Mefistófeles na selva: agora a bronca é com a Covid-19
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Mefistófeles na selva: agora a bronca é com a Covid-19

Num contexto de caos na saúde, o governador Wilson Lima (AM) planeja reabrir o comércio no início de junho.

Luiz Fernando de Souza Santos 27 Maio 2020, 14:31

O Governador do Amazonas, Wilson Lima era apresentador de programa de televisão que explorava a miséria das condições de reprodução da vida na periferia, a violência, a dor e a morte entre os subalternos. Foi eleito no contexto de crise da política, de guinada à direita promovida por grande parte do eleitorado brasileiro. O eleitor amazonense queria o “novo” e o elegeu. As classes subalternas acreditaram no bordão do apresentador que dizia “a bronca é comigo”, e as elites, que ele garantiria que as primeiras ficariam longe dos espaços em que elas circulam.    

Wilson Lima, no primeiro ano de mandato impôs uma política salarial aviltante para trabalhadores da educação e da saúde que resultaram em greves e manifestações nestes setores. Fiel discípulo de Bolsonaro, nunca escondeu suas inclinações por uma política reacionária. Nesse mesmo período, no Amazonas ocorreram mais de 80 mortes em chacinas no sistema prisional, em cidades do interior e na capital, Manaus.

No início de 2020, quando o novo coronavírus já iniciava a sua escalada pelo Planeta, o governador e seu staff ignoraram qualquer necessidade de uma política de prevenção. Priorizaram presentear seu eleitorado reacionário, elitista, e interesses de investidores do setor imobiliário, que clamavam pela expulsão de milhares de famílias que ocupavam o lugar conhecido como Monte Horebe. Após dias de luta e de tensão, o governo anunciou concluída a reintegração de posse. Barracos destruídos, muita gente pobre sem um teto. Era o dia 13 de março, o mesmo dia em que era anunciado o primeiro caso da COVID-19 em Manaus.

Nos dias seguintes, a contaminação em Manaus se acelerou exponencialmente. O sistema hospitalar foi ao colapso; os serviços funerários também. Trabalhadores da saúde completamente desprotegidos, sem EPI’s e salários atrasados. Nessa fase sensível, a exigir um governo capaz de liderar uma ampla e eficiente estratégia de combate ao avanço da COVID-19, impôs isolamento social, decretou estado de emergência e, o “novo”, então, passou a comandar um roteiro de velha política. Uma dívida de 750 milhões de reais foi paga com dinheiro que poderia ter sido investido no aparelhamento dos hospitais públicos; compra de equipamentos superfaturados e para a qual apresentou a esfarrapada desculpa de que tratava-se de uma alta de preços decorrente da demanda elevada; demitiu secretário de saúde; nomeou uma personagem que desconhece a realidade amazônica; alugou estrutura hospitalar de universidade privada ao invés de investir os recursos deste aluguel na equipagem e melhoria da estrutura hospitalar já existente.

O resultado foi um cenário sombrio, com imagens de mortos ao lado de pacientes ainda lutando pela vida nos hospitais, dezenas de corpos depositados em contêineres, valas comuns para enterros coletivos, mortes em casa. Dor, desespero, impotência, tomaram de assalto centenas de lares em Manaus. Ao mesmo tempo, sem medidas efetivas de contenção do avanço do  coronavírus, o contágio ganhou os rios e chegou aos municípios do interior.  Nas terras indígenas, entre os diversos povos, o vírus ganha espaço. Nenhuma política como resposta efetiva à contaminação no interior é apresentada pelo governo do Estado. Sem estrutura que ofereça UTI,  os casos graves têm que se deslocar para a capital. 

Manaus, em tais condições, foi foto de capa do New York Times com imagem aérea de cemitério local com dezenas de covas abertas. Ganhou a atenção da ativista Greta Thumberg, que mobilizou uma campanha em favor do Amazonas. Nos relatórios da OMS, quando esta instituição anunciou que o epicentro do contágio está sendo assumido pela América Latina, ressaltou o lugar de destaque do Brasil numa necropolítica que só aprofunda a contaminação e demonstrou preocupação com o Amazonas, onde as taxas de contaminação são altíssimas. Outro dado alarmante: o Estado é responsável por 60% dos casos de contágio dos povos indígenas no país.

O isolamento social proposto pelo governo do Estado, quando passou a ser observado na capital, teve a taxa mais alta em 19 de abril, quando chegou a 62,7% e, após sistemáticos ataques do presidente Jair Bolsonaro à esta estratégia como medida de combate à COVID-19 (que contou com carreata de seguidores do bolsonarismo) e ineficiente fiscalização local, essa taxa chegou a 42% no dia 30 do mesmo mês.

Todavia, o número de mortes na cidade de Manaus, na segunda semana de maio declinou, ficando abaixo de 100, algo que não ocorria desde o dia de 18 do mês anterior. Isso não significa que a contaminação está a passar. As subnotificações são uma realidade no Estado e os altos registros de morte por “causas desconhecidas” e “síndromes e insuficiências respiratórias” escondem os verdadeiros números relacionados à COVID-19.

No momento em que este texto é escrito, 26 de maio, foram confirmados, conforme boletim da epidemiológico da Fundação de Vigilância em Saúde, 31.949 casos no Amazonas, dos quais 45,08% estão em Manaus e 54,92% nos municípios do interior. Em 24 horas foram registrados  1.667 novos casos. A taxa de ocupação de leitos de UTI para COVID-19 perigosamente se encontra em  82% ao mesmo em que há uma vertiginosa escalada do vírus no interior.

Num contexto de caos na saúde, ainda assim, o governador Wilson Lima planeja reabrir o comércio no início de junho. A base do seu argumento é o declínio de óbitos apontados acima. Em entrevista à CNN Brasil, ele afirmou peremptoriamente que o numero de mortes é o melhor parâmetro para esta decisão. “No início de maio houve um dia em que foram 167 enterros. Ontem houve 48 enterros. Então nós tivemos uma diminuição significativa”, disse o governador. Afirmou ainda que todas as decisões que estão sendo tomadas são baseadas em “modelos que já foram exitosos, em modelos que já deram certo”. É um raciocínio desumanizado, que coisifica, reduz a um cálculo de contabilidade rebaixada, a vida humana. Esta lhe é indiferente. Lembra, com nenhuma poética, as palavras de Mefistófeles, em Fausto, de Goethe:

Gabo aos que tem viço e verdor no rosto.

E com cadáveres evito o trato;

Sou como gato, em tal, com rato.

 O governador toma número de mortos como parâmetro e fala em modelos. “Parâmetro” e “modelos”, embora sejam termos comuns à linguagem do conhecimento científico, e muito em voga nos debates sobre o novo coronavírus, não têm força ilocucionária com sentido acadêmico no uso que delas faz Wilson Lima. Na verdade, ele apresenta um discurso anticientífico, cheio de pré-noções produzidas pela ideologia neoliberal em sua face mais sombria, a saber, a política fascista, que diariamente nos diz que o colapso econômico é tão danoso ou mais que o colapso na saúde provocado pela COVID-19.

Um grupo de trabalho formado por pesquisadores da Matemática, Estatística e Física, da UFAM, UFMG e UFSJ, em pesquisa intitulada “Curva epidemiológica COVID-19 em Manaus”, aponta que, na capital amazonense um distanciamento social em 40% implica em muitas infecções ativas em 31 de maio; com 60% de adesão, as taxas de infecção diminuem rapidamente até esta mesma data; e, por fim, uma taxa de apenas 20%, significa mais infecções e a emergência de um segundo pico em junho. O estudo aponta que as medidas de isolamento social e a obrigatoriedade do uso de máscara foram decisivas para um significativo numero menor de mortos, por isso, defende sejam mantidas. A Washington University, através do Institute for Health Metrics and Evaluation, fez projeção de óbitos pela COVID-19 no Amazonas de 3.194 mortes até agosto. O Imperial College, instituição britânica de pesquisa, indica, na segunda quinzena de maio um cenário pouco animador da presença do coronavírus no Brasil, com uma taxa de contágio de 1,3 num modelo no qual uma taxa acima de 1 indica situação fora de controle.  

Em que pese os dados da comunidade científica, indicando cautela, reafirmando o reforço no isolamento social, Wilson Lima se mostra disposto a promover a reabertura do comércio a partir de junho. Será, segundo ele, feita de forma gradual, considerando a curva de casos dono coronavírus no Amazonas.  “Curva” é outra expressão típica das correntes representações estatísticas de evolução do contágio que, no discurso do governador não tem força de disposição científica. É como uma maquiagem de erudição acadêmica para um discurso negacionista e que pretende arrastar a população do Amazonas a um passeio no cadafalso. De novo, ao fim e ao cabo, discurso de Wilson Lima é como o da personagem da obra Fausto:

Gênio sou que sempre nega!

E com razão; tudo o que vem a ser

É digno de perecer;

Seria, pois, melhor, nada vir a ser mais.

Por isso, tudo a que chamais

De destruição, pecado, o mal,

Meu elemento é, integral.

 O resultado dessa vontade política é que o bordão de programa de TV, transformado em  mote de campanha na eleição ao governo do Amazonas, “A Bronca é comigo”, no contexto da pandemia é uma grande mentira. Quem vive em Manaus, nas cidades e localidades do interior, nas aldeias indígenas e comunidades ribeirnhas, sabe que a bronca agora é com a COVID-19.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Na 16ª edição, estão disponíveis dois dossiês. No primeiro, sobre o ecossocialismo, podem-se se encontrar as recentes teses de Michael Löwy, além de uma entrevista com o sociólogo e dirigente da IV Internacional. Também publicamos uma entrevista com Zé Rainha, dirigente da FNL, sobre sua trajetória de luta e os desafios dos socialistas no Brasil; uma entrevista com Antônia Cariongo, dirigente quilombola e do PSOL-MA; e artigos de Luiz Fernando Santos, sobre a lógica marxista e a Amazônia, e de Marcela Durante, do Setorial Ecossocialista do PSOL. O segundo dossiê traz algumas análises iniciais sobre a pandemia de coronavírus. Há artigos de Mike Davis e Daniel Tanuro; documentos do MES e do Bureau da IV Internacional; além de uma densa análise de nossas companheiras Evelin Minowa, Joyce Martins, Luana Alves, Natália Peccin Gonçalves, Natalia Pennachioni e Vanessa Couto e de um artigo do camarada Bruno Magalhães. A seção de depoimentos traz um instigante artigo de Pedro Fuentes sobre a história de seu irmão Luis Pujals, o primeiro desaparecido político da história da Argentina. Já a seção internacional traz uma análise do sociólogo William I. Robinson sobre a situação latino-americana.