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Enquanto a crise política segue desenvolvendo-se, Guedes mantém sua agenda de guerra contra o povo.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 8 jul 2020, 23:24

Enquanto o ciclone chegava ao Sul do Brasil na semana passada, um potente movimento de trabalhadores precarizados levantava-se em todo país. O “Breque dos Apps” reuniu milhares de entregadores de aplicativos em diversas cidades brasileiras e cativou trabalhadores de outros países da América Latina. A ampla repercussão mostrou o apoio da sociedade à causa dos entregadores, que, afinal, é a causa de toda a classe trabalhadora brasileira em defesa de seus direitos e de seu nível de vida. Algo de profundo está movendo-se no país.

O destaque da semana foi o anúncio de que Jair Bolsonaro estaria com Covid-19. Com o habitual escárnio, o presidente defendeu o uso da cloroquina, colocou em risco os jornalistas que cobriam seu anúncio ao aproximar-se e tirar a máscara, além de evidenciar que não existe plano para conter a pandemia, que se espalha perigosamente, agora, também pelos interiores.

Com um governo paralisado no combate ao vírus, sem ministro da saúde e da educação, e numa economia já em recessão, as perspectivas não são nada animadoras para a classe trabalhadora. O adiamento das eleições municipais, por sua vez, prolonga o “semestre político” e a exposição de Bolsonaro, que passou a ficar na defensiva após a ação de rua dos setores antifascistas e o cerco da Polícia Federal, do STF e do Ministério Público do Rio de Janeiro, que comandou a operação de prisão de Fabrício Queiroz. É preciso nos preparar para os novos enfrentamentos que se colocarão, mais cedo ou mais tarde, no horizonte.

Bolsonaro na defensiva

O governo conserva ainda faixas de apoio popular, porém, perdeu a iniciativa. A contaminação de Bolsonaro, por sua vez, teve o efeito de revelar nas redes o repúdio crescente a um presidente, bem tratado e com acesso aos melhores hospitais do país, enquanto a população agoniza sem acesso a testes e muitas vezes sequer tendo chances de disputar uma vaga num leito ou respirador.

Acentua-se a sensação de paralisia e de desgoverno com a queda, em poucas semanas, de dois ministros da educação, sem falar da ocupação militar do Ministério da Saúde, além da repulsa a Ricardo Salles, que pode ser o próximo a cair pela pressão do agronegócio mais vinculado a cadeias globais, de dirigentes empresariais que agora demonstram preocupação com o risco de sanções internacionais contra produtos brasileiros, além do recente pedido de afastamento de Salles pelo Ministério Público Federal.

Houve uma mudança na conjuntura a partir dos atos de julho e do cerco do STF. A prisão de Queiroz escancarou a relação do presidente e de sua família com o escândalo das “rachadinhas” da ALERJ e com o submundo das milícias cariocas. A pressão deve seguir, já que ainda há personagens desaparecidos, como Márcia Aguiar, esposa de Queiroz, além das dúvidas sobre o comportamento do advogado Frederic Wassef, que tem insinuado sua disposição de falar o que sabe caso se veja em dificuldades. Cada vez mais surgem relações das milícias com o “Escritório do Crime”, cujo comando foi preso na última semana em operação conduzida pelo MP-RJ.

Guedes mantém a guerra contra o povo: é preciso preparação para as lutas que virão

Enquanto a crise do governo segue desenvolvendo-se, Paulo Guedes mantém sua agenda de guerra contra o povo. A sanha contra os direitos trabalhistas continua num contexto de desemprego crescente pelos efeitos econômicos da pandemia.

Ao mesmo tempo, apesar de divididos em temas como a avaliação do governo e a defesa de direitos democráticos, o Ministério da Economia, o comando do Congresso e a burguesia repetem em uníssono a necessidade de retomar as privatizações, como se viu no novo marco do saneamento e com as promessas de grandes privatizações neste segundo semestre, além do desmanche paulatino da Petrobrás, cujas refinarias agora são o alvo recente da rapina.

Por outro lado, segue o debate ao redor da renda básica e da proteção aos salários. Diante do descaso do governo com informais e desempregados, além do estímulo criminoso à quebradeira das pequenas empresas pela política de Guedes, os trabalhadores sairão à luta e prepararão um segundo semestre quente. A primeira paralisação dos trabalhadores de aplicativos deu o primeiro sinal e já se organiza um chamado para nova e mais forte paralisação dia 25 de julho. Já os educadores têm votado em vários estados “greves pela vida” como resposta ao descaso criminoso dos governos estaduais e municipais, que decidiram acelerar o retorno inseguro para as salas de aula enquanto a pandemia segue em curva ascendente, condenando à doença e à morte milhões de educadores, quadro de apoio, estudantes e suas famílias.

Nesse cenário, com o adiamento do calendário eleitoral e o avanço desigual do contágio pelo país, duas tarefas impõem-se: preparar as candidaturas do PSOL nas cidades brasileiras, nacionalizando a discussão de um programa de ação contra o bolsonarismo, e a necessidade de somar forças ao calendário de lutas, de que o dia 25 de julho será um grande momento. É preciso brecar os ataques do governo: Fora, Bolsonaro!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.