Retorno presencial, professor vacinado! Isso não é “furar fila”, Andes!
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Retorno presencial, professor vacinado! Isso não é “furar fila”, Andes!

Os profissionais da educação querem apenas manter sua vida intacta!

Felipe Duque 28 jan 2021, 19:22

Nas últimas semanas, a burguesia no Brasil iniciou uma forte campanha pelo retorno presencial das aulas. O discurso cômodo é que o país é um dos poucos do planeta onde não teve esse retorno, além, do reforço de uma frente de pediatras no Brasil1 que argumentam que as crianças estão “estressadas”.

Logicamente, é desejo dos profissionais da educação o retorno presencial às escolas, afinal, a carga horária do trabalho remoto é maior2, assim como o adoecimento3. Porém, em um país onde ocorreu mais de 210 mil mortes por Covid, é fomentar a continuidade de um genocídio sem precedentes na história. Alguns casos como o caos de Manaus4 e outros países como França5, Portugal6, Inglaterra7, dentre outros, só evidenciaram o quanto a reabertura se tornou algo equivocado.

A começar pela realidade das escolas no Brasil, onde quase metade não tem rede de esgoto8, nos dá um alerta que ao se utilizar de parâmetros protocolares de proteção tendo como base os países de centro do capitalismo, beira a desonestidade. Em contrapartida, há uma forte pressão midiática por esse retorno, em conluio com empresários da educação, donos de redes particulares e parte de pais pertencentes a classe média, exaustos de terem que lidar com suas crias em casa.

Essa movimentação tem intensificado as investidas da burguesia contra uma categoria desgastada e cansada de um 2020 instável. O Decreto 47.052/21 no Rio de Janeiro incluiu a educação da rede estadual (equivocadamente, a exemplo de outras atividades econômicas) como essencial. Essa caracterização impulsiona os 92 municípios do RJ a abrirem compulsoriamente as escolas estaduais e pressionam as redes municipais locais a fazerem o mesmo.

Em contrapartida, desde janeiro iniciou-se a vacinação no Brasil (apesar dos obstáculos promovidos pelo governo federal), onde se optou por uma segmentação a partir de prioridades em quatro fases, enquadrando os profissionais da educação na última. Em suma, a burguesia defende o retorno presencial e pouco se importa com a saúde dos profissionais da educação, mesmo que isso afete suas vidas, conforme vimos em exemplos no Brasil e em outros países que abriram escolas.

Se tratando de uma pressão que acentua dessa burguesia e um excesso de corporativismo dos profissionais da saúde na fase 1, que incluem fisioterapeutas, psicólogos, dentre outros, além da estrutura arcaica da forma de se lidar com o patrimônio brasileiro e que se constam falta de transparência como o caso das filhas de empresários em Manaus nomeadas às pressas para se vacinar9, dentre outros10 casos, cabe aos profissionais da educação serem contemplados nessa fase 1, conforme o Projeto de Lei 5.630/2011 dos parlamentares do PSOL que os insere como prioridade na educação.

Nesse sentido, se torna extremamente errônea a postura da presidente do Sindicato Nacional dos Docentes das Instituições do Ensino Superior (ANDES) que enquadra essa reivindicação dos profissionais da educação como “fura-fila” na imunização. De antemão, é importante destacar que a autonomia universitária permite uma decisão própria em universidades e institutos, podendo alongar o ensino remoto, diferente do ensino de base, onde há forte pressão da burguesia pelo retorno presencial e de diversos empresários. A “greve pela vida” estabelecida em muitas redes tem sido questionada nas mídias corporativistas burguesas que recorrem de forma grosseira e oportunista do porquê ter “dois anos seguidos sem aulas” e uma conivente preocupação com os estudantes. Isso afasta qualquer discurso do ANDES junto aos profissionais da educação de base.

Estamos a falar de uma Educação Básica que conta com 4,5 milhões de trabalhadores, na ampla maioria de mulheres e que, em grande parte, em prefeituras que se encontram com condições de trabalho precário, sem concurso e planos de carreira, onde serão obrigados a retornar o trabalho presencial correndo risco de morte.

Em suma, os profissionais da educação não querem “furar fila”, querem apenas manter sua vida intacta!

1 https://www1.folha.uol.com.br/equilibrioesaude/2020/11/mais-de-400-pediatras-assinam-carta-de-apoio-ao-retorno-das-aulas-presenciais.shtml

2 https://g1.globo.com/mg/sul-de-minas/noticia/2020/06/08/professores-relatam-mais-trabalho-em-nova-rotina-de-ensino-pela-internet-durante-pandemia.ghtml

3 https://coronavirus.atarde.com.br/pandemia-professores-estao-suscetiveis-ao-adoecimento-em-massa-alerta-psicologa-do-trabalho/

4 https://noticias.uol.com.br/ultimas-noticias/agencia-estado/2020/09/02/amazonas-registra-342-professores-com-covid-19.htm

5 https://www.jornaldocomercio.com/_conteudo/internacional/2020/05/739452-uma-semana-apos-reabrir-escolas-franca-fecha-70-por-causa-de-coronavirus.html

6 https://oglobo.globo.com/mundo/portugal-fecha-escolas-universidades-apos-recordes-consecutivos-de-mortes-por-covid-19-24848724

7 https://www.cpp.org.br/informacao/noticias/item/16219-escolas-voltam-a-fechar-na-inglaterra

8 https://oglobo.globo.com/sociedade/metade-dos-colegios-brasileiros-nao-tem-rede-de-esgoto-23541918

9 https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/20/coronavirus-gabrielle-isabelle-lins-manaus-amazonas-vacina.htm

10 https://noticias.uol.com.br/saude/ultimas-noticias/redacao/2021/01/25/mp-vai-investigar-denuncias-de-fura-fila-na-vacinacao-no-rj-diz-promotora.htm

11 https://www.camara.leg.br/noticias/722439-projeto-estabelece-diretrizes-para-o-plano-nacional-de-vacinacao-contra-a-covid-19/?fbclid=IwAR3BYi1SxW_b3ipdfX3oCkoGwM_zR167W8XMgifrJ8w8z2uvoES_mVImpnA


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
“Enquanto os efeitos sanitários e econômicos da Covid-19 seguem fazendo-se sentir, escancarando a crise global do capitalismo, as lutas na América Latina começam a apresentar importantes conquistas no enfrentamento da extrema-direita continental. Na Bolívia, após meses de enfrentamentos e mobilização popular, a contundente vitória da chapa do MAS pôs fim ao governo ilegítimo e reacionário de Jeanine Áñez. No Chile, após as multitudinárias manifestações de 2019, o plebiscito levou a uma vitória esmagadora em favor de uma nova constituição elaborada por assembleia exclusiva. Na campanha eleitoral estadunidense em curso, está em jogo a possibilidade de derrotar o trumpismo, que anima movimentos neofascistas e racistas naquele país e em todo o mundo. Ao mesmo tempo, as eleições municipais brasileiras abrem a possibilidade de construir uma alternativa nas cidades que contribua para isolar e derrotar o bolsonarismo. A décima oitava edição da Revista Movimento debruça-se sobre esses processos de mobilização nas ruas e de enfrentamento eleitoral em curso”.