“O objetivo do Instituto do Direito de Asilo-Museu Casa de León Trotsky é manter e preservar a verdade histórica”
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“O objetivo do Instituto do Direito de Asilo-Museu Casa de León Trotsky é manter e preservar a verdade histórica”

Entrevista com Gabriela Pérez Noriega, diretora jurídica e executiva do Museu Casa de Leon Trotsky.

O bairro de Coyoacán, na Cidade do México, recebeu a família de León Trotsky em seus últimos anos de vida e de luta em defesa da revolução socialista internacional. Após o assassinato de Trotsky por Ramón Mercader, um agente stalinista, Natalia Sedova e Esteban Volkov, respectivamente a víuva e o neto de Trotsky, lutaram pela preservação da verdade histórica sobre os crimes de Stalin.

Há décadas, Esteban Volkov, hoje com 94 anos de idade, lutou pela manutenção do Museu Casa de León Trotsky e pela continuidade de suas atividades. Para compartilhar com os revolucionários brasileiros as atividades deste verdadeiro patrimônio histórico, e também buscando apoiá-las, a Revista Movimento conversou com Gabriela Pérez Noriega, diretora jurídica e executiva do Instituto do Direito de Asilo Museu de León Trotsky.

Movimento Estimada Gabriela Pérez, muito obrigado por falar com a Revista Movimento! Para nós, é um orgulho manter contato com o Museu Casa de Leon Trotsky no México. Numa edição anterior de nossa publicação em homenagem aos 80 anos da IV Internacional, em 2018, entrevistamos Don Esteban Volkov. Nesta entrevista, gostaríamos que você falasse sobre o trabalho do Museu e, além disso, sobre os planos para uma campanha internacional de solidariedade. Nossa militância e os revolucionários do Brasil seguramente poderão aprender muito com a experiência de vocês. Para começar, gostaria que você nos falasse sobre a história e alguns fatos, ao longo dos anos, do Museu Casa de Leon Trotsky, um patrimônio histórico internacional.

Gabriela Pérez Noriega –O lugar histórico do hoje Instituto do Direito de Asilo Museu de León Trotsky foi a última morada do revolucionário marxista russo. Tem a origem e a história que a seguir se narra: em 9 de janeiro de 1937, León Trotsky e sua esposa Natalia desembarcaram do navio petroleiro Ruth no porto de Tampico, México, procedentes da Noruega, graças ao asilo outorgado pelo então Presidente do México, general Lázaro Cárdenas, cuja petição lhe foi solicitada previamente em Torreón pelo muralista Diego Rivera, o professor Octavio Fernández e mediante uma carta pelo general Francisco Múgica.

O general Lázaro Cárdenas lhes enviou o trem presidencial “Hidalgo” para seu traslado à Cidade do México. Diego Rivera e Frida Kahlo generosamente lhes proporcionaram albergue em sua Casa Azul de Coyoacán, num ambiente de grande cordialidade e amizade. Depois de haver sofrido a mais rígida detenção domiciliar nos últimos seis meses de seu asilo norueguês durante os “Processos de Moscou”, por disposição de seu governo que se dobrou ante as ameaças russas de suspender as compras de arenque em caso de não acatar essas medidas, cujo propósito era impossibilitar León Trotsky de refutar e se defender das absurdas e monstruosas acusações contra ele e seu filho León Sedov in absentia, nesses “Processos de Moscou”, mediante os quais Stalin levou a cabo os sangrentos expurgos para assassinar os companheiros de armas de Vladimir Lenin e descabeçar ao Exército Vermelho, exterminando a maioria de seus generais e de sua oficialidade. Em contrapartida, no México na Casa Azul pouco tempo depois da sua chegada sem impedimento algum León Trotsky pôde iniciar de imediato sua defesa pública igual à de seu filho León Sedov, para cujo propósito solicita a criação de uma comissão internacional de indagação para examinar os expedientes dos “Processos de Moscou” e avaliar tanto sua defesa como a de seu filho, frente às acusações de que foram objeto, e para que tal comissão determine se realmente eram culpados pelos que foram condenados “in absentia”. Em março de 1937, por iniciativa “The American Committe for the Defense of Leon Trotsky”, organizou-se uma comissão composta por renomados e ilibados intelectuais de diversas nacionalidades, alheios à ideologia de León Trotsky, conhecida como a “Dewey Commission” por estar encabeçada pelo filósofo norte-americano John Dewey. Também recebeu a designação dos “Contra Processos de Moscou”. Trotsky proclamou publicamente que se a comissão o julgasse culpado da mais ínfima das acusações, ele se entregaria às autoridades soviéticas para sua execução. Na Casa Azul de Coyoacán, México, uma subcomissão levou a cabo em abril de 1937, treze sessões de exaustivos interrogatórios a Trotsky e a seu secretário Jan Frankel.

Transcorridos meses de investigações, em 21 de setembro do mesmo ano, a “Dewey Commission” deu seu veredicto: os Processos de Moscou foram baseados em “frame ups” (Falsas acusações para culpar inocentes) e Trotsky e León Sedv não eram culpados das 18 acusações levantadas contra ele por ordem de Stalin. Das muitas batalhas travadas por León Trotsky contra o regime contrarrevolucionário stalinista sem lugar para dúvidas a “Comissão Dewey” ou “Contra Processos de Moscou” foi das mais notáveis e transcendentes. Ali desmascarou e demonstrou de forma contundente e inapelável ante a história presente e futura, a absoluta ilegitimidade do regime burocrático dirigido por Stalin, que somente se podia manter impondo o reino da mentira e o assassinato sem freio nem limites.

Depois de quase dois anos de relações de grande amizade e cordialidade entre Diego Rivera e León Trotsky, no final de 1938, estas repentinamente chegaram a seu término. O secretário francês Van Heijenoort atribui como principal causa problemas surgidos com a criação da revista “Clave” por um grupo de pessoas próximas à ideologia de Trotsky, os quais não entregaram a direção a Diego Rivera, mas ao jovem José Farrel; igualmente, um artigo de Diego foi apresentado como uma carta à redação: ambos os fatos contrariaram Diego, que erroneamente numa carta ao poeta surrealista francês André Breton culpou León Trotsky do sucedido. Ao se negar o muralista a esclarecer esse mal-entendido, a amizade anterior chegou a seu término. Depois disso, segundo narra Van Heijenoort, Diego Rivera se distanciou do trotskismo e se aproximou de pequenos sindicatos e grupos políticos hostis à ideologia de Leon Trotsky.

Tempos depois, Diego Rivera chegou a dar seu apoio ao candidato presidencial de direita Andrew Almazán.

Depois do distanciamento, o secretário Van Heijenoort ficou com a tarefa de encontrar nova moradia e em março de 1939 encontrou uma casa desabitada e em bastante mal estado em Viena 19 (próxima à Casa Azul) que havia servido de casa de campo a uma família Turati, comerciantes do ramo óptico, construída na época de Porfirio Díaz. Depois de intensos trabalhos de reparação e remodelação, Trotsky, Natalia e os “secretários-guardas” se mudaram para prover alimentos à família e realizar a necessária atividade física. Também se juntou à busca e coleta de cactáceas diversas no campo mexicano, para adornar com elas o jardim da casa de Viena 19.

Depois de um ano de tranquilidade, repentinamente na madrugada de 24 de maio de 1940, a mão assassina de Joseph Stalin se fez presente, cerca de vinte stalinistas fortemente armados encabeçados pelo muralista David Alfaro Siqueiros invadiram surpreendentemente a casa e metralharam com profusão desde três locais diferentes o quarto de Leon Trotsky e de sua esposa Natália, obedecendo às ordens emanadas desde Moscou de assassiná-los, fato que se frustrou graças a Natália que ao ouvir os primeiros disparos tirou Leon Trotsky da cama empurrando-o para um canto escuro do quarto, onde ambos salvaram suas vidas. No quarto vizinho o pequeno Esteban recebeu um impacto de bala no polegar do pé direito ao descarregar um dos stalinistas toda a carga de uma pistola automática sobre o pequeno leito onde anteriormente ele dormia. A porta da rua foi aberta aos atacantes pelo jovem guarda Sheldon Hart da mesma filiação dos que haviam infiltrado na casa.

Leon Trotsky e Natália Sedova sabiam que Stalin só havia lhes dado uma trégua e muito cedo ocorreria outro atentado.

O Socialist Worker Party (SWP) dos EUA mediante uma coleta reuniu fundos para que León Trotsky comprasse a casa de Viena 19 e se fizeram obras de fortificação da mesma, obras que o revolucionário russo considerava de pouca utilidade, já que tinha a certeza de que o atentado seguinte não seria a repetição do primeiro, mas de outra natureza. Em 20 de agosto de 1940, o catalão Ramón Mercader, agente da GPU (NKVD), habilmente infiltrado no entorno de León Trotsky, para tal propósito se enamorou previamente em Paris, para tornar sua companheira a jovem trotskista norte-americana Sylvia Ageloff.

Depois disso, ele se transferiu para o México, a pretexto de negócios, aparentando sempre absoluto interesse na política, nem o menor desejo de conhecer a León Trotsky, mas procurou estabelecer amizade com os ajudantes/secretários a quem ele convidava frequentemente para restaurantes, além de pessoas próximas como o casal Rosmer, ganhou sua confiança acompanhados de Natália, quando embarcaram de volta para a Europa. Depois disso repentinamente ele pediu um pequeno favor de que Trotsky revisasse um escrito de sua autoria, algo que obviamente não lhe foi negado. E desta forma ele pôde entrar no escritório com Trotsky e breves segundos com o piolet fere de morte a León Trotsky.

Pouco tempo depois do assassinato de seu esposo, Natália Sedova recebeu a visita do Presidente general Lázaro Cárdenas e de sua esposa Amalia Solórzano de Cárdenas para manifestar-lhe seu pêsame e oferecer-lhe seu generoso apoio, o que se manifestou nos últimos meses de sua gestão, quando o general Lázaro Cárdenas dispôs que o governo comprasse a casa de Viena 19, com o propósito de dar recursos a Natália Sedova para procurar um meio de vida, com o compromisso verbal de que ela poderia seguir ocupando o lugar por tempo indefinido e com a promessa de que no futuro esta casa se converteria num museu.

No entanto, na escritura da data de 22 de novembro de 1940 de compra e venda do governo, não ficou especificado seu uso futuro para museu, mas com a designação de centro cultural, situação que deu vulnerabilidade a este lugar histórico, que rapidamente foi aproveitado por elementos stalinistas infiltrados em grande número no governo para tentar cumprir com ordens recebidas desde Moscou de fazer desaparecer a casa que foi de León Trotsky e o cenário e testemunho do aleivoso crime aí realizado. Em repetidas ocasiões chegaram mensagens de escritórios do governo ordenando a desocupação do imóvel pela família, para empregá-la para creche, biblioteca ou gabinetes governamentais, com pronta intervenção do general Lázaro Cárdenas.

Graças à posterior intervenção do general Lázaro Cárdenas numa carta sua datada de 4 de julho de 1946 dirigida ao licenciado Adolfo Zamora, advogado que havia sido grande amigo, representante legal de León Trotsky e sob cuja petição exerceu o papel de tutor de seu neto, onde ele manifesta: “Que o primeiro magistrado teve por bem acordar a que se deixe a Senhora Viúva de Trotsky em posse definitiva e em propriedade da citada casa, e que efetivamente giraria as instruções correspondentes”. O que confirmou o advogado Javier Rojo em carta datada de 13 de setembro: “(…) Já tenho dadas ordens à Direção Geral de Obras Públicas para que a mesma escriture em favor de você, e quando este documento esteja pronto, a chamarão para que você a assine”.

E assim, em pouco tempo, Natalia Sedova foi chamada para a assinatura. Mas o documento nunca foi entregue, pois mãos misteriosas fizeram-no desaparecer e a casa seguiu como propriedade do governo.

Outro episódio digno de ser contado foi o assunto do embaixador russo no México: Konstantin Umansky, segundo o relato do advogado Adolfo Zamora. E ao qual unia uma estreita amizade com o Procurador de Justiça do México, que lhe contou que Umansky tinha a ineludível missão por encargo de seu chefe Stalin, sem limitar recursos, subornar a Justiça mexicana, para que fizesse sua a versão do ditador de que a morte de Trotsky havia sido numa luta frente a frente com um suposto partidário seu decepcionado e não um crime com traição, aleivosia e vantagem, com a autoria indelével, inapagável de Joseph Stalin. Obviamente, a justiça mexicana não se prestou a esta falsificação. E, pouco depois, o embaixador Konstantin Umansky foi destituído de seu cargo no México e ocupou o cargo de embaixador na Costa Rica, aonde nunca chegou, já que o avião que o levava explodiu misteriosamente ao clarear o dia, em 25 de janeiro de 1945, em seu desembarque no Aeroporto Militar da Cidade de México.

Depois do estranho extravio da escritura que avalizava a doação da casa de Viena 19 a Natália Sedova, viúva de Trotsky e seguir a propriedade do imóvel em nome do governo, circunstâncias que, por sorte, durante muitos anos não puseram em perigo a permanência deste lugar histórico, salvo brevemente numa ocasião nos primeiros dias de janeiro de 1965.

O presidente Gustavo Díaz Ordaz num repentino ataque de fúria pela participação de estudantes e professores de filiação trotskista em pugnas universitárias na UNAM, como represália e vingança exigiu repentinamente a desocupação imediata de tal casa pelos familiares de León Trotsky que a ocupavam e cuidavam dela. Por cujo motivo chegou um advogado do Departamento Central com quinze caminhões de carga alinhados fora da casa e uma ordem de despejo imediata do imóvel.

Graças à intervenção do general Lázaro Cárdenas e de um grande amigo do Museu, o licenciado Javier Wimer, concedeu-se um prazo de quinze dias para o despejo. Três meses depois do despejo, Esteban Volkov recebe uma notificação do governo no qual é indicado que pode voltar e habitar novamente a casa de Viena 19.

Em 24 de setembro de 1982, ficou assegurada sua existência no futuro, ao ser declarado com esta data monumento histórico por decreto do presidente José López Portillo, designando como guardião e tutor Esteban Volkov.

Em 20 de agosto de 1990, o então regente da Cidade do México, licenciado Manuel Camacho Solís, levou a cabo a reinauguração da Casa Museu León Trotsky sob a supervisão da dra. Alexandra Moreno Toscano. De forma simultânea, num edifício anexo comprado pelo governo, inaugurou-se o “Instituto do Direito de Asilo”.

O edifício anexo ao museu conta com duas salas de exposição, auditório, biblioteca e escritórios. Posteriormente, a razão social do museu muda o Instituto do Direito de Asilo Museu de León Trotsky.

M Como se encontra atualmente o museu?

GPN – Permanece fechado pela contingência sanitária. Estamos trabalhando para realizar melhorias e modificações necessárias e dar cumprimento às indicações das autoridades de saúde. Estes trabalhos estão encaminhados a permitir maior ventilação em salas de exposição temporal e permanente, biblioteca, auditório e oficinas. O objetivo do Instituto do Direito de Asilo-Museu Casa de León Trotsky é manter e preservar a verdade histórica.

Como se mencionou brevemente na pergunta anterior, o museu opera como um centro cultural, já que, ademais da exposição permanente da Casa Museu, realizam-se atividades culturais, acadêmicas e educativas, como projeções de cinema, apresentações de livro, oficinas de criação literária, teatro (lugar onde se conta contos), seminários, conferências, oficinas e exposições temporais, além de ter o Instituto do Direito de Asilo, dentre suas atividades, apoiar diversas instituições públicas e privadas sobre o tema da migração. O objetivo do IDA-Museu é manter e preservar a verdade histórica.

M – Qual é o papel de Don Esteban Volkov na defesa da memória e da história de sua família, especialmente de León Trotsky?

GPN – Don Esteban Volkov Bronstein é nomeado guardião e tutor do museu por decreto presidencial no sexênio do ex-presidente do México Jose Lopez Portillo. Desde 2016, é diretor-geral deste recinto histórico e a missão mais importante de Don Esteban é manter e preservar a verdade histórica.

M – Como os simpatizantes do Museu em todo o mundo podem colaborar com este importante trabalho de memória coordenado por sua equipe e por você?

Em novembro, será inaugurada a nova página web do museu, que terá informações sobre o Instituto do Direito de Asilo, suas atividades acadêmicas, educativas e culturais, assim como uma loja online na qual se oferecerão livros e diversos souvenirs.

Uma forma de apoiar é visitando a página do museu e adquirindo alguns dos livros ou souvenirs que estarão à venda. Desejamos, quando viajem, convidá-los a que visitem o museu.

M – Depois da pandemia da Covid-19, quais são os projetos e as perspectivas do Museu para o futuro?

Temos diversos projetos, para citar alguns: 1) a apresentação do livro Stalin (de Alan Woods) em coedição com o Fundo de Cultura Econômica; 2) a publicação da tradução do livro da biografia de Trotsky de Pierre Broué (Tradução ao espanhol do Dr. Rolando Tamayo e Salmoran); 3) a exposição “A rota de Trotsky no México” (nesta exposição será inaugurada uma placa comemorativa e se dará a conhecer uma fotografia inédita de Trotsky no balneário de água em Cuautla Morelos (terra do revolucionário mexicano Emiliano Zapata); 4) a exposição “Zapata Disruptor”; 5) uma exposição em Tijuana (na fronteira com os Estados Unidos); 6) uma oficina de criação literária; e 7) um seminário sobre migração.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.