O amanhã não está à venda, então ressignificar o hoje

Aparato global tem como único objetivo o acúmulo de bens e riquezas em detrimento da vida.

Victor Hugo Louzeiro 6 jun 2020, 16:26

“[O capitalismo] É um modelo insustentável, que visa o crescimento infinito em um planeta finito, que ultrapassa todos os limites da Terra, criando uma alienação ecológica e uma demanda de consumo incompatível com o uso racional de bens comuns”. (Bureau da IV Internacional,2020)

As décadas iniciais do século XXI foram marcadas por um levante popular que teve como ponta de lança a juventude e os povos tradicionais da periferia global. Com o aprofundamento da crise capitalista, que teve o seu ápice em 2008 e agora segue acirrada pela pandemia de COVID-19, a percepção da degradação, exploração e desigualdade em todos os âmbitos se explicitam de maneira mais latente entre o mundo. Como resposta à ela estão os exemplos dos atos pelas mudanças climáticas em 2019 e o levante dos povos originários e tradicionais na defesa de suas terras e direitos no Chile e Equador.

O sistema global demandou e organizou o modo de vida, sonhos, instituições e nações com a finalidade de acumular riquezas. Uma cultura individualista para estabelecer o acervo de bens aos patrões, a necessidade de consumo e o consumo da necessidade, instituindo um ciclo vicioso e alienante à classe mais pobre, somado ainda à uma obsolescência programada dos produtos gerados, de modo que as instituições capitalistas preservem institucionalmente a riqueza e a exploração. Dentro dessa dinâmica, a demanda é em grande escala e produzir produtos necessita de recursos a serem explorados e transformados. A fonte está na terceira pessoa da dialética capitalista, vista como objeto a ser explorado e infinito, mas se finito, pelo o que vemos na história, não importaria para eles. Essa fonte de recursos é um organismo vivo em escala global, o próprio planeta Terra.

Após revolução industrial o sentido de desenvolvimento foi se firmando com base em uma estrutura que favorecia o acúmulo de bens e serviços dos que eram donos da produção. Os centros urbanos organizados para receber a mão de obra (contratados para fazer os produto ou bens nas fábricas), as estradas de ferro para o transporte, o desmatamento e as minas de metais para construir estradas e cidades. Se afastando em grande escala do campo e da terra, transformando o território completamente em empreendimento humano, mas deixando para sobreviver ao entorno das cidades os trabalhadores. Essa linha de pensamento desenvolvimentista se consolidou por todo o globo, em tempos distintos, do Oriente à América do Sul. Como projeto dos grandes centros capitalistas, transformar essas nações nesse mesmo modelo favorecia os grandes grupos no centro industrial, agora em escala global.

Hoje vemos as consequências desse modo de produção e “desenvolvimento”. Um aparato global que tem como único objetivo o acúmulo de bens e riquezas para poucos, em detrimento da vida planetária e de animais humanos e não-humanos. Está sujeito à contestação o próprio sentido de “desenvolvimento”. A filosofia e modo de vida dos povos originários em todo globo é uma grande fonte de inspiração e de ressignificação. Os seres fazem parte de um todo, um grande organismo vivo onde nossas ações repercutem na vida. Se desfaz individualismo e da propriedade privada, em valor do coletivo e solidário, desenvolvendo assim a sociedade.

A tecnologia, muito utilizada como resposta das vantagens do capitalismo, atua na contra-mão do materialista-histórico nos levando a pensar que precisamos também ressignificar. Se a tecnologia é produzida a partir da exploração da mão de obra e do material, beneficiando sobretudo o dono dos meios de produção (o capitalista), nos levando a um inevitável cenário de colapso planetário, algo está errado. Repensar a tecnologia com princípios baseados na não-exploração, no novo pensar sobre o trabalho, na inteligência do uso equilibrado-integralizado com a natureza (reconhecendo e valorizando sua própria tecnologia) com objetivo de que não haja uma obsolescência programada e destruição da terra, se trata do verdadeiro desenvolvimento.

Por fim, vale lembrar uma citação desse importante filósofo brasileiro, dos povos originários:

“Esse pacote chamado de humanidade vai sendo descolado de maneira absoluta desse organismo que é a Terra, vivendo numa abstração civilizatória que suprime a diversidade, nega a pluralidade das formas de vida, de existência e de hábitos”. (Airton Krenak, 2020).

Artigo originalmente publicado no Jornal do Juntos!.

Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!