Duas versões sobre a vida revolucionária de Friedrich Engels

Duas versões sobre a vida revolucionária de Friedrich Engels

Em memória aos 125 anos de sua morte.

Ian Angus 5 ago 2020, 18:58

A maioria das pessoas da esquerda sabe que Friedrich Engels foi co-autor do Manifesto Comunista e o colaborador de toda a vida de Karl Marx. Mas poucos entre os radicais de hoje sabem muito mais do que isso sobre o homem que construiu barricadas e lutou uma guerra de guerrilhas na Alemanha durante a revolução de 1848-49, o incansável organizador que desempenhou um papel decisivo na construção da corrente marxista de um punhado de exilados em 1850 na tendência dominante no movimento internacional da classe trabalhadora até o dia de sua morte em 1895,

Eles dificilmente podem ser culpados por sua falta de conhecimento: não foi fácil aprender sobre a vida de Engels. Nos 110 anos posteriores à sua morte, somente foram publicadas duas biografias substanciais em inglês: Gustava Mayer em 1936 e WO Henderson em 1967, e ambas se esgotaram há muito tempo.

Portanto, os socialistas só podem ficar contentes com a chegada de duas novas biografias do companheiro de Karl Marx, e de fato, estes livros foram calorosamente recebidos pelos críticos socialistas. Entretanto, nosso júbilo pela publicação de dois livros sobre um líder socialista negligenciado não deveria nos cegar para o fato de que nenhum deles é o estudo exaustivo que Engels realmente merece.

Ambos são relatos sobre a vida de Engels – não sobre sua vida e ideias. Cada um discute aspectos de seus pontos de vista políticos e resume brevemente alguns de seus principais trabalhos, mas nenhum deles faz isso com detalhes. Essa é uma grave debilidade nas biografias de um homem que, como escreve Green, “não teve um prazer superior do que um animado debate, o choque de ideias e argumentos”.

Podemos esperar que outros escritores corrijam o balanço, mas por enquanto estes são os dois principais relatos que nós temos da vida de Engels. Eles cobrem um terreno similar, evidentemente, mas diferem em suas ênfase. O foco de Green sobre Engels é a de um construtor e líder da esquerda revolucionária, ao passo que Hunt destaca sua vida pessoal, particularmente os sacrifícios pessoais e políticos que fez para apoiar Marx.

Engels: A Revolutionary Life

Por si mesmo, o relato de John Green sobre o envolvimento de Engels nas revoluções 1848-49 na França e na Alemanha tornam Engels: A Revolutionary Life uma leitura que vale a pena. Qualquer que pense Engels apenas como um ancião socialista de barba grisalha se surpreenderá e ficará inspirado ante esse relato de um ativista de 20 anos que arriscou sua vida por suas ideias.

Green também descreve o papel de Engels na construção e na direção do movimento socialista internacional nas duas últimas décadas de sua vida. De seu lar em Londres, Engels manteve uma volumosa correspondência em múltiplos idiomas – ele se orgulhava de sempre corresponder-se no idioma de seus interlocutores – respondendo perguntas, aconselhando e criticando.

Green é crítico do papel que Marx e Engels cumpriram nos debates no movimento dos trabalhadores, queixando-se de sua “resistência quase patológica” a ideias distintas da sua.

Em sua intolerância às diferentes abordagens para criar a base para uma sociedade socialista e suas vituperantes chicotadas contra quem pensava diferente deles, pode-se ver o germe da luta interna sectária, o dogmatismo e a intolerância da dissidência que infestarão os movimentos comunistas no século XX”.

E, no entanto, Green admite que aquilo que ele chama de “perpétua implicância e oferta de conselhos” aos socialistas alemães “persuadiu o partido eventualmente a adotar muitos de seus princípios fundamentais”. Obviamente que Marx e Engels estavam fazendo algo correto!

O que Green fracassa em entender é que longe de pressagiar o sectarismo de grupelhos mais à frente, na maioria dessas disputas Marx e Engels estavam argumentando contra os sectários de sua época. Eles eram intolerante com quem tentava desviar o movimento dos trabalhadores para caminhos marginais e becos sem saída, e eles argumentaram firmemente que “cada passo do movimento real é mais importante que uma dezena de programas”.

Green afirma que seu objetivo era o de “resgatar o homem Friedrich Engels do sufocante abraço da academia e remover as camadas de confusão e sobrecarga de detalhes que o fizeram ficar escondido”. Apesar de suas limitações políticas, Engels: A Revolutionary Life faz isso em grande medida, proporcionando um valioso retrato de um homem que se comprometeu com a causa revolucionária em seus anos de juventude e nunca retrocedeu.

Marx’s General

De uma perspectiva estritamente política, a parte mais forte de Marx’s General, publicado na Inglaterra como The Frock-Coated Communist [N.d.T. e no Brasil como Comunista de Casaca, Ed. Record, 2011), é sua descrição dos debates filosóficos na Alemanha no começo da década de 1840. O relato de Hunt sobre a intensa fermentação intelectual da qual emergiu o Marxismo é o mais claro e mais conciso que eu já li.

Porém seu enfoque principal é “a rica contradição e sacrifício ilimitado que marcou a longa vida [de Engels]” – em particular, os anos de 1851 e 1869, quando Engels foi empregado no negócio de algodão de sua família, fazendo um trabalho que odiava intensamente, com o objetivo de ajudar Marx enquanto este pesquisava e escrevia O Capital. Por cerca de 19 anos, Engels ele mediu suas palavras nos círculos empresariais de Manchester durante extensas jornadas de trabalho, enquanto se reunia (e farreava) com os socialistas e outros militantes da classe trabalhadora até tarde da noite.

Hunt, é preciso dizer, enxerga mais contradição nisso do que o próprio Engels o fez, mas seu relato ilustra o quão comprometido foi Engels com seu projeto de vida compartilhado com Marx. 

O enfoque de Hunt na vida pessoal de Engels ocasionalmente o conduz para o sensacionalismo. Sendo um jovem homem na França e na Bélgica, Engels escreveu que ele se divertia na companhia de “grisettes”, que Hunt incorretamente traduz como “prostitutas”. Grisettes eram, na verdade, moças  da classe trabalhadora, principalmente na indústria da confecção, que participavam ativamente dos círculos de esquerda e da boemia. Como na década de 1960, uma atitude aberta em relação ao sexo era comum na esquerda europeia durante a década de 1840, mas somente os moralistas conservadores e puritanos – pessoas, aliás, que Engels detestava – equiparavam a liberdade sexual com prostituição.

Da mesma forma que Green, mas com muito mais indignação, Hunt repete a história muito contada de que Marx teve um filho ilegítimo em 1851, e que Engels fingiu ser o pai para proteger o casamento de Marx. Somente o leitor que vá às fontes citadas nas nodas de rodapé por Hunt saberá que toda a história se baseia numa única carta escrita por uma testemunha pouco confiável em 1898 – e que outras evidências tornam a história pouco provável.(Ver http://marxmyths.org/terrell-carver/article.htm)

Felizmente, as intrigas obscenas não dominam Marx’s General, que no conjunto total mostra um homem humano e compassivo que amava boas companhias, boa comida, boa bebida e grandiosas ideias – um homem que desmente as acusações reacionárias de que os socialistas são fanáticos melancólicos.

Engels versus Marx

No século XX, Engels foi frequentemente acusado de revisar, diluir ou corromper o marxismo. A depender de qual crítica você lê, Engels foi culpado de ser excessivamente hegeliano ou de ser insuficientemente hegeliano, de demasiado cientificismo ou não compreender a ciência, de responsabilidade pelo eleitoralismo social-democrata ou pelo totalitarismo stalinista. Como Sebastiano Timpanaro escreveu em 1970, parece que os acadêmicos radicais sempre começam culpando Engels por partes do marxismo com as quais eles não têm acordo: 

“Em todas essas operações, há uma necessidade de alguém em quem se possa despejar tudo aquilo que os marxistas, naquele momento em particular, querem se desfazer… Marx resulta estar livre de todos esses vícios, sempre que alguém saiba como “o ler”. Foi que Engels que, no seu zelo de simplificar e vulgarizar o marxismo, o contaminou”. (Sobre o materialismo)

Dado que nenhuma das novas biografias tenta proporcionar uma descrição exaustiva das ideias de Engels, não surpreende que nenhuma delas aborde tais acusações.

John Green é agnóstico sobre o tema. Ele descreve com precisão que o relacionamento entre Marx e Engels como “uma colaboração próxima e de longo prazo… uma simbiose aparentemente perfeita”, mas rapidamente o qualifica ao reportar que, entretanto, “há quem afirma reconhecer diferenças significativas e de grande alcance entre o pensamento dos dois homens”. Ele resume os pontos de vista de alguns críticos, mas avalia suas críticas. Marx concordava com o que Engels escreveu em seu controverso Dialética da Natureza? Green apenas diz que “nós nunca poderemos saber”.

Surpreendentemente, dado que seu principal interesse é a personalidade e o estilo de vida de Engels, Tristram Hunt maneja este tema de modo mais decisivo. Ele insiste que o Anti-Duhring, frequentemente apontado como uma prova de que Engels entendeu o mal o marxismo, é “a expressão de uma opinião marxista e madura”, ridicularizando a afirmação que alguns fazem de que Marx permaneceu em silêncio sobre os erros de Engels para manter sua amizade:

“Quaisquer que sejam as revisões mecanicistas que ocorreram no marxismo durante o século XX, é uma má interpretação do relacionamento entre Marx e Engels sugerir que Engels corrompeu a teoria marxiana ou que Marx tinha uma amizade frágil com Engles que ele (Karl Marx!) não conseguiria expressar um desacordo. Não há evidência de que Marx estivesse envergonhado ou preocupado pela natureza da popularização do marxismo feita por Engels”.

Teremos que esperar uma defesa compreensiva de Engels, mas por ora essa resposta é correta em seu ponto.

Qual “biografia” escolher?

Depois de décadas nas quais não havia biografia de Engels impressa em inglês, de repente há duas, com diferentes pontos virtudes. Nenhuma das duas é perfeita, mas ajudarão a mover Engels da sombra de Marx para o palco central onde ele pertence.

Hunt é um escritor competente cujo retrato de Engels realmente dá vida ao momento. Ainda assim, Engels era sobretudo um pensador e ativista política, motivo pelo qual as repetidas depreciações das disputas como questiúnculas sem sentido revelam uma grave falta de simpatia por seu tema. Isso também reflete em sua improvável conclusão de que Engels teria apoiado os mencheviques da Rússia contra Lenin.

Green é muito melhor sobre o papel de Engels como um ativista revolucionário e construtor de um movimento, e dedica mais tempo às ideias de Engels, ainda que nem sempre seja perspicaz. Infelizmente, seu livro não é tão bem escrito: a narrativa salta confusamente de um lado para o outro no tempo, e a decisão de Green de escrever integral no tempo presente é uma distração constante.

John Green. Engels: A Revolutionary Life. Artery Publications

TristramHunt. Marx’s General: The Revolutionary Life of Friedrich Engels. Macmillan/Metropolitan, 2009. [Tradução no Brasil: Comunista de Casaca. Ed. Record, 2011]

Tradução de Charles Rosa ao artigo originalmente publciado em agosto de 2014 na Socialist Voice:

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Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.