As eleições municipais de novembro: um cenário aberto e as possibilidades do PSOL
Bandeiras do PSOL. Reprodução

As eleições municipais de novembro: um cenário aberto e as possibilidades do PSOL

Num cenário de incerteza no quadro eleitoral, a luta contra o bolsonarismo e as possibilidades do PSOL.

Israel Dutra e Thiago Aguiar 31 out 2020, 18:30

As eleições municipais começam a entrar numa fase mais “quente”. Posicionado no Brasil inteiro, o PSOL vem dando uma batalha de norte a sul do país para ecoar suas ideias e propostas, consoantes com a luta pelos direitos do povo. Como afirmamos em nosso último documento nacional, duas tarefas impõem-se para o partido e para o conjunto do ativismo: derrotar Bolsonaro e a extrema-direita; e apresentar uma alternativa política radicalmente nova, pela esquerda, capaz de retomar a confiança da classe trabalhadora nas suas ferramentas, com um programa anticapitalista, de luta contra o ajuste, as opressões e o regime dos ricos.

Bolsonaro busca administrar seu governo de crises recorrentes, com dificuldades para apresentar um perfil próprio no cenário eleitoral, ainda que exista espaço para a aderência às ideias fundamentalistas nas camadas mais atrasadas da população. No entanto, a crise da pandemia da Covid-19 e seus efeitos sanitários e econômicos seguem fazendo-se sentir. Nesse breve editorial, analisamos algumas tendências, além de seguir emulando o esforço de nossa militância na reta final da campanha.

Uma eleição “sui generis”

Começamos pelo caráter inédito da eleição: estão se combinando fatores múltiplos, que contribuem para uma imprevisibilidade acima da média, seja pelo cenário político dispersivo, ou mesmo pelas disputas ao redor das mudanças em curso no regime. O desenrolar da pandemia também apresenta interrogantes: como reagirá o eleitorado nas últimas duas semanas de campanha?

O financiamento eleitoral, após a enxurrada de escândalos de corrupção, ganhou ares “legais”, com uma monta de recursos públicos nunca antes mobilizada para as agremiações partidárias. A cruzada contra as fake news operadas diretamente pelo clã Bolsonaro deve intimidar a máquina de notícias falsas, sem entretanto banir essa prática que, mesmo em menor volume, vai existir na reta final do pleito municipal. A campanha como um todo está diferente e se nota a apatia da maior parte do povo, apesar do congestionamento nas redes sociais.

Ainda não é possível apontar um sentido nítido nas pesquisas, como uma força que capitalize o sentimento popular. Em 1986, por exemplo, foi o PMDB na esteira do Plano Cruzado que naufragaria meses mais tarde; em 1988, o PT, como expressão política do ascenso da classe trabalhadora, ganhou em São Paulo, Porto Alegre, Belo Horizonte, Goiânia, entre várias cidades grandes. Como exemplo recente, pode-se apontar 2016, quando o PSDB foi a força política que melhor se saiu, diante da crise geral e do impeachment. Agora, não se pode indicar com antecedência quem são os favoritos a vencedores, absolutos e relativos. Com uma eleição de dois turnos, podemos indicar uma tendência de vitória dos opositores de Bolsonaro, mas sem um polo, nem entre o campo dos partidos da centro-direita, nem da centro-esquerda e da esquerda.

A tendência à dispersão nas chapas proporcionais, por conta da nova legislação, também dará lugar a blocos menos sólidos nas câmaras municipais. Muitos analistas apontam o crescimento da abstenção, amparados no temor da pandemia pelos mais idosos, o que tem como fator contrarrestante número recorde de candidatos. O que também está se consolidando é a hipótese de renovação nas câmaras, com maior presença de mulheres, negras, jovens e LGBTs, refletindo a polarização e politização dos últimos enfrentamentos com o conservadorismo.

Bolsonaro: o que não avança retrocede

Apesar de seguir estabilizado nas pesquisas de opinião pública sobre o governo, as dificuldades econômicas e políticas se impõem. Ainda que tenha avançado duas “casas” no tabuleiro dos governos com a entrada de Claudio Castro no Rio de Janeiro e Daniela Reinehr em Santa Catarina, o plano dos sonhos de organizar um partido bolsonarista está distante e o resultado eleitoral está longe de ser o esperado.

O despreparo na condução do governo segue e vai se aprofundar. O fim do auxílio emergencial vai trazer ainda mais tensão, com os índices recordes de desemprego e desalento. Marcaram a semana a recente crise com os militares e a indignação popular contra duas medidas que Bolsonaro no âmbito da saúde: a recusa em adquirir a vacina em desenvolvimento pelo Instituto Butantan e a sugestão de privatizar o SUS foram rejeitadas por ampla maioria social. Nesses dois casos, Bolsonaro voltou a ficar isolado.

O cenário internacional indica que as apostas da extrema-direita vão sendo derrotadas. Depois da vitória popular contra o golpismo na Bolívia e a derrota do modelo constitucional pinochetista no Chile, o mundo olha com atenção para a hipótese de uma derrota de Trump nos Estados Unidos. Seria um duro golpe para seu discípulo Jair Bolsonaro.

A última rodada de pesquisas aponta queda dos dois principais candidatos de Bolsonaro no país, Russomano em São Paulo e Crivella no Rio, ameaçados de ficarem fora do segundo turno. Apenas em Fortaleza que o bolsonarismo ganha impulso para colocar o capitão Wagner na dianteira das pesquisas no primeiro turno.

Voto útil é no PSOL

Para derrotar a extrema-direita e construir uma alternativa, a militância do PSOL está ocupando as ruas do Brasil para levar adiante seus candidatos e seu programa. Estamos sendo muito bem acolhidos pelo povo. Em São Paulo, a chapa de Boulos e Erundina cresce nas ruas, com muita adesão e simpatia, com as pesquisas indicando o terceiro lugar, em crescimento. Também o PSOL lidera com Edmilson Rodrigues em Belém.

Nossa batalha é jogar com todas as forças, ganhando votos de forma politizada e militante, para ampliar a bancada e colocar no centro ideias anticapitalistas. Nas cidades e no plano nacional, a disputa central é sobre quem vai pagar a conta da brutal crise que apenas se inicia.

O voto no PSOL reforça a luta de toda a classe trabalhadora por seus direitos. Após a eleição, serão abertos novos conflitos, recolocando a luta pelo “Fora, Bolsonaro” como parte da agenda. O voto no PSOL reforça as lutas do presente e do futuro imediato. Estaremos nas ruas, com todo o gás, paixão e vigor militante para construir essa vitória política. 


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.