. É inaceitável ocultar seu pensamento político, sem incorrer numa fraude. Nos goste ou não, Gabo é assim e ninguém deveria manipular ou mutilar seu legado humano e literário.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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