O túnel do tempo do racismo nos Estados Unidos da América e o Ódio que o Ódio gerou
Reprodução

O túnel do tempo do racismo nos Estados Unidos da América e o Ódio que o Ódio gerou

Uma reconstrução histórica da luta antirracista nos Estados Unidos.

Danilo Serafim 5 nov 2020, 19:21

Você diz que acredita que “todas as vidas importam”. Eu digo que não acredito no que você faz. – Stevie Wonder

Com as eleições nos Estados Unidos marcadas para 3 de novembro e com um processo extremamente polarizado, assistimos ao desgaste do governo Trump, com suas posições autoritárias, racistas e negacionistas sendo duramente questionadas por boa parte da população norte-americana. Trump vem acumulando uma série de desgastes. Se as eleições fossem hoje, o candidato do Partido Democrata venceria o certame?

A pandemia da Covid-19 desnudou o problema da saúde pública nos EUA, onde a população negra e latina têm se tornado as maiores vítimas, e já ultrapassou o patamar de 7 milhões de casos, e mais de 200 mil mortes.

A crise do governo Trump agravou-se ainda mais com o assassinato de Georg Floyd pela polícia, um homem que em virtude da pandemia perdeu o emprego como segurança de um restaurante na cidade de Minneapolis, e que fez eclodir uma revolta generalizada dentro e fora dos EUA.  Floyd agonizando enquanto dizia “eu não consigo respirar”, e logo em seguida, o flagrante crime registrado por uma moradora Darnella Fraizer, percorreu o mundo em todas as páginas de jornais, canais de TV e redes sociais na internet.

A organização autônoma do movimento Black Lives Matter nos Estados Unidos, centrada na questão do racismo policial, e pondo em descoberto a questão mais ampla do racismo institucional (de Estado), constitui, após o desaparecimento do movimento pelos direitos civis, o elemento mais significativo em prol da luta antirracista nos EUA. 

Segundo JS Titus, indiano pesquisador e ativista da IV Internacional, morador de Londres, nas semanas após o assassinato de George Floyd pela polícia dos EUA, os protestos e os tumultos se espalharam rapidamente pelo mundo. “É muito apropriado que o terrível legado da pilhagem imperialista da África dê origem ao movimento que abalou o mundo em questões de dias. Como seria de se esperar de tal revolta global, diferentes partes do mundo viram diferentes questões locais se fundirem com demandas sobre assassinatos policiais nos Estados Unidos. Na Grã Bretanha, por exemplo, no coração da velha ordem colonial, protestos ocorreram em mais de 260 lugares, não apenas em solidariedade ao movimento Black Live Matters nos EUA, mas também em confronto com o próprio legado colonial imperialista do estado britânico e a opressão racial contínua de pessoas negras”, disse JS Titus.

A nota da IV Internacional vai ao mesmo sentido: “Os protestos ocorreram fora dos EUA, da Europa à Austrália, do Japão à África, do México ao Brasil, combinaram protestos contra a morte de Floyd, solidariedade com os protestos antirracistas nos EUA, e protestos contra a brutalidade policial local contra a maioria negra das populações no Brasil, povos indígenas como na Austrália, minorias étnicas, religiosas e migrantes. Manifestações em todo o mundo gritam e carregam cartazes proclamando “Vidas negras são importantes” ao lado de nomes de pessoas de cor mortas pela polícia local – Adama Traoré na França em 2016, e vários casos na Grã Bretanha – de maneira semelhante a George Floyd. Exigiu a remoção de símbolos de opressão racista e imperialista, como estátuas do rei belga Leopoldo II, que explorou de forma assassina o Congo, com um espaço capitalista privado”. 

No Brasil as manifestações antifascistas e antirracistas ocorridas em 7 de junho, motivadas pelos eventos da rebelião nos EUA, mobilizaram milhares de pessoas mesmo no ápice da pandemia, e suplantou os atos golpistas e antidemocráticos, pelo fechamento do STF e do Congresso pró Jair Bolsonaro, obrigando as hordas bolsonaristas a um recuo das manifestações de rua nos finais de semana. Uma das consignas do movimento antirracista no Brasil se traduz contra a violência e a repressão policial e o genocídio da juventude negra das favelas, periferias e comunidades pobres nas grandes e médias cidades brasileiras. Silvio Almeida destaca muito bem essa situação em seu livro Racismo Estrutural no Brasil: “o racismo é uma decorrência da própria estrutura social, ou seja, do modo “normal” com que se constituem as relações políticas, econômicas, jurídicas e até familiares, não sendo uma patologia social e nem um desarranjo institucional. O racismo é estrutural”.

Com a chamada guerra às drogas no Brasil, entra em cena como um discurso de legitimação da ação genocida do Estado. Um discurso que ao longo da história da sociedade brasileira e cunhado por pessoas na atualidade como Wilson Witzel, “tem que mirar na cabecinha”, ou por Bolsonaro “bandido bom é bandido morto”, que se materializou de diferentes formas e perspectivas em corpos negros. Ou seja, como diz a música cantada por Elza Soares, a carne mais barata do mercado é a carne preta.

A onda de protestos que varreram os EUA e o mundo trouxe à tona o que todos já sabiam. O racismo institucional nos EUA continua a persistir e agora tendo à frente um presidente reacionário e abertamente preconceituoso e racista. De fato, quando vem à tona o debate sobre questões raciais nos Estados Unidos, elas aparecem dentro de um contexto novo, reunindo negros e brancos a favor dos direitos humanos, que se opõe ao governo Trump e que querem igualdade racial e lutar por valores éticos. Mas nem sempre foi assim!

A luta pelos direitos civis nos Estados Unidos

Ao final da Segunda Guerra Mundial, os Estados Unidos eram vistos como modelo de sociedade a ser seguido pelos países capitalistas. Considerada por muitos a terra das oportunidades e da igualdade, a nação escondia relações sociais internas marcadas pelo preconceito e pela discriminação. Essa situação opressiva ficou evidente em 1955, com a repercussão do ato praticado por uma mulher negra, Rosa Parks, que se recusou a cumprir a determinação legal do estado do Alabama que obrigava a separação entre brancos e negros a bordo dos ônibus.

Presa, seu caso serviu de estopim para o início da luta pelos direitos civis e pela igualdade racial nos Estados Unidos. O movimento culminou com a marcha em Washington D.C., em 1963, quando cerca de 250 mil pessoas foram acompanhar a aprovação das leis de direitos civis, que suprimiram as leis segregacionistas em todos os estados do país, as famigeradas leis Jim Crow, legislações estaduais e locais que impunham a segregação racial no sul dos Estados Unidos. Todas essas leis Jim Crow foram promulgadas no final do século XIX e início do século XX pelas legislaturas estaduais dominadas pelos democratas após o período da Reconstrução. Tais leis foram aplicadas entre 1877 e 1964. 

Em 1896, a Suprema Corte, a partir do caso Plessy vs Ferguson, estabeleceu a doutrina de “separado, mas iguais” nas áreas de educação, e ampliou a doutrina para as áreas de transportes públicos como ônibus e trens interestaduais, que se tornou segregada. Na prática as leis Jim Crow institucionalizaram desvantagens econômicas, educacionais e sociais para os afro-americanos e outras pessoas de cor que viviam nos estados do sul.

O dia 15 de setembro de 1963, num domingo na cidade de Birmingham, a Ku Klux Klan cometeu um atentado terrorista contra a Igreja Batista, onde foram colocadas quinze bananas de dinamite nos degraus do prédio que explodiu ferindo 22 pessoas e matando 4 meninas afro-americanas. Esta data ficou conhecida como o massacre da 16th Street Batist.

Ao entrar em vigor, em 1964, a lei dos direitos civis produziu mudanças estruturais na sociedade estadunidense, e permitiu outro olhar sobre o problema do racismo naquele país e no mundo, servindo de base para a luta por igualdade de diversas minorias sócias, porém não suprimiu o racismo, nem a condição socioeconômica dos afro-americanos. Muito pelo contrário.

No dia 6 de agosto de 1965, o presidente Lyndon Johnson assinou a lei que colocou fim às táticas discriminatórias como os arbitrários testes de analfabetismo para os negros, que obrigava os estados com longa história de discriminação (a maioria no sul do país) a pedir permissão ao governo federal para modificar as normas de voto. A lei dos direitos do voto é um marco na legislação federal dos EUA, por ter estabelecido o fim das práticas eleitorais discriminatórias, decorrentes da segregação racial nos Estados Unidos. A lei foi sancionada no auge do movimento dos direitos civis.

O objetivo aqui não é escrever sobre os dois grandes líderes das lutas pelos direitos civis.  Mas escrever sobre as questões raciais nos Estados Unidos, sem citar Martin Luther King Jr., Malcolm X e o movimento Black Power, ou seja, não falar do Partido Panteras Negras e de Ângela Davis, deixaria uma lacuna imperdoável.

As mobilizações pelos direitos civis na década de 1960 foram marcadas fortemente pela atuação de dois líderes que eram os mais capazes em todos os tempos, assim como do surgimento do movimento Black Power e do Partido dos Panteras Negras.

Martin Luther King Jr., pastor protestante, pacifista adepto das ideias de desobediência civil preconizadas por Gandhi, que em 1957 fundou e presidiu a Conferência da Liderança Cristã do Sul. Ele participou ativamente e liderou as grandes mobilizações pelos direitos civis como: o boicote aos ônibus de Montgomery (1955 e 1956) das Marchas de Selma e Montgomery (1965), da Campanha das Pessoas Pobres (1968), e se tornou um dos maiores opositores da Guerra do Vietnã e da defesa do pacifismo, que lhe valeu prêmio Nobel da Paz em 1964, até ser assassinado em Memphis, por um racista de nome James Earl Rey em 4 de abril de 1968.

O assassinato de Martin Luther King Jr. foi o estopim para manifestações em mais de cem cidades. Seu assassinato provocou consternação internacional.  A luta antirracista chegaria ao seu auge em agosto daquele ano, com cenas de batalhas nas ruas entre os manifestantes indignados com o assassinato do líder pacifista e com a polícia na cidade de Chicago, resultando em mais de 600 civis e 130 policiais feridos. Tal fato possui muitas semelhanças com o movimento que eclodiu após a morte de Georg Floyd. A indignação e a revolta levaram às ruas milhões de pessoas, em mais de 140 cidades e em quase todos os 50 Estados americanos. Com o diferencial de que agora, em 2020, os EUA se depararam com o luto de mais de 105 mil vidas (hoje ultrapassam 200 mil vidas) perdidas na pandemia e o desespero pelos mais de 30 milhões de postos de trabalho fechados em uma recessão comparável à Grande Depressão de 1929.

Malcolm X, com a linha de “todos os meios necessários”, conseguiu divulgar suas ideias políticas que se alastraram rapidamente dentro e fora dos EUA. Tal processo foi interrompido bruscamente com seu assassinato em 21 de fevereiro de 1965 na cidade de Nova Iorque, por membros da Nação do Islã, da qual se tornara dissidente. A participação de Malcolm X na Nação do Islã contribuiu para que a organização saltasse de 500 membros para 30 mil em uma década.  Mas as acusações de corrupção e a descoberta de que o líder da organização, Elijah Muhammad, havia cometido adultério e assédio sexual, fizeram Malcolm X romper com a Nação do Islã. Pouco depois, em 1963, viajou para Meca, onde passou por uma transformação espiritual, convertendo-se ao islamismo sunita. Voltou aos EUA com um novo nome, Al Hajj Malik Al- Shabazz fundou a Organização para a Unidade Africana, com a qual passou a defender que o Racismo, e não a raça branca como um todo, era o inimigo dos afro-americanos. Ele enxergava no islamismo uma forma de superar a desunião racial.  

Tornou-se o líder carismático dos mulçumanos pretos, orador inflamado que pregava o ódio contra os brancos e reivindicava um território nos Estados Unidos em que os negros americanos pudessem formar um estado independente. Como muitos afro-americanos, as raízes de Malcolm X foram apagadas pela escravidão, e ele enxergava o sobrenome como mais uma ferramenta de opressão. O X representando o nome de família africana desconhecido, que os brancos haviam extirpado ao arrancar seus antepassados da África. Suas ideias e discursos contribuíram para o surgimento do movimento Black Power, além de popularizar os valores de autonomia e independência entre os afro-americanos nos anos 1960 e 1970.

Os Panteras Negras que surgiram em 1966, como um misto de “nacionalismo Negro radical”, defendiam a resistência armada contra a opressão dos negros, o marxismo do Terceiro Mundo e da política de serviços comunitários. Tal política consistia em administrar um programa de café da manhã gratuito, que atendia a dezenas de milhares de crianças, em sua maioria negras, na década de 1970, e que tomou importantes proporções, rapidamente encarado pelo governo dos Estados Unidos e pelo FBI como “a maior ameaça à segurança interna dos EUA”. Não seria exagero dizer que foi daí, da radicalidade dos Panteras Negras, que se deu a gênese do Black Lives Matter da atualidade. A organização chegou a ter cerca de 2 mil membros, e foi dissolvida oficialmente na década de 1980.  

Segundo Vitor Paiva, Especial Hypeness: “Ângela Davis era tudo que o status quo masculino branco não tolerava: uma mulher negra, inteligente, altiva, senhora de si, orgulhosa de suas origens e de seu lugar, desafiando o sistema que oprimia e violentava seus pares sem jamais baixar a cabeça ou o volume de sua voz. Nascida em Birmingham, quando esta ainda era uma cidade segregada, Ângela Davis cresceu em um bairro marcado pela monstruosa tradição de se explodir casas de famílias e igrejas nos bairros negros – preferencialmente com famílias ainda dentro dos locais. Quando ela nasceu, uma das mais populares “organizações civis” da época era a Ku Klux Klan, simbolizada pelo hábito de perseguir, linchar e enforcar qualquer negro que lhe cruzasse o caminho. Assim, quando a fala sobre as forças racistas, os extremistas conservadores e as consequências do racismo, machismo e da desigualdade social, Ângela Davis sabe o que diz: “A luta por liberdade do povo negro, que moldou a própria natureza da história desse país, não pode ser apagada com um gesto”. Nós não podemos ser forçados a esquecer de que a vida negra importa. Esse é um país ancorado na escravidão e no colonialismo, o que quer dizer, para o bem e para o mal, que a história dos EUA é uma história de imigração e escravidão. Espalhar xenofobia, atirar acusações de assassinatos e estupros e construir muros não vai apagar a história”.

Em 1969 Ângela foi demitida do cargo de professara de filosofia da Universidade da Califórnia por sua associação ao partido comunista americano e com os Panteras Negras, ainda que fizesse parte de uma frente pela resistência não violenta (e apesar da suposta liberdade de expressão que os EUA se orgulham).  Nos primeiros anos da década de 1970 Ângela viria a ser perseguida, colocada na lista dos 10 criminosos mais perseguidos do país, condenada e presa sem provas e com altas doses de espetacularização. Sua luta ganhou foco no sistema prisional e contra os aprisionamentos injustos – e foi essa justamente a luta que a levaria para dentro da prisão. Ângela estudava o caso de três jovens negros acusados, de matarem um policial. Durante o julgamento, um dos três jovens, armado, tomou o tribunal e o juiz como reféns. O evento terminaria em confronto direto, com a morte dos três réus e do juiz. Ângela foi acusada de ter comprado as armas utilizadas no crime, o que, pela lei da Califórnia, a ligava diretamente nos assassinatos. Davis foi tratada como uma terrorista de alta periculosidade e confinada em 1971. A reação à prisão foi intensa, centenas de comitês pela libertação de Ângela criaram um verdadeiro movimento cultural no país. Para medir o impacto da prisão e a força do movimento basta saber que as canções “Ângela”, de John Lennon e Yoko Ono, e “Sweet Black Angel” dos Rolling Stones foram compostas em tributo à Ângela. “Irmã, há um vento que nunca morre. Irmã estamos respirando juntos. Ângela o mundo olha por você”, escreveu Lennon. De todos esses heróis, Ângela Davis é a única sobrevivente!    

Os Panteras Negras instituíram o Programa dos 10 pontos em maio de 1967 que tinha dois tópicos principais: “O QUE QUEREMOS AGORA! EM QUE ACREDITAMOS? Para aquelas pobres almas que não conhecem a história dos negros, as crenças e os desejos do Partido Pantera Negra para Autodefesa podem parecer absurdos. Para o povo negro, os dez pontos são absolutamente essenciais para sua sobrevivência. Temos ouvido a frase revoltante “essas coisas levam tempo” por cerca de 400 anos. O Partido Pantera Negra sabe o que o povo negro precisa. A unidade negra e a autodefesa tornarão essas demandas uma realidade. 

Um programa radical, que expressou o sentido revolucionário, e que assustou a comunidade branca dentro e fora dos EUA dada a sua ousadia. Nesses dez pontos vale destacar dois. O primeiro em O QUE QUEREMOS AGORA! No item 1: “Nós queremos liberdade. Queremos poder determinar o destino da comunidade negra”. E o mais marcante, EM QUE ACREDITAMOS? Nos itens 2 e 3 respectivamente: “Acreditamos que o governo federal é responsável e obrigado a dar a todos os homens e mulheres emprego e garantir alguma forma de salário. Acreditamos que se os homens de negócio, brancos e americanos não quiserem dar empregos a todos, então os meios de produção devem ser tomados deles e colocados à disposição da comunidade para que as pessoas possam se organizar e empregar toda a gente garantindo um nível de vida de qualidade”. E item 3 que é marcante por causa da cobrança histórica às promessas feitas aos negros desde a guerra da Secessão: “Acreditamos que esse governo racista nos roubou, e agora exigimos um pagamento de sua dívida de 40 hectares e duas mulas. Esse pagamento foi prometido há 100 anos como restituição de todo o trabalho escravo e os assassinatos em massa do provo negro. Nós iremos aceitar o pagamento em moeda corrente e ele será distribuído por todas as nossas comunidades. Os alemães estão agora ajudando aos judeus em Israel pelo genocídio que realizaram contra aquele povo. Os alemães mataram 6 milhões de judeus. Os americanos racistas foram parte do assassinato de mais de 50 milhões de pessoas negras, portanto, sentimos que essa é uma demanda bem modesta que estamos fazendo”.  Não foi à toa, que o diretor do FBI J. Edgar Hoover chamou o Partido Panteras Negras, de “a maior ameaça à segurança interna do país”. O Programa do partido trazia em sua gênese a auto emancipação do proletariado negro, assim como a auto emancipação de todos os oprimidos afro-norte americanos que durante 400 anos sofreram com a violência, assassinatos, linchamentos, enforcamentos, o ódio, a segregação racial e o racismo da população branca naquele país.

O caso dos Estados Unidos: a abolição pela guerra (1861-1865)

Dois livros importantes tratam sobre a questão da abolição dos escravos e a guerra civil nos EUA, e devem ser citados nesse breve artigo. O primeiro intitulado Libertação Negra e Socialismo, de Ahmed Shawki, editor da revista internacional Socialist Review. E o segundo, que acaba de ser lançado no Brasil, é o festejado Capital e Ideologia, de Thomas Piketty.

Irei enfocar nesse texto as duas contribuições para a literatura afro americana e mundial desses dois fabulosos autores.  

Segundo Ahmed Shawki, em Libertação Negra e Socialismo, “a eleição de Abraham Lincoln, o candidato a presidente pelo Partido Republicano em 1860, foi recebida com horror pelos proprietários de escravos do Sul”. Para a classe governante sulista, uma presidência republicana era considerada uma revolução que ameaçava destruir seu sistema social, principalmente a escravidão. Para os brancos do Sul aquele era um sistema social normal, em que o lugar de negros era o trabalho forçado nas plantations sob o açoite e nas senzalas. Ainda segundo Ahmed Shawki, “em vez de se submeter ao governo republicano, eles decidiram pela secessão da União”. Em fevereiro de 1861, uma convenção de proprietários de escravos estabeleceu os Estados Confederados da América (CSA, em inglês) e elegeu um governo provisório. A secessão de onze estados escravistas precipitou a crise que levou ao estouro da guerra entre o Norte e o Sul.

A Guerra Civil eclodiu em uma conjuntura provocando uma das maiores carnificinas entre norte-americanos, e foi descrita por muitos autores como a “primeira guerra moderna”, que concluiu a revolução burguesa de 1776 nos EUA. Ou seja, completou a substituição do regime pré-capitalista e abriu caminho para constituição para o desenvolvimento do capitalismo moderno. Entre outros efeitos a guerra aboliu a escravidão, e colocou os EUA numa condição de potencia mundial.  

Segundo Ahmed Shawki, Karl Marx que era colaborador do jornal abolicionista The New York Tribune, e acompanhava as tensões entre o sul e o norte escreveu assim que eclodiu a guerra da secessão: “[…] nada além de uma luta entre dois sistemas sociais, o sistema escravista e o sistema de trabalho livre”. A luta irrompeu porque os dois sistemas não podem mais viver lado a lado no continente norte-americano. Só pode terminar com a vitória de um ou de outro.

Em seu livro, Ahmed Shawki aponta como foi o surgimento do partido Republicano: “Composta de capitalistas industriais, fazendeiros do Meio-o este, trabalhadores e artesãos, essa coalizão formou a base do novo Partido Republicano. O principal slogan dos republicanos avançados era ‘solo livre, trabalho livre’, representando a aspiração a uma economia moderna baseada no direito generalizado à propriedade (solo livre) e empreendimento artesanal (trabalho livre)”.  O principal impedimento para atingir qualquer desses objetivos, argumentavam os republicanos, era o domínio da escravocracia do governo e a expansão contínua da escravidão nos territórios. Para os capitalistas nortistas, a escravidão tinha se tornado um impedimento para um desenvolvimento capitalista. A consolidação de um poder político e econômico exigia limitar a expansão futura da escravidão.

Interessante também é o enfoque que Thomas Piketty apresenta em Capital e Ideologia sobre o mesmo tema. Vejamos agora o caso americano que é particularmente importante para a nossa pesquisa dado o eminente papel dos Estados Unidos, autoproclamados líderes do mundo “livre” desde 1945, no sistema interestatal mundial: Trata-se, além disso, de um caso único de abolição ocorrida ao fim da guerra civil violenta, e isso num país em que as discriminações raciais legais se perpetuaram até os anos 1960 e as desigualdades étnico-raciais (ou percebidas e representadas como tais) ainda cumprem um papel estruturante no início do século XXI, tanto no plano econômico e social quanto no político eleitoral. Os países europeus, que por muito tempo viram essa herança singular com espanto e distanciamento, ainda se questionam como foi possível o Partido Democrata, que era o partido da escravidão no momento da guerra civil de 1861-1865, transformar-se no partido do New Deal nos anos 1930, no dos direitos civis nos anos 1960 e, por fim, no de Barack Obama nos anos 2010, sempre aos poucos e sem maiores descontinuidades. Entretanto, seria inspirador para eles prestar atenção nessa trajetória, já que ela não é de todo alheia à estrutura das desigualdades e do conflito eleitoral e migratório que se desenvolveu ao longo dos anos 1990-2020 nas sociedades pós-coloniais europeias, cuja evolução no longo do prazo suscita inúmeras interrogações.           

De acordo com Thomas Piketty em Capital e Ideologia, Lincoln foi eleito em novembro de 1860 com um programa contrário à extensão da escravidão aos novos estados do Oeste. No final de 1860 e início de 1861, lembraria incessantemente que não estava pedindo nada além da aceitação inequívoca de que os novos estados seriam livres, e do início de um processo que, se tivesse sido aceito, poderia ter prolongado a escravidão até 1880 ou 1900, se não mais. Os sulistas, porém, a exemplo das minorias brancas da África do Sul e da Argélia no século XX, negaram-se a se curvar a uma maioria que julgavam distante e estrangeira ao seu mundo, e preferiram tentar a cartada da secessão. O estado da Carolina do Sul votou pela secessão em dezembro de 1860 e já em fevereiro seis outros estados haviam se juntado a ela na Confederação escravocrata. Lincoln queria dar uma chance ao diálogo, mas a tomada do Forte Sumter pelos confederados, em abril de 1861, em Porto Charleston, na Carolina do Sul, e a capitulação das tropas federais que ali se encontravam, pouco após a posse do novo presidente, não lhe deixaram outra escolha senão a guerra ou aceitar a divisão do país.    

Ainda segundo Thomas Pikety, na obra citada, quatro anos depois, e após mais de 600 mil mortos (isto é, o mesmo número que o total acumulado de todos os outros conflitos em que os Estados Unidos se envolveram desde sua fundação, incluindo as duas guerras mundiais, a da Coreia, a do Vietnã e a do Iraque), o conflito terminou com a capitulação dos exércitos confederados em maio de 1865. Considerando-se os prejuízos causados pelos sulistas, tornara-se inconcebível pagar uma compensação aos ex proprietários de escravos. Para mobilizar os negros em favor dos exércitos da União, Lincoln fez com que o Congresso aprovasse, em abril de 1864, a Décima Terceira Emenda, que emancipava os escravos (sem qualquer compensação, em quaisquer sentidos), a qual foi ratificada por todos os estados em dezembro de 1865, incluindo os estados do Sul, então ocupados pelos exércitos nortistas, que fizeram questão de ressaltar, na ocasião, que essa emenda não continha nenhuma implicação referente aos direitos políticos, sociais e econômicos dos negros. No início de 1865, as autoridades militares do Norte tinham dado a entender aos escravos libertos, que após a vitória eles ganhariam “uma mula e 40 acres de terra” (cerca de 16 hectares), um programa que, se tivesse sido aplicado à escala nacional, teria significado uma redistribuição agrária em larga escala. Mas tão logo os combates terminaram, a promessa foi esquecida: nenhum texto de compensação para os escravos foi votado no Congresso, e os 40 acres e a mula se tornaram símbolos da enganação e da hipocrisia do Norte.

Em 24 de dezembro de 1865 era fundada a Ku Klux Klan em Pulaski, no Tennesse, após o final da Guerra da Secessão. A Klan tinha por objetivo impedir a integração social dos negros recém-libertados, como exemplo, adquirir terras e votar. A klan atuou na legalidade até 1870, quando acabou sendo considerada proscrita. O ressurgimento da Ku Klux Klan aconteceu em Atlanta inspirado no filme épico: “O nascimento de uma nação”, de D.W. Griffith, que estreou em 08 de fevereiro de 1915. A história de amor no contexto da Guerra Civil foi um sucesso e causou forte impacto no público branco aumentando o ódio contra os negros. Esse sentimento foi utilizado pelo pregador metodista Willian Joseph Simmons para restaurar a Klan. Esse período durou até 1944 às vésperas do fim da segunda guerra mundial. O terceiro ressurgimento da Klan aconteceu já em 1946, caracterizado pelo anticomunismo, homofobia, anticatolicismo fanático, neonazismo e antimiscigenação, propondo linchamento, boicote e assassinatos para reprimir ativistas pelos direitos humanos.

Um levante de massas

De acordo com a Declaração do Burô Executivo da IV Internacional de 9 de junho de 2020, o assassinato de Floyd foi a gota d’agua já a ponto de transbordar resultando no magnifico levante global, decorrência de uma articulação de fatores: uma série de assassinatos policiais contra a população negra, mas também os efeitos de uma pandemia que resultou em mortes de negras e negros em proporção três vezes maior que a média da população. Tudo isso somado à crise econômica que também prejudicou desproporcionalmente aos trabalhadores negros e minorias étnicas. O protesto em massa nas ruas e a necessidade permanente de um distanciamento físico, numa altura em que as comunidades não brancas, migrantes e marginalizadas são particularmente vulneráveis à pandemia, é uma das grandes contradições deste período. As comunidades negras, apoiadas por jovens trabalhadores brancos, estão indo as ruas porque consideram mais urgente acabar com o racismo, a violência repressiva e os governos neofascistas do que respeitar medidas impossíveis de implementar nas suas casas, em condições de falta de rendimento (rendas) e emprego. 

Outro caso chocante é o de Breona Taylor. A decisão do Grande Júri do Kentucky – um órgão secreto – de não registrar acusações de homicídio contra os dois policiais brancos que mataram Breona Taylor, evidencia que o sistema legal dos Estados Unidos é criminoso, injusto e precisar abolido e substituído. Durante a invasão à meia noite em seu apartamento, o namorado de Taylor, Kenneth Walker disparou um único tiro de advertência contra os policiais à paisana, pensando que eles eram intrusos. Os policiais mataram Taylor que estava dormindo. Para o procurador-geral de Kentucky, foi uma “tragédia” e não um crime.   Nos Estados Unidos os policiais têm imunidade total para suas ações assassinas. Legalmente é chamado de “imunidade qualificada”. Tudo que um policial faz, incluindo assassinar uma pessoa inocente é protegido. 

Nos Estados Unidos a rebelião já provocou divisões na grande burguesia e nos seus representantes políticos. Há sinais de crise de regime no próprio governo Trump, uma vez que oficiais militares do topo e o próprio secretário de Defesa de Trump – e os quatro ex presidentes vivos, incluindo George W. Bush – repudiaram abertamente a ameaça de Trump de usar a força militar contra manifestantes multirraciais, em grande parte jovens, a que ele chama de “bandidos” e “terroristas”. 

O blog Rampant Revolutionary Politics – Chicago Style, de Kevin Moore, educador e dirigente do sindicato de professores de Chicago, publicou no dia 30/07/2020 uma notícia descrevendo a brutalidade da força policial daquela cidade: “Em 17 de julho de 2020, a polícia protestou no centro de Chicago. Uma manifestação de solidariedade negra e indígena marchou para cercar uma estátua de Cristóvão Colombo no Grant Park. A polícia de Chicago com equipamento antimotim interrompeu os esforços dos ativistas para derrubar a estátua usando spray de pimenta, gás lacrimogêneo, cassetetes e escudos e mãos para roubar bicicletas e brutalizar manifestantes. Miracle Boyd, uma ativista de 18 anos e recém formada no ensino médio, teve seus dentes arrancados e jornalistas e fotógrafos foram agredidos pela polícia. A cena de violência policial desenfreada contra manifestantes em meio a um levante nacional por justiça racial traz à mente as sombras de 1968. A rebelião em curso em todo o país gerou um crescente debate nacional sobre a verdadeira função da polícia sob o capitalismo. A polícia de Chicago é excepcionalmente famosa por seu racismo e brutalidade”. Segundo Yamahtta Taylor, “A violência policial faz parte do DNA dos Estados Unidos. O policiamento racista é um pilar essencial usado para defender um sistema baseado na supremacia branca”.

O The New York Times de 30 de setembro de 2020 publicou o artigo assinado por Suang Li, sob o título “Em Oakland, quebrando a barreira com biscoitos, líderes asiático-americanos e negros”, descrevendo como a combinação da pandemia e do movimento Black Lives Matter está mudando a relação entre os dois grupos: “Quando os protestos do Black Lives Matter eclodiram no centro de Oakland, Alicia Wong e seu marido Alex Issvoran sabiam o que podiam fazer para apoiar os manifestantes – fazer biscoitos da sorte. A empresa que possuem a Fortune Cookie Factory, é uma das empresas mais antigas da Chinatown de Oakland. Eles criaram novas receitas e escreveram “BLM” em letras douradas em cada uma. Em seguida, vieram novas fortunas. Em vez de provérbios chineses, eles pesquisaram textos e filmes clássicos de líderes dos direitos civis. De Martin Luther King Jr. veio: “Hoje sabemos com certeza que a segregação acabou”. A única questão que resta é quão caro será o funeral”.

A Sr.ª Wong nascida na China, mas criada nos Estados Unidos, e Issvoram juntaram-se aos protestos e deram biscoitos aos manifestantes. Outros eles venderam, doando metade dos lucros para a NAACP e o Projeto Inocência, que trabalha para libertar os condenados injustamente. Na entrada de seu negócio, eles tinham um novo mural pintado ao lado de um panda rugindo, em que retrata os punhos erguidos separados por um biscoito da sorte. Sua explosão de ativismo é emblemática de novos esforços para quebrar barreiras que há muito dividem residentes negros e asiáticos de Oakland. “Em entrevistas, os líderes locais descreveram como a combinação da pandemia e do movimento Black Lives Matter está mudando as relações entre os dois grupos”.

No The Brooklyn Rail, Charlie Post ativista político socialista, professor na University of New York afirma: “A revolta deflagrada pelo assassinato policial de Georg Floyd em Minneapolis colocou novamente a questão racial no centro da política nos Estados Unidos. Enquanto a direita nega firmemente a existência de racismo, e defende uma maior repressão contra aqueles que protestam contra a violência policial, a esquerda – tanto a liberal, quanto a socialista – está lutando para enfrentar a rebelião. Para os liberais, o problema é simplesmente uma “falta de diversidade” que a polícia, a classe média, a América corporativa e o sistema político não “refletem” a população como um todo. Os liberais esperam descarrilar essas lutas como fizeram nas décadas de 1960 e 1970, promovendo uma nova classe média de cor, sem enfrentar a crescente pobreza e insegurança dos trabalhadores de cor. Arad Haider argumentou que os neoliberais transformaram a “política de identidade” de um ataque ao racismo, sexismo e capitalismo em uma demanda para diversificar a elite política e econômica sem interferir nas enormes desigualdades de riqueza e renda”.

A libertação do policial Derek Chauvin, ex policial de Minneapolis acusado de assassinar de George Floyd ocorreu após pagar uma fiança de US$ 1 milhão de dólares (R$ 5,6 milhões), deixando a instalação correcional de segurança máxima de Oak Park Heigths, no estado de Minnesota. Uma fiança milionária às vésperas das eleições reacende a luz de um sistema segregacionista que pune afro-americanos com dureza inaudita e flexibiliza para os delitos de brancos e policiais brancos. É o ódio que o ódio gerou! 

Segundo Malik Miah no Blog Green Left, em 13/10/2020, “À esquerda, o apoio a Biden inclui alguns que acreditam que ele é um candidato ‘um pouco melhor’. “Mas a maioria dos que entendem que o racismo sistêmico está enraizado no capitalismo apoia Biden como for de ‘mal menor’ de reverter os ataques de Trump à democracia”. Essa abordagem é chamada de “mal menor”. Trump é tão ruim que alguns o chamam de “neofascista”. A esquerda socialista portanto, deve estar com as forças anti-Trump, mesmo que isso signifique eleger um político capitalista que continuará a apoiar a polícia e o estado contra eles. O erro é juntar-se aos liberais que se organizam contra Trump, mobilizando o voto para os democratas. O “mal menor” nunca trouxe mudanças significativas ou mudanças fundamentais. 

Não há partido socialista de massa ou movimento político nos Estados Unidos no momento. O levante de massa mais significativo é o movimento anti-policial liderado pelo Black Lives Matter. Embora a maioria desses militantes votem em Biden, em vez de candidatos de terceiros em seus estados, eles reconhecem que quem quer que vença não mudará a violência policial e o assassinato de negros e negras desarmados.

O terror policial foi uma característica proeminente durante a presidência de Barack Obama-Biden. Obama demonstrou empatia com as vítimas negras, no entanto, não propunha mudanças sérias no sistema jurídico.       

Para Malik Miah, “não será possível derrotar o Trampismo e o sistema de justiça criminal injusto elegendo funcionários liberais e mantendo um sistema legal que justifique a morte de negros pela polícia”.

Malcolm X certa vez explicou a diferença entre conservadores brancos e liberais. “Cuidado com os dois: Os conservadores brancos também não são amigos do negro, mas pelo menos não tentam disfarçar. Eles são como lobos; eles mostram os dentes e um rosnado que mantém o negro sempre ciente de onde está com eles. Mas os brancos liberais são raposas, que também mostram os dentes aos negros, mas fingem que estão sorrindo. Os liberais brancos são mais perigosos do que os conservadores; eles atraem o negro, e enquanto o negro foge do lobo rosnando, ele foge para as mandíbulas abertas da raposa sorridente”.  “Um é um lobo, o outro é uma raposa. Não importa o que aconteça, os dois vão comer você”.

Referências bibliográficas

The Brooklyn Rail – “Além do capitalismo Racial” – Charlie Post

Rampan Revolutionary Politics – Chigago Style – Licença para pilhar – 29 de setembro de 2020

The New York Times – Em Oakland, quebrando barreiras com biscoitos – Por Shuang Li – 30 de setembro de 2020.

Spectre – Identidade do Sul Asiático sem fixação – além da Política de Aliança – JS Titus -28 de setembro de 2020

Declaração de 9 de junho do Burô da IV Internacional

Libertação Negra e Socialismo – Ahmed Shawki

Capital e Ideologia – Thomas Pikety


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.