Um plano temerário e que não leva em conta as famílias
A deputada estadual Luciana Genro (PSOL-RS).

Um plano temerário e que não leva em conta as famílias

A deputada Luciana Genro analisa o plano de reabertura gradual da economia proposto pelo governo Eduardo Leite (PSDB-RS).

Luciana Genro 21 abr 2020, 15:16

Da forma como foi sugerido hoje pelo governador Eduardo Leite, o “modelo de distanciamento controlado” para “equilibrar a prioridade à vida com retomada econômica” em meio à pandemia da Covid-19 é temerário.

Ele responde à crescente pressão das empresas pela reabertura dos negócios, e que dialoga com um desespero legítimo daqueles que se não trabalham não comem. Mas quando o Estado libera o empregador a exigir a presença do seu empregado no local de trabalho, permitindo a retomada mesmo que gradual de determinadas atividades, com base em ponderações ainda incertas entre níveis regionais e setoriais de risco, é preciso levar em conta um elemento fundamental: temos 1,4 milhão de estudantes das redes públicas de ensino do Estado e dos municípios que estão, e devem continuar, em casa. Quem cuida deles? Quem os alimenta?

As escolas, como se sabe, são ambientes extremamente propícios para a disseminação do novo coronavírus. Por isso seguirão fechadas, e não é possível abrir as escolas por região, conforme o risco. A educação não é um setor econômico, é um espaço de vida fundamental para as famílias.

Então, se os estudantes tiverem que permanecer em casa, como os pais e as mães poderão sair para trabalhar? Ficarão sob os cuidados dos avós para estabelecer uma cadeia ainda mais mortal de contágio: dos pais contaminados no trabalho para os filhos e, destes, para os avós, que formam um dos principais grupos de risco diante da doença?

Estamos falando de aproximadamente 700 mil famílias gaúchas e de centenas de milhares de avôs e avós. O Estado está disposto, conscientemente, a sacrificá-los em nome do faturamento dos empresários seguros e confortáveis em seus “home-offices”, enquanto seus empregados levam o coronavírus para casa nas periferias e nos bairros de classe média?

Se as empresas estão tão ávidas por voltar ao trabalho, precisam no mínimo se comprometer, em articulação com o Estado e entidades setoriais, a não exigir a volta ao trabalho de ambos os pais ou do responsável único em famílias monoparentais. E, além disto, a não demitir aquele ou aquela que precisará ficar em casa, e que geralmente são as mulheres, as primeiras a perder o emprego em momentos de crise. Quem descumprir o compromisso deve pagar pesadas multas ao Estado altas indenizações aos prejudicados.

Pelo menos por enquanto, do jeito como está sendo pensado, o plano de reabertura gradual da economia não está nada equilibrado com a “prioridade à vida”.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.