Panorama da vida e da obra de Rosa Luxemburgo

Aula no curso “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação” da Escola Marx em 20 de março de 2021.

Luciana Genro 10 maio 2021, 15:28

Franz Mehring definiu Rosa Luxemburgo como o melhor cérebro depois de Marx. Lukács escreveu na introdução de um dos seus principais livros, História e Consciência de Classe, que Rosa Luxemburgo era única discípula de Marx a prolongar realmente a sua obra, tanto no plano dos fatos econômicos, quanto no plano do método. No plano do método, isso significa que ela sempre se situou do ponto de vista da totalidade, que e é o que distingue o marxismo da ciência burguesa. A categoria da totalidade no sentido de que a dominação determinante em todos os domínios é do todo sobre as partes. Essa é uma definição de Michael Löwy, de um livro dele muito interessante[1]. É a essência do método de Marx que a gente encontra na Rosa Luxemburgo: a dominação determinante, e em todos os domínios, do todo sobre as partes.

Essa consideração de todos os fenômenos parciais como elementos do todo no processo dialético que é apreendido como unidade do pensamento e da história, e é com esse espírito, de buscar a totalidade, que a gente montou esse curso, tentando olhar o conjunto da obra da Rosa, o conjunto do seu pensamento e não só olhar para os seus textos isoladamente. Aqui, vou tentar contar um pouco sobre a vida da Rosa, passear um pouco sobre as obras principais dela e as experiências que ela viveu enquanto militante, tanto na Rússia, na Polônia e principalmente na Revolução Alemã, que é um episódio da história bastante desconhecido, pelo menos para a maior parte dos militantes.

Vamos começar falando um pouquinho dessa mulher. Vocês imaginem uma mulher de 26 anos, solteira (na verdade ela fez um casamento de fachada para poder conseguir cidadania alemã), ela tinha uma deficiência no quadril – então ela era manca – e ela era judia-polonesa, chegando na Alemanha para militar no partido que havia sido fundado por Marx, por  Engels, e cujos herdeiros diretos ainda estavam no comando do partido, ainda eram vivos. Essa mulher é a Rosa. Rosalia Luxemburg era o nome dela, se apresentando para August Bebel, Franz Mehring, Karl Kautsky, os papas da social democracia alemã.

Ela logo se destacou pela sua oratória, que era muito envolvente e sua extrema capacidade política, mas é óbvio que não foi tão fácil para ela chegar à Alemanha nessas circunstâncias.  Paul Frölich, um dos biógrafos dela, e que viveu a época junto com a Rosa, foi companheiro de luta dela, relata que havia obviamente resistência, “sobretudo a mulher que ousava se intrometer no oficio de homens, a política. E ao fazer isso, ela não perguntava modestamente a opinião dos práticos mas desenvolvia com atrevimento pontos de vistas próprios e o que era mais grave, expunha argumentos que obrigavam os seus interlocutores a capitular resmungando[2].”

De onde veio essa mulher? A Rosa veio da Polônia que era um território dominado pela Rússia Czarista, era uma ditadura sangrenta e ainda mais dura sobre os poloneses e sobre os Judeus. Vocês imaginem que na escola, dentro da Polônia, era proibido falar polonês.  E os judeus eram fortemente discriminados. A Rosa, portanto, fazia parte de um grupo muito discriminado. Já no ginásio então ela se engaja na militância política, sensibilizada por essa desigualdade, por essa injustiça que ela via no seu país, que ela vivenciava. Keith Evans[3], em sua biografia em quadrinhos, ilustra esse momento da vida da Rosa na Polônia e que pode ser resumido em um trecho de um poema que ela escreveu na escola: “Quero carregar a consciência dos ricos com todo o sofrimento e as lágrimas ocultas e amargas”.

Aos 16 anos ela vai embora da Polônia para estudar, porque lá as mulheres não podiam estudar depois do ginásio e ela também já estava visada pela polícia por seu envolvimento na militância política e sob o risco de ser presa. Então ela vai para Zurique, na Suíça, que era um ponto de encontro dos refugiados políticos da Polônia e da Rússia.

Menos de dois anos depois da sua ida para Zurique, ela já era reconhecida como líder teórica do Partido Socialista Revolucionário da Polônia, que depois vai se chamar  Partido Social Democrata do Reino da Polônia e da Lituânia. Ela vai ser a principal colaboradora do jornal do partido que era publicado em Paris, inclusive vai para lá durante um período, e continuou sendo a líder teórica e uma das principais dirigentes desse partido até o fim da sua vida.

Lá em Zurique ela vai conhecer o Leo Jogiches, que vai ser o seu camarada de armas pela vida toda e também vai ser o seu amante por vários anos.  A gente conhece muito da Rosa pelas cartas que os dois trocaram, ele tem uma grande importância  vida dela.

Leo foi fundador do movimento dos trabalhadores de Vilna, na Lituânia, que também era um território da Rússia na época. Inclusive tem uma história interessante que o irmão do Lenin, que foi enforcado em 1881 por ser membro do Narodnaya Volya, grupo de métodos terroristas que havia na Rússia naquela época, tinha ligação a partir de Petersburgo com os círculos estudantis nos quais Jogiches militava na Lituânia.

Eles eram um casal um tanto diferente. A Rosa era uma pessoa alegre e apaixonada pela vida, o Leo era uma pessoa de extremo rigor e disciplina. Ele era de uma família rica, colocava todo o dinheiro da família a serviço da causa. Era aquele tipo de revolucionário que dormia no chão para se acostumar com a eventualidade de ser preso.

E numa carta para ele, a Rosa chegou a dizer que precisava domá-lo, lixar a ponta dos seus chifres caso o contrário não poderia continuar com ele, porque ele era mal humorado e irritadiço, e que ele precisava ser gentil e tratar bem as pessoas. Imaginem que não devia ser uma relação muito fácil a dele com a Rosa.

Mas a Clara Zetkin, que era uma das melhores amiga da Rosa e também dirigente do SPD, fez um elogio muito interessante ao Leo, dizendo que ele foi “uma dessas personalidades masculinas ainda hoje tão raras, que conseguem conviver em camaradagem fiel e gratificante com uma grande personalidade feminina, sem ver o crescimento e o vir- a- ser dela, como entraves ao seu próprio eu”[4].

Essa camaradagem não diminuiu mesmo depois que os sentimentos recíprocos amorosos arrefeceram. Aliás, dizer que os sentimentos arrefeceram é o certo eufemismo, pois a ruptura não foi muito tranquila. Mas a Rosa achava, ela disse numa carta, “(…) que o caráter de uma mulher não se mostra quando o amor chega, mas quando termina”[5]. Então, quem se comportou mal na ruptura foi o Leo.

Estranho quando falamos dessas coisas pessoais porque, quando a gente fala de uma mulher a gente conta essas coisas pessoais, dos homens a gente pouco sabe. Por exemplo, sobre o Lenin, poucos sabem que ele tinha uma amante. Além da Nadja que era sua esposa, havia uma amante, Inês Armand, revolucionária francesa casada com outro homem. Mas pouco se fala dos amores dos homens.

Bem, quando a Rosa chega à Alemanha, o país gozava de uma prosperidade bastante significativa, desde o fim da última crise que havia sido em 1873.  O padrão de vida dos trabalhadores havia melhorado ininterruptamente, embora não de forma rápida, mas lentamente e de forma contínua. Os sindicatos e as cooperativas eram muito fortes nessa época. O Partido da Social Democracia Alemã (SPD) era o maior partido de esquerda do mundo.

Como surgiu esse partido? Foi o resultado da fusão de dois grupos: o Lassalista e o Marxista. A AGT que era do Ferdinand Lassale e a UATA, de August Bebel e Wihelm Liebknecht, pai do Karl que conheceremos mais adiante.

A unidade foi feita com programa reformista, inclusive Marx escreve o famoso texto, Critica ao programa de Gotha, que é a cidade onde ocorreu o congresso.

Esse partido surgiu uma década e meia depois da revolução de 1848 que tentou derrubar a monarquia mas foi derrotada. Um partido sem experiência revolucionária. Toda sua atividade era direcionada para a conquista das reformas burguesas que haviam sido abandonadas pela oposição burguesa. A Alemanha era um estado semiabsolutista que tinha apenas formas democráticas superficiais, e perseguia o movimento dos trabalhadores com medidas policiais brutais.

Em 1891 um novo congresso do partido, em Erfurt, votou um novo programa de compromisso entre os revolucionários e reformistas, e nesse congresso o marxismo tornou- se a doutrina oficial do partido. Mas, mesmo se tornando a doutrina oficial do partido, persiste a contradição entre o objetivo final revolucionário e as reivindicações imediatas, o programa mínimo e o programa máximo.

 É uma dicotomia entre reformistas e revolucionários que vai acompanhar a teoria e a prática da social democracia desde o seu início e que vai marcar toda a história do SPD alemão, e vai marcar também toda a vida da Rosa Luxemburgo. A vida dela é toda cruzada por seu empenho nessa disputa, no combate ao oportunismo, ao parlamentarismo e a reformismo. Uma luta que ela travou para reforçar a ala revolucionária dentro da social democracia alemã e que durante muitos anos ocorreu em aliança com Kautsky. Ele é um personagem importante dentro do SPD, e depois eles rompem essa aliança, lá em 1910, que trataremos mais adiante.

Na sua chegada à Alemanha ela mergulha nesse debate do partido, a partir da teorização do Eduard Bernstein, que foi o homem que teorizou pela primeira vez no SPD, a ideia de abandonar a estratégia revolucionária para se concentrar exclusivamente em reformar o capitalismo pela via eleitoral.

Então a Rosa escreve para responder ao Bernstein, o texto Reforma ou Revolução, que é um dos textos mais importantes que ela escreveu, uma das contribuições mais importantes da Rosa para a teoria revolucionária. Essa dialética entre reforma e revolução é brilhantemente explicada pela Rosa nesse livro, porque ela demonstra que as reformas substancialmente favoráveis ao povo, são arrancadas a partir de processos revolucionários e não manobras parlamentares, e ela vai mostrar também que o socialismo é uma necessidade histórica, pelas contradições internas do capitalismo que vão levar à barbárie.

Esse conceito de barbárie ainda não aparece nesse texto, mas ela fala do colapso, e depois ela vai elaborar de forma mais clara essa disjuntiva entre socialismo ou barbárie. Muitos analistas falam da Rosa como uma fatalista e determinista por causa desse texto. Por isso precisamos olhar esse texto inserido na totalidade de sua obra, como apontado no começo.

Esse texto alça a Rosa a umas das principais figuras do SPD alemão. Nessa época, a esquerda do partido ainda era uma amálgama, uma junção entre o que depois veio a ser o centro e os chamados radicais, simplificando, entre o Kautsky e a Rosa. Ele como o centro do partido e a Rosa apontada como a radical.

Então nessa época a esquerda estava unida contra o Bernstein que era a ala direita do partido. Rosa tem apoio do Kautsky e eles são vitoriosos no debate. Mas a derrota do Bernstein é formal, pois a ação política do SPD seguia em direção ao reformismo, e a Rosa está consciente disso, e está disposta disputar os rumos do partido.

Um partido enorme que de fato valia muito a pena disputar. O Pierre Broué descreve assim a força da social democracia alemã:

“Considerada como um mundo, ou uma contrassociedade, a social-democracia alemã, com suas tradições, práticas, e cerimônias, às vezes semelhantes a corpos religiosos, oferecia não só uma atitude política ou um modo de pensamento, mas um modelo, uma forma de viver e sentir. Isso explica por que tendências tão largamente divergentes, como aquelas personificadas por Bernstein e Rosa podiam coexistir na mesma organização.”[6]

A Rosa então ganha esse prestígio ali dentro e passa a escrever sobre política internacional para a imprensa do partido. Era uma época de colonialismo, uma época de guerras, de ataques de países sobre suas colônias e ela ganha fama com os seus belos e incendiários textos.

A imprensa burguesa já tem a Rosa em seu radar e o Frölich cita um jornal burguês de direita que comenta “o povo alemão não compreende por que não se dá um fim ao comportamento impertinente dessa mulher”.

Logo depois em 1889, acontece um debate muito interessante na França. O partido social democrata através do Millerand, entra num governo de coalizão com a burguesia, e a Rosa acompanha de perto essa situação, publica uma série de artigos muito interessantes, brilhantes, que tratam da situação do movimento operário francês em geral e da questão dos governos de coalizão em particular.

Isso pode ser visto no texto Uma Questão de Tática:

“A entrada de Millerand no gabinete de Waldeck-Rousseau merece estudo do ponto de vista de táticas e princípios por socialistas estrangeiros e franceses. A participação ativa dos socialistas em um governo burguês é, em qualquer caso, um fenômeno que vai além do quadro da atividade usual do socialismo. Trata-se de uma forma de atividade tão justificada e oportuna para o proletariado como, por exemplo, a atividade parlamentar ou de uma câmara municipal, ou, pelo contrário, uma ruptura com os princípios e as tácticas do socialismo? Ou ainda, a participação dos socialistas em um governo burguês é apenas um caso excepcional, admissível e necessário em certas circunstâncias, e a ser condenado e mesmo prejudicial em outras?”[7].

Nessa altura, anos de 1905, Rosa está em disputas com a direção do partido, que era extremamente centralizado e cada vez mais burocratizado e dominado pelo aparato parlamentar e de funcionários pagos, e então escreve Questões de organização da socialdemocracia russa, polemizando com o texto de Lenin, Um passo a frente, dois passos atrás.

Nesse momento o Lenin está em luta com os reformistas russos, que ficariam conhecidos como Mencheviques, e ele quer moldar o partido para enfrentar o Czarismo como uma arma resistente e centralizada. A Rússia era uma ditadura Czarista, os sociais democratas russos em grande parte, estavam no exílio, muitos na Suíça, e eles tentavam construir o partido assim, quase que de fora do país para dentro.

A Rosa, por outro lado, está na Alemanha, um país economicamente mais desenvolvido, com formas democráticas mais desenvolvidas, tanto é que o partido dela tinha deputados, tinha ação parlamentar, e ela está se digladiando com a direção do seu partido, devido ao seu centralismo burocrático que mencionei antes.

Cada um em uma posição completamente diferente, em conjunturas completamente diferentes. Interessante dizer que o Lenin respondeu às críticas da Rosa feitas neste texto, com um artigo que ele escreveu para a revista da social democracia alemã, e que não foi publicado. E nesse texto o Lenin dizia que não defendia o que a Rosa dizia ser a posição dele, e que ela teria ignorado o congresso do partido (da social democracia russa), e os fatos da luta interna.

Frölich diz que a Rosa sempre foi defensora do centralismo, mas ressalta que a controvérsia expôs diferentes características entre essas duas personalidades de liderança. Para Frölich, Rosa subestimava o poder da organização, principalmente quando a direção estava sob poder dos seus oponentes, caso do partido alemão. Para ela, o elemento decisivo era a massa, porque era a massa que permitia que o partido fosse além daquilo que a sua direção queria.

Já para o Lenin, o elemento central era o partido, que ele queria moldar enquanto um partido de ação para fazer com que a massa tivesse uma direção e pudesse então fazer a revolução na Rússia. A diferença entre os dois era clara: ela já tinha um partido e enfrentava sua direção burocrática e reformista, e ele tentava pôr de pé um partido revolucionário e ser a sua direção.

Em 1905, aconteceu uma revolução na Rússia, que ficou conhecida depois como “ensaio geral”. E quando falamos Rússia falamos também da Polônia, que era parte desse império russo. Então Rosa vai escrever uma série de artigos e panfletos para o partido polonês, nos quais ela desenvolveu a ideia de que a revolução se desenvolveria além do estágio da democracia burguesa, porque sua liderança cabia ao proletariado e este não ia se deter nas tarefas democráticas burguesas, e iria querer ir além, por exemplo, ia querer conquistar as oito horas de trabalho. Portanto a revolução ou iria terminar no poder dos trabalhadores, ou na derrota completa.

Rosa defendia a fórmula da ditadura revolucionária do proletariado apoiada no campesinato, uma sutil diferença com o Lenin que defendia uma ditadura democrático revolucionária do proletariado e do campesinato.

O Broué conta que a revolução de 1905 na Rússia caiu como um raio na cabeça da social-democracia alemã. Porque foi feita a partir de greves de massas, conselho de operários, tudo muito radical para esse modelo parlamentarista que vinha sendo implementado no partido alemão. Então, os dirigentes do SPD não gostaram nada desse debate que a Rosa vai trazer para dentro do partido alemão a respeito da greve de massas. Ela vai comprar essa briga no congresso do partido, mostrando a experiência que estava se desenvolvendo na revolução russa. E nesse congresso a decisão do partido foi reafirmar o parlamentarismo e submeter a greve de massas aos interesses eleitorais do partido. Vejam só, como os rumos do SPD estavam indo claramente para o reformismo, o oportunismo parlamentar.

Em final de 1905, em dezembro, que ela consegue chegar a Varsóvia. Ela ficou doente, teve uma série de dificuldades, mas ela chega de carona num trem militar – olha que arriscado – consegue chegar à cidade e o Leo Jogiches está lá também. Todo esse período eles são um casal, embora à distância, por isso tem tantas cartas dela para ele, dele para ela.

Varsóvia está em estado de guerra quando ela chega lá, os trabalhadores ainda estavam em greve geral, mas ela vai terminar sem vitória e a insurreição em Moscou já foi sufocada. Ambos, tanto ela quanto Leo, acabam sendo presos em março de 1906.  Rosa fica presa por quatro meses e o partido alemão paga a fiança dela. Ela depois fica meio brava com isso, ela não gosta disso, mas eles, à revelia dela pagam a fiança, até porque ela tinha nacionalidade alemã por causa daquele casamento de fachada. O Leo não, ele é condenado, mas depois foge.

E, quando ela volta de Varsóvia para Alemanha, ela encontra o filho da Clara Zetkin, tomando conta do seu apartamento, e ela acaba tendo um romance com ele por dois anos. É por causa dele que o Leo vai ter um ataque de ciúmes, que o Paul Frölich conta. É o jovem Kostja Zetkin, É nesse momento que a Rosa rompe com o Leo, quando tem esse relacionamento com o Kostja Zetkin.

Ela vai escrever então Greve de massas, partido e sindicato. E tem dois alvos com esse texto. Um dos alvos é o debate com um partido da Polônia, que era o principal adversário do partido dela, e se chamava Partido Socialista da Polônia. Era um partido que defendia métodos revolucionários Blanquistas. August Blanc era um revolucionário francês  que defendia métodos terroristas de ação política e a violência individual. Então, ela está polemizando com o PSP nesse texto, ressaltando a importância das massas nessa revolução. Ela não aceita a ideia do partido como um pequeno grupo que comanda tudo. Inclusive, muitos entendem que esse debate que ela está fazendo é com os Bolcheviques, mas na verdade neste texto ela está essencialmente debatendo com o PSP polonês, sobre o Blanquismo e terrorismo.

Daí que vem a caricatura dela como espontaneísta, porque na verdade ela falava das massas em oposição a essa ideia de um partido, de uma minoria, que decide fazer uma ação revolucionária sem ter de fato inserção de massas. Essa é a discussão que ela faz quando ela fala tanto da importância do papel das massas.

O outro alvo do debate dela é que a revolução de 1905 também tem consequências importantes na Alemanha, e a Rosa quer incidir no partido com a política de greve de massas. Este método de luta se demonstrou na revolução de 1905 como uma nova e poderosa arma da classe trabalhadora, só que o SPD não quer nem ouvir falar de greve de massas. E essa política em defesa da greve de massas como um instrumento fundamental da luta política vai acabar levando a uma ruptura mais clara da Rosa com a direção do partido social democrata. Porque eles só estavam interessados na ação parlamentar. Interessante dizer que os sindicatos também, eles eram a ala mais avançada do reformismo. A Rosa era muito mal falada pelos burocratas do movimento sindical.

As transformações na Alemanha e a relativa paz social que havia na Europa, que só foi interrompida pela revolução de 1905 na Rússia, e também avanços na legislação que foram conquistadas pela social democracia e pelos sindicatos, junto com perspectivas de avanço social, sucesso individual que as organizações dos trabalhadores ofereciam para os membros mais capazes da classe, que se envolviam com o sindicalismo, tudo isso nutria as tendências revisionistas e oportunistas, tanto dentro do partido como nos sindicatos.

Havia um estrato privilegiado da classe trabalhadora e esse estrato era a principal fonte do oportunismo, uma aristocracia operária que tinha mais do que perder além de suas correntes, que é o que Marx diz no Manifesto Comunista, “que a classe operária não tem mais o que perder além de suas correntes”, pois a aristocracia operária tinha mais o que perder.

Em 1907 Rosa vai dar aula de economia na escola da social democracia alemã, inclusive Friedrich Ebert, o dirigente que vai se transformar depois em chanceler da Alemanha, é aluno da Rosa na escola. Segundo ela, um péssimo aluno. Dessas aulas é que vai surgir o livro de economia da Rosa, que depois vai ser publicado em 1913, Acumulação do Capital e também um outro livro que é quase que um roteiro das aulas dela, um livro mais didático e bastante interessante (Introdução à economia política).

É interessante que a elaboração econômica da Rosa é muito visionária, porque nessa época ainda faltam cinquenta anos para que a palavra globalização seja inventada, mas a Rosa já intui essa lógica do capitalismo. Ela escreve na Acumulação “o capitalismo tende a engolir todo o globo e extinguir todas as demais economias, pois não tolera nenhum rival a seu lado, no entanto é incapaz de subsistir sozinho”. É muito visionário esse trabalho.

Tony Cliff, na biografia que escreveu sobre a Rosa, afirma:

“É seu trabalho teórico mais importante, uma contribuição para a explicação econômica do imperialismo. Esta é, sem dúvida, uma das contribuições mais originais à doutrina econômica marxista desde o Capital. O problema central que estuda é de tremenda importância teórica e política: quais são os efeitos da extensão do capitalismo em novos territórios atrasados nas contradições internas que dilaceram o capitalismo e na estabilidade do sistema”.[8]

Esse livro foi bastante atacado porque ela busca rever alguns cálculos que o Marx faz e aí os seus críticos se apegam nessa questão para desmerecer o livro, mas hoje já se sabe que esse livro trouxe elaborações muito importantes.

Voltando para a política, a tensão entre Rosa e a direção do partido se acirra em 1910 quando há uma onda de greves por sufrágio universal e Rosa defende a greve de massas como uma política necessária a ser construída pelo partido. Ela participa de comícios defendendo essa politica. E um artigo seu, que defende a greve de massas pela república, é interditado pela imprensa do partido, e aí então que ela rompe com Kautsky. Ele defende só a luta parlamentar. Há grandes ações de massas pelo sufrágio em toda a Alemanha, mas o partido não quer defender essa política e Rosa acusa o partido de frear essas ações de massa, ficando isolada dentro do partido, agitando nas bases, e o jornal fica interditado para ela e ela acaba rompendo com o Kautsky.

O Lenin não vai apoiar a ruptura da Rosa com o Kautsky, ele acha que a Rosa está exagerando e o Trotsky também. Tem um biógrafo da Rosa chamado Nettl, que fala de uma carta escrita pelo Trotsky para o Kautsky nessa época, onde ele atribui as posições da Rosa à sua “nobre impaciência”. Nem Trotsky, nem Lenin compreendem a ruptura da Rosa com o Kautsky, porque eles tinham ainda muita confiança nele. Lenin o via  como mestre.

A partir desse momento então, o partido não vai ser mais dividido em duas alas, vai ser dividido em três: os reformistas adotando claramente uma política imperialista; o chamado centro marxista que é liderado pelo Kautsky, e a Rosa vai apelidar de ele de líder do pântano, que mantém um certo radicalismo verbal, mas se confina cada vez mais aos métodos parlamentares de luta; e a ala revolucionária da qual a Rosa é a principal líder.

Em 1913 a guerra mundial já se desenhava no horizonte e a Rosa participa de grandes agitações antimilitaristas, o que faz com que ela ganhe mais popularidade nessa agitação antiguerra, e ela acaba sendo processada pelo próprio ministro da guerra, ganha um ódio tremendo dos militares. Isso depois vai ser importante também na morte dela. A base da acusação que ela recebeu, foi um discurso que ela declarou: “Se eles esperam que assassinemos nossos irmãos franceses ou outros estrangeiros, então vamos dizer a eles. Não! Em nenhuma circunstância!”.

No tribunal ela transforma o processo numa luta política, passa de ré a promotora, com seu discurso de defesa que vai ser mais tarde publicado com o título Militarismo, guerra e a classe trabalhadora, e é uma das mais fortes condenações socialistas, revolucionárias do imperialismo e da guerra. Ela vai ser condenada a um ano de prisão, mas o cumprimento da pena é adiado e inclusive ao sair do tribunal ela imediatamente vai para uma reunião de massas no qual ela repete a sua propaganda revolucionária contra a guerra.

O advogado dela nesse processo é Paul Levi, que também é um dirigente do partido, também vai ter um namoro com ela, e ele vai ter um grande papel no futuro, pois é ele, depois da morte da Rosa, que vai publicar o texto sobre a revolução russa. Ele acaba saindo do partido depois da morte da Rosa.

Broué relata que, em 1914, o SPD tinha mais de um milhão de membros, dirigia os grandes sindicatos operários, tinha associações politicas, culturais, esportivas, cooperativas de crédito, caixas de poupança para construção de moradias, tinha seu próprio movimento de mulheres, de juventude, livrarias, clubes de leitura, editoras, jornais, revistas, eram publicados noventa jornais diários com 267 jornalistas contratados, o partido tinha 3 mil funcionários e no parlamento nacional tinha 110 deputados, 220 nos parlamentos regionais e 2.286 nos parlamentos locais. Veja o tamanho do partido, a força da social democracia alemã, quando começa a guerra.

A guerra já vinha se desenhando no horizonte, em julho a Áustria declarou guerra à Sérvia, apoiada pela Alemanha, em seguida a Rússia mobilizou também tropas. E aqui tem um episódio interessante que em 29, 30 de Julho, o bureau da II Internacional realiza uma reunião para se posicionar em relação à guerra Austro-Sérvia e ao perigo de uma guerra mundial. E apesar das resoluções anteriores, já há sintomas claros da capitulação ao nacionalismo, especialmente no partido austríaco, pois a Áustria já tinha declarado guerra à Sérvia. Os sintomas do apoio à guerra já estão explícitos.

Frolich relata assim esse epísodio:

“Durante as deliberações do bureau, ela olhara o fundo da alma dos líderes dos partidos. Vira na posição de Victor Adler e da socialdemocracia austriaca o sintoma de uma doença que toma a internacional. Mesmo que ainda não vislubrasse toda a catastrofe, ela reconheceu claramente que em sua maioria os partidos não passariam pela grande prova. Por isso perscrutara a massa de gente no audiório  que ainda olhava para a internacional cheia de esperança e confiança. Ela ainda poderia falar para aquela massa? Poderia dizer-lhe a verdade que vira, destruir sua confiança e gerar panico? Também  lhe era impossiveil contemporizar  com a mentira, fingir confiança, consolidar esperanças nas massas, iludi-la. Foi por isso que calou.”[9]

Quando estourou a primeira guerra mundial, praticamente todos os líderes do SPD foram arrastados para a maré patriótica. Em 3 de agosto de 1914, o grupo parlamentar da social-democracia alemã decidiu votar a favor dos créditos de guerra para o governo do Kaiser. Quinze deputados  manifestaram vontade de votar contra, no entanto, depois de seu pedido de autorização ter sido rejeitado, submeteram-se à disciplina partidária e em 4 de agosto todo o grupo social democrata votou a favor dos créditos.

Poucos meses depois, em 2 de dezembro na renovação dos créditos, o Karl  Liebknecht vai então desrespeitar a disciplina do partido para votar com a sua consciência, e o voto dele foi o único contra os créditos de guerra, na segunda votação.

No mesmo dia daquela primeira votação de 4 de agosto, os deputados da social-democracia se unem então à bandeira do Kaiser em defesa da Alemanha, e um pequeno grupo de socialistas se reúne no apartamento da Rosa e decide lutar contra a política do SPD de apoio à guerra. Esse grupo liderado pela Rosa, tinha o Franz Mehring, a Clara Zetkin, e acabou se transformando na Liga Spartakus, à qual depois Karl Liebknecht  vai se vincular. Com relação à Internacional, à II internacional, o “uni-vos uns aos outros” se tornou o “matai-vos uns aos outros”. Os social-democratas se juntam à guerra, dando a sua benção. O vazio das suas declarações sobre principios, a solidariedade internacional dos trabalhadores, paz e socialismo é exposto.

Olhando do futuro é mais fácil a gente perceber, que o voto no 4 de agosto foi uma consequência lógica da política social-democrata dos anos anteriores. Na época, entretanto, foi um choque. Trotsky conta em Minha Vida que Lenin duvidou por um momento que o exemplar do jornal Vorwarts anunciando o voto a favor dos créditos para a guerra fosse verdadeiro, considerando que os militares alemães poderiam ter  feito uma edição falsificada.

Grandes manifestações nesta época tomam conta da Alemanha, o povo está iludido com a guerra, estão entusiasmados, achando que estão defendendo a Alemanha. Isso se reflete dentro do partido, o SPD fica dividido, os centristas liderados por Kautsky querem fazer uma oposição interna, mas o Karl Liebknecht não aceita a disciplina e vai para cima dessa posição.

Lembra um pouco, guardadas as proporções, a nossa luta lá em 2003 com o governo Lula, quando a gente tinha uma batalha política muito forte contra os rumos que o governo, que o PT vinha tomando, e aí tem a votação da reforma da previdência. Tem um grande número de deputados que é contra a reforma da previdência, mas apenas três deputados e uma senadora, rompem a disciplina partidária e votam contra a reforma da previdência. Essas pessoas foram eu, Heloísa Helena, Babá e o João Fontes, que rompemos a disciplina de bancada para votar contra a reforma da previdência, o que acabou dando origem ao PSOL. Claro que guardada todas as proporções, a história é um pouco parecida.

Em outra votação no parlamento em 1915, o partido (SPD) permitiu a abstenção aos rebeldes, o que me lembrou também uma parte daquele grupo dos deputados que era contra a reforma da previdência, aceita se abster da votação para não ser expulso, porque o PT nos avisou que iria nos expulsar. Então a gente sabia que votando contra a reforma da previdência, iríamos ser expulsos. Então teve um grupo que se abstém para não ser expulso, entre eles inclusive, estavam alguns que depois vieram para o PSOL, como o Ivan Valente, Chico Alencar.

 Em 1915 o partido permite a abstenção aos rebeldes e 22 se abstém, mas já são 20 que votam contra. Eles são expulsos não do partido ainda, eles são expulsos do grupo parlamentar dentro do parlamento alemão. Já começa uma divisão bem clara dentro do SPD.

Rosa vai ser presa por conta daquele processo lá atrás da agitação antimilitarista, de fevereiro de 1915 a fevereiro de 1916. Neste momento, ela vai escrever um texto muito importante chamado A crise da docial-democracia, onde ela usa o pseudônimo “Junius”, o texto  vai ficar conhecido com essa assinatura.

Nesse texto, ela vai formular o conceito “socialismo ou barbárie”. É um texto contra o delírio bélico, um ajuste de contas com a II Internacional pelo apoio à guerra. Mas esse texto também abre um debate com o Lenin. O Lenin vai escrever um texto chamado Acerca da Brochura de Junius porque o Lenin acha que o texto da Rosa é um passo atrás em comparação com o artigo que um outro dirigente chamado Otto Rühle, tinha escrito em 1916, em que ele demonstra clara e abertamente a inevitabilidade da cisão do partido social-democrata da Alemanha. Então, Lenin afirma: “Isso é uma espantosa inconsequência, pois na 12° tese de A Internacional [que é a revista que representava o grupo da Rosa naquele momento] fala-se claramente da necessidade de criar uma nova internacional em consequência da traição e da passagem do terreno da política burguesa imperialista, dos representantes oficiais dos partidos socialistas dos países dirigentes”.

Então aqui vocês vejam, o mesmo Lenin que não apoiou a Rosa quando ela rompeu com o Kautsky, agora está criticando ela porque nesse texto ela não está defendendo a ruptura do partido social-democracia alemã. E o Lenin já está decidido a romper a internacional. Ele vai construir a III Internacional, mas isso vai acontecer um pouco mais a frente.

Agora se abre todo um debate, se deveriam fundar um novo partido ou não na Alemanha. A Rosa e o Leo são decididamente contra romper o partido, mesmo nessas condições. Os bolcheviques defendem a necessidade de uma nova internacional, mas os Spartakistas não querem racha, eles queriam ganhar o partido e não se isolar das massas.

O grande argumento da Rosa e do Leo para não sair do partido é que eles não queriam se isolar das massas. Inclusive em janeiro de 1917 vai haver uma conferência da oposição interna no SPD, essa oposição interna não era somente da Rosa, são 157 delegados, sendo que apenas 35 são Spartakistas. Aí está junto o Kautsky, está o “pântano” como a Rosa chamava. Só que ninguém quer romper o partido.

Mas neste momento explode a revolução de fevereiro na Rússia, o Czar é derrubado. A Rosa está presa, ela só vai sair da prisão em novembro de 1918. O Tony Cliff vai dizer o seguinte sobre esse momento:

“A revolução na Rússia de fevereiro de 1917, foi a realização da política de Rosa Luxemburgo de oposição revolucionária à guerra e luta pela derrubada dos governos imperialistas. Fervorosamente, ela acompanhou os acontecimentos da prisão, estudando de perto, a fim de tirar lições para o futuro. Sem hesitar, ela afirmou que a vitória de fevereiro não era o fim da luta, mas apenas o seu início. Que apenas o poder dos trabalhadores poderia garantir a paz. Da prisão ela emitiu apelo, após apelo aos trabalhadores e soldados alemães para emular seus irmãos russos, derrubar os junkers e os capitalistas, e assim enquanto serviam à revolução russa, ao mesmo tempo se prevenirem de sangrar até a morte sobre as ruínas da barbárie capitalista”[10].

Vejam que a revolução de fevereiro teve um impacto muito importante na Alemanha. Inclusive os líderes dos sindicatos ligados ao SPD estão atuando fortemente para conter os efeitos da revolução de fevereiro nas fábricas da Alemanha, porque a revolução de fevereiro na Rússia mostrava que era possível sim, aproveitar aquele momento de guerra para enfrentar os governos imperialistas e não para capitular a eles como fez a social-democracia alemã.

Em abril de 1917, esse grupo de oposição interna dentro do SPD é expulso. Eles não queriam romper, mas foram expulsos. Tanto os centristas do grupo do Kautsky, como os chamados radicais do grupo da Rosa, são todos expulsos. Forma-se então um novo partido que vai se chamar USPD, que fica conhecido como Independentes. O SPD fica conhecido como Majoritários e o filhote, digamos, o USPD, fica conhecido como  Independentes.

O grupo da Rosa então, vai entrar no USPD, nos Independentes. Eles decidem a entrada de forma a fazer “entrismo”, que significa, eles tinham uma clareza que aquela direção, não era uma direção revolucionária, eles se organizam como um grupo próprio, que vai ser a Liga Spartakus e entram para o USPD, para não se descolar totalmente das massas. E uma parte significativa do que tinham os Majoritários, vai para o partido dos Independentes. Tem um outro grupo chamado Radicais de Bremen (Bremen é uma região da Alemanha), eles não entram, são contra entrar no partido dos Independentes, eles queriam formar um outro partido e então ficam fora.

Na prisão então Rosa vai escrever o texto, A Revolução Russa, mas ela não publica o texto. Ele foi escrito no contexto de uma campanha feroz da burguesia e da social-democracia, contra os bolcheviques. Neste momento já ocorreu a revolução de outubro, já temos os bolcheviques no poder. E obviamente que a social-democracia alemã está totalmente contra os bolcheviques, contra a revolução russa.

Na altura que a Rosa escreve o texto, já está acontecendo a guerra civil, a contrarrevolução, tentativas de boicote, de derrubadas dos bolcheviques. Então os bolcheviques são obrigados a tomar certas medidas para conter a contrarrevolução. A social-democracia alemã e a burguesia, associam o grupo da Rosa aos bolcheviques, dizendo que eles queriam impor  uma ditadura bolchevique  na Alemanha.

Quando estoura a revolução de outubro, a Rosa apoiou os bolcheviques com todo o entusiasmo e os elogia nos mais altos termos, inclusive nesse texto da revolução russa, ela elogia de forma muito clara, apoia totalmente a luta dos bolcheviques. Mas ao mesmo tempo, ela não acreditava que a aceitação acrítica de tudo que os bolcheviques faziam, podia ser útil para o movimento operário alemão. Ela viu claramente também, que se a revolução russa permanecesse isolada, uma série de distorções iriam paralisar o seu desenvolvimento. E, aliás, essa era a posição do Lenin e do Trotsky. A sorte da Rússia dependia da revolução na Alemanha, e é nesse processo que Rosa quer incidir quando ela escreveu esse texto. Mas ela não publica. Ela entrega para o Paul Levi, dizendo que escreveu para convencê-lo daquelas ideias e o texto vai ser publicado somente após sua morte, pelo Paul Levi.

Na Alemanha nessas alturas, temos greves, manifestações que exigem a renúncia do Imperador, se formam conselhos de marinheiros, soldados e operários por toda a Alemanha. Lembrem-se que estamos no meio da guerra, a Alemanha ainda é uma monarquia, comandada pelo imperador, e a Alemanha está sendo derrotada na guerra.

Começa uma articulação interna dentro do exército para a rendição. Só que o exército não quer assumir a responsabilidade pela rendição, então, eles bolam um plano, que depois ficou conhecido como plano “punhalada nas costas”. Esse plano foi elaborado pelo exército alemão para colocar na mão dos partidos a responsabilidade pela rendição da Alemanha.

Eles formam em outubro de 1918, um novo governo encabeçado pelo príncipe Max de Baden, que vai ser um governo de coalizão e o SPD vai entrar no governo. O antigo regime tinha que ser salvo por meio de reformas, criou-se o governo parlamentar liderado pelo príncipe Max, em cujo centro se encontrava Philipp Scheidemann, que era um dos líderes do SPD, um dos Majoritários, com o objetivo de pacificar as massas.

A guerra está se arrastando, e o almirantado acredita na tese de que ainda podiam ganhar a guerra, porque o plano “punhalada nas costas” tinha esse sentido de dizer que os partidos queriam a paz, mas a Alemanha não estava perdendo a guerra. Então esse almirantado, acredita nessa tese de que ainda podia ganhar a guerra e decide apostar todas as suas fichas numa última batalha. Só que os marinheiros não aceitam ir para o abate e revoltam-se. Há uma revolta dos marinheiros e eles são presos por insurreição. E a reação à prisão dos marinheiros é insurreição por toda parte. Conselhos revolucionários de soldados e dos trabalhadores, acabam tomando o controle da cidade de Kiel, e as tropas da infantaria são enviadas, só que as tropas se convertem à causa, porque todo mundo quer a paz, ninguém aguenta mais a guerra.

Sebastian Haffner, em um livro muito bom sobre a história da Revolução Alemã, relata assim esse momento:

“A necessidade era sufocar a revolução – isso significava conceder a ela uma vitória aparente, deixar que ocupasse determinados posições de poder para em seguida captura-la. Dito concretamente, o imperador precisaria abdicar, o governo que era meio social democrata precisaria se tornar completamente social democrata e o chanceler do Reich  precisava se chamar Friedrich Ebert. Assim, a tarefa de Ebert era mandar a revolução aparentemente vitoriosa para casa”[11].

Então, em 9 de novembro, Berlim entra na onda revolucionária e o Kaiser abdica. Haffner novamente descreve o momento:

“Que abdicasse ou não, que fosse para Spa ou para Holanda, desde a manhã do dia 9 de novembro que o operariado de Berlim se colocou em movimento e as tropas se aliaram ao SPD, essas decisões já não tinham mais o poder de influenciar os acontecimentos. Desde essa manhã, o defensor dessa antiga ordem, já não era mais o Imperador, era Ebert. E na tarde desse dia 9 de novembro, diferentemente do que havia acontecido com o príncipe Max de manhã, Ebert já não tinha mais tempo de se preocupar com o Imperador, ele tinha preocupações completamente distintas, porque nessa tarde a revolução ameaçava passar por cima de Ebert”[12].

Ocorrem mobilizações em Hannover, Frankfurt, Munique, e em 9 de novembro as massas saem às ruas em Berlim por  pão, paz e liberdade, a mesma palavra de ordem da Revolução Russa. Aliás, na Rússia, era “pão, paz e terra”. Neste dia, Scheidemann (líder dos majoritários) vai proclamar a república.

Scheidmann faz um relato desse momento nas suas memórias dizendo assim:

“Ele (Ebert), bateu o punho na mesa – Isso é verdade?, quando lhe respondi, que isso não era apenas verdade, mas como evidente, ele fez uma cena diante da qual fiquei parado como se estivesse diante de um enigma, – Você não tem direito de proclamar a República!, disse Ebert.  – O que a Alemanha viria a ser, uma república ou algo diferente, isso decide uma constituinte”[13].

Então a constituinte era a política da social-democracia alemã para sufocar a revolução e tirar o poder dos conselhos que haviam se espalhado por todas as cidades.

No mesmo dia Karl Liebknecht proclama a República Livre Socialista da Alemanha. Haffner em seu livro, conta o episódio assim:

As 4h da tarde alguém gritou a palavra de ordem: ao palácio. Meio hora depois o palácio real estava ocupado e KL apareceu na varanda, e proclamou a república pela segunda vez neste dia, mas agora proclamou a república socialista. Sua voz solene, como o canto de um pastor, ecoava pela praça onde a multidão se amontoava cabeça com cabeça. E ele finalizou: “Quem de vocês que quiser ver a realização da república livre socialista da Alemanha e a revolução mundial, levante a mão em juramento. Todos juraram”[14].

Não vai ser bem assim que vai acontecer. Mas nessa noite, a Rosa vai ser libertada, finalmente ela vai sair da prisão. Quem assume a chefia do governo, é Friedrich Ebert, que é presidente do SPD e que foi aluno da Rosa lá na escola de economia, e que a Rosa tinha falado muito mal dele, dizendo que era um péssimo aluno.

Ele era um cara muito bitolado, o Haffner (2018) descreve o Ebert como um cara típico burocrata, extremamente organizado, extremamente autoritário. O Ebert assume o governo em nome do partido da social-democracia alemã, o poder passa a ser exercido por uma coalisão de partidos operários.

Os majoritários (SPD) junto com os Independentes (USPD) que também entram para o governo, em uma decisão que é ratificada pela assembleia do conselho dos trabalhadores e soldados. Havia um poder duplo na Alemanha nesse momento. Os Spartakistas são contra a entrar no governo, mas os conselhos decidem entrar, decidem avalizar a entrada dos partidos operários no governo.

Muda completamente a situação da Alemanha: em 7 de novembro havia  um imperador, um príncipe como chanceler, no dia 10 havia um conselho de comissários do povo e um comitê executivo desses conselhos. Esse é o novo desenho do poder na Alemanha.

Ebert e Ludendorff, que é o chefe das Forças Armadas herdado do antigo regime, juntos tramam contra os conselhos operários. Ambos querem acabar com os conselhos e Ebert quer convocar uma constituinte.

 Mas é claro que os majoritários estão com amplo apoio popular, há uma grande alegria pelo fim do império. A revolução derrubou o império!

Então, o Conselho dos comissários do povo fixa para 19 de janeiro uma assembleia constituinte. O que acontece neste momento é que os próprios conselhos se suicidam, porque eles se viam como transitórios para a república parlamentar, deixando que o governo tome as iniciativas. Obviamente que a Rosa não compartilha dessa política, mas quem tem controle dos conselhos são os Majoritários da social-democracia, os Independentes também tem muita força e os Spartakistas são fracos, são pequenos, está isolada a extrema esquerda no interior desse movimento de novembro de 1918 que derruba a monarquia.

Nesse momento então a Rosa está fora da prisão, e ela passa a editar e a escrever diariamente para o Rote Fahne, que é o jornal da Liga Spartakus. E ela escreve um texto muito importante, O que quer a Liga Spartakus, que reflete a disputa que ela está fazendo com a política da social-democracia alemã, naquele momento da revolução.

Então qual é a proposta da Rosa e da liga Spartakus: abolir a aristocracia; confiscar toda a riqueza acima de certo nível; usar esse recurso para reformar os sistemas de alimentação, habitação, educação e saúde; renegar a dívida nacional e os empréstimos de guerra; nacionalizar os bancos, as minas e a indústria; assumir o sistema de transporte público; ocupar as grandes propriedades rurais, explorá-las coletivamente; jornada de trabalho de 6 horas; igualdade jurídica e social entre os sexos; Tudo dirigido pelo conselho de trabalhadores e soldados que elegerá um comitê executivo. Ela está contra a proposta da constituinte, ela quer que o conselho dos trabalhadores e soldados dirija o país.

No finalzinho de dezembro, em 1° de janeiro, ocorre a fundação do KPD, o Partido Comunista da Alemanha.  O que aconteceu foi que o partido que a Rosa estava fazendo entrismo, que é o USPD, os Independentes, está dentro do governo, e aí não dá mais para  ficar no partido que está no governo com uma política capituladora. Então eles fundam o KPD que vai ser o Partido Comunista Alemão.

Tem muita dúvida da Rosa a respeito da fundação desse partido, inclusive o Leo é contra até o fim, ele vai votar contra a fundação do partido. A Rosa vai ser convencida pelo Radek, que é um alemão-russo que tinha muita relação com os bolcheviques. Ele convence a Rosa que tinha que fundar o partido.

Na fundação do KPD vem outros grupos também, além dos spartakistas. A política do partido de boicotar a constituinte é aprovada contrariamente à vontade da Rosa. Ela  foi contra a constituinte, só que quando ela foi convocada, ela defende que o partido participe, que apresente candidatos e vá para dentro da assembleia constituinte apresentar as suas propostas. Mas, essa proposta é derrotada, e isso reforça no Leo a convicção de que a fundação do partido havia sido precipitada.

Veja o que o Pierre Broué diz a respeito desse momento:

“Uma minoria revolucionária estava radicalizada. Parte dela se reagrupou em trono da Liga Spartakus. Membros da classe trabalhadora que s a força dominante da social democracia e a burocracia sindical havia os tornado contra qualquer forma organizativa, ativistas pacifistas que viam seu maior inimigo no staff do partido socialdemocrata, pessoas jovens que acreditavam apenas na força das armas, rebeldes lutadores, puristas que viam o principal obstáculo para a vitória da revolução no aparto burocráticos – todos eles fascinados pela revolução russa. Eles sabiam pouco sobre a longa experiencia dos bolcheviques, e para eles bolchevismo era resumido na insurreição armada e o uso da violência revolucionária como a cura para todos os problemas da violência militarista e imperialista. Em 1920 Paul Levi descreveu a composição da Liga Spartakus no segundo congresso da internacional comunista: grupos que haviam se formado no curso da luta revolucionária em toda a Alemanha, na sua maioria sem ideias políticas claras, a maioria atraída pelo nome de KL, grupos de pessoas que nunca haviam se organizado em um nível político antes”.

Rosa está à frente de um grupo de pessoas bem intencionadas, revolucionários da mais alta estirpe, porém, extremamente ingênuos no sentido que, enxergavam a revolução bolchevique de longe, apenas como uma experiência de tomada de poder e não de uma longa experiência de ganhar apoio no movimento de massas e dentro dos conselhos. Porque os bolcheviques tomaram o poder, mas na verdade quem tomou o poder foram os conselhos, os sovietes e não os bolcheviques. Então havia muita pouca informação a respeito de toda essa trajetória dos bolcheviques até a tomada do poder. Esse grupo da Rosa que forma o KPD, que forma o partido comunista tem esse perfil.

Neste momento então, os Independentes saem do governo e a saída, segundo Broué (2006), dos ministros Independentes, resultado da radicalização das massas em Berlim, foi um fator que acelerou o processo e empurrou os majoritários para uma maior dependência dos militares.

Então essa coalizão governamental se rompe, esse mito da social-democracia governando unida, e os conselhos decidem entregar o poder para o governo. Diz o Broué:

“A ruptura da coalizão o governamental e o fim do mito da unidade, assim como o suicídio dos conselhos no seu próprio congresso deixou os trabalhadores de Berlim como nada mas sua armas e um agudo sentimento de perigo iminente para o qual eles não viam solução imediata”[15].

Não havia um partido bolchevique para abrir a perspectiva de luta, ou para liderar um recuo depois das dificuldades, das primeiras manifestações armadas. Os trabalhadores de Berlim começam a fazer diversas manifestações armadas reivindicando as suas necessidades, as suas propostas de paz inclusive, porque a paz ainda não havia sido estabelecida e não tinha um partido para liderar esse processo.

A contrarrevolução tinha o que os revolucionários não tinham, que era uma liderança capaz de analisar a correlação de forças e uma força treinada e disciplinada, e o líder dessa contrarrevolução, era o Gustav Noske: “Um de nós tem que ser o carniceiro”,  ele declarou.

É ele quem vai comandar as Freikorps, que são os militares que haviam perdido o seu emprego e estavam organizados de forma independentes e de forma geral financiados por capitalistas. E esse Gustav Noske, que era da social-democracia, vai assumir esse papel de carniceiro.

Neste momento vai ter um episódio que é a demissão do chefe de polícia de Berlim (Emil Eichhorn), que era vinculado aos Independentes. Ele é demitido, mas se recusa a sair porque diz que foi colocado lá pelos conselhos e que não iria sair. Então centenas de milhares vão para as ruas para apoiar esse chefe de polícia que o Ebert quer retirar de Berlim, porque é o foco da revolução, é o foco da confusão. E ele tinha se comprometido com o Ludendorff que iria acabar com a confusão, então ele tinha que tirar esse cara que estava sendo leniente com os revolucionários para abrir caminho para as Freikorps, comandadas por Noske, para esmagar os insurgentes.

 Uma monumental manifestação a favor do chefe de polícia acontece, que se transforma na verdade numa manifestação contra o governo e sob a influência dessa manifestação se reúnem dirigentes dos Independentes, os delegados revolucionários de Berlim, que era um outro grupo que tinha muita força dentro dos metalúrgicos e a maioria dele estava ainda dentro do partido dos independentes e o Karl Liebknecht com um outro dirigente do KPD que se chamava Pieck. Eles estão participando dessa manifestação à revelia da direção do próprio KPD e da própria Rosa.

Broué relata assim:

“Quando Karl Liebknetch foi libertado ele concordou em participar como porta voz dos Independentes(USPD) e a participar das reuniões do seu comitê executivo. A razão desta atitude é simples: ele acreditava que  os spartakistas não tinham condições para intervir na indústria – o território no qual a batalha decisiva estava sendo travada. Esta é a razão pela qual ele e Pieck escolheram integrar-se no núcleo que formava a liderança real da classe trabalhadora em Berlim, os delegados revolucionários, cuja maioria eram membros do USPD”[16]

Eles acreditavam que tinham as guarnições berlinenses ao seu favor e decidem resistir à exoneração do chefe de polícia, e tentar destituir o governo Ebert.

Ocorre a ocupação do jornal da social-democracia, dos Majoritários, o Volwärts. Ocupam outros jornais, ocupam gráficas, ocupam a casa da moeda. Depois uma investigação do parlamento prussiano vai revelar que as ocupações tinham sido dirigidas por delatores do comando de polícia e por provocadores. Essas ocupações dão um argumento democrático para sustentar a repressão, que é a liberdade de imprensa.

Frölich analisa assim esse episódio, essa tentativa de derrubar o governo, que ficou conhecida como levante de janeiro, levante Spartakista:

“A iniciativa desta luta decisiva partira, portanto, da contra  revolução. Mas a classe dos trabalhadores tinha alguns trunfos poderosos na manga. Ainda possuía armas  e vontade de lutar. Uma ação planejada provavelmente teria arrastado com ela os regimentos berlinenses que haviam se declarado neutros. Uma luta de rua intensa e sabiamente organizada teria sido um desafio para os militares. A vitória em Berlim não era impossível, mas havia perigos por trás dessa  vitória, na demora do movimento no interior. A derrota em Berlim foi selada pelo fracasso da liderança.”

Vejamos só que Frölich  entendeu que era possível vencer mas que a derrota se deu porque não houve uma liderança capaz de conduzir esse momento.

O que dizia a Rosa Luxemburgo? Ela queria assegurar o caráter defensivo da luta, a situação na visão dela não parecia madura para uma luta pelo poder político. O KPD conquistara simpatia, mas ainda não era uma liderança reconhecida pela classe e não estava pronto para organizar as tarefas monumentais da luta pelo poder. Ela insistiu nas palavras de ordem de desarmamento da contrarrevolução, armamento do proletariado, unificação das tropas fiéis à revolução, novas eleições para os conselhos, para derrubar o governo com esses fundamentos revolucionários e transformar os conselhos em verdadeiros centros de ação.

A Rosa então não concordou com a linha do Karl Liebknecht. O seu ímpeto, diz Frölich, o ímpeto do Karl, o levará longe demais, ele era um instigador audacioso mas não um estrategista de raciocínio frio. Ele agiu sem o conhecimento da direção do partido, e tem uma clássica pergunta que a Rosa faz, reproduzida em vários textos e análises dessa história: “Karl e o nosso programa?”

Mas essa narrativa de que houve um golpe Spartakista, servia aos interesses da social-democracia alemã para mostrar que eles estavam tentando evitar que os Spartakistas instituíssem uma ditadura bolchevique na Alemanha.

Essa é a explicação que os majoritários, que estão no poder, dão para sustentar a contrarrevolução que vai ser liderada pelo Noske.

O governo social-democrata faz aliança com as forças do antigo regime, o exército, para deixar os Freikorps agirem e inclusive incitar o assassinato da Rosa e do Karl. No próprio jornal oficial da social-democracia alemã, saíram textos incitando o assassinato da Rosa e do Karl Liebknecht.

Então, em 15 de janeiro de 1919, Rosa é assassinada no bojo dessa repressão à insurreição de janeiro. O assassinato dela e de Karl é rodeado de mentiras. Eles mentem que ela foi atacada por uma turba, que foi espancada até a morte e seu corpo desaparecido. E que Karl teria tentado resistir a prisão e fugido, mas tudo mentira, eles foram executados. E o corpo dela foi jogado no rio e só foi resgatado semanas depois.

Vejam o que foi publicado num jornal de direita:

“Sangue clamava por sangue. O banho de sangue pelo qual Liebknecht e Rosa Luxemburgo eram responsáveis clamava por castigo, este não tardou e no caso de Rosa foi cruel, mas justo. A galiciana foi espancada até a morte. A temível e toda poderosa cólera popular exigia vingança”.

Philipp Scheidemann, antigo companheiro de partido e ministro do governo, escreveu assim: “foram vitimas da sua própria tática terrorista e sanguinária. A derrota do levante spartakista significa para o nosso povo e, em particular, para a classe operária, um ato de salvação, que perante a história, tínhamos o dever de realizar”.

Anos depois um cidadão chamado Pabst, Oficial do Estado Maior de divisão da cavalaria, vai confessar que foi o assassino da Rosa.

Vou terminar lendo um trecho deste último artigo que a Rosa escreveu, que se chama A Ordem Reina em Berlim, onde ela faz um balanço dessa derrota, ela já sabia que o levante estava sendo derrotado, mas ela se recusou a fugir. E nesse texto ela diz assim:

“Dessa contradição, numa fase inicial do desenvolvimento revolucionário, entre o agravamento da tarefa e a falta de condições prévias para sua solução, resulta que as lutas isoladas da revolução acabem formalmente em derrota. Mas a revolução é a única forma de ‘guerra’ em que a vitória final só pode ser preparada por uma série de derrotas. (…) A Comuna de Paris terminou em uma derrota terrível. O caminho do socialismo – levando em consideração as lutas revolucionarias – está inteiramente pavimentado de derrotas. (…) Onde estaríamos hoje sem essas derrotas, das quais extraímos experiencia histórica, conhecimento, poder, idealismo? Nós nos apoiamos precisamente nessas derrotas, sem poder prescindir de nenhuma delas, pois cada uma faz parte da nossa força e de nossa clareza de objetivos. (…) A direção fracassou. Mas a direção pode e deve ser novamente criada pelas massas e a partir delas. As massas são o decisivo, o rochedo sobre o qual se estabelecerá a vitória final da revolução. As massas estiveram à altura, elas fizeram dessa derrota um elo daquelas derrotas históricas que constituem o orgulho e a força do socialismo internacional. E por isso a vitória florescerá dessa derrota.”

Essa análise me lembrou muito o Alain Badiou, analisado pelo Roberto Robaina  na sua tese de doutorado, na qual ele afirma que

“(…) os fracassos experimentados nas tentativas de construção de um novo mundo, de um projeto de emancipação, devem servir para que se façam balanços das razões deste fracasso, mas jamais devem levar a abandonar o empenho em novas tentativas. Diante do fracasso da implementação de uma ideia verdadeira, tentar de novo é o nosso dever”.

Referências bibliográficas

BROUÉ, P. The German Revolution, 1917-1923: Historical Materialism. Haymarket Books, 2006.

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FRÖLICH, P. Pensamento e Ação. São Paulo: Boitempo, 2019.

HAFFNER, S. Revolução alemã, A (1918-1919). São Paulo: Expressão Popular, 2018.

LUKÁCS, G. História e consciência de classe: Estudos sobre a dialética marxista. São Paulo: Martins Fontes, 2003.

LUXEMBURGO, R. A Acumulação do Capital. Nova Cultural, 1985.

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NETTL, J.P. Rosa Luxemburg: The Biography. Verso; Illustrated, 2019.

TROTSKY, L. Minha Vida.  Usina Editorial, 2017.


[1] Método Dialético e Teoria Política, ed. Paz e Terra.

[2] Frölich, Paul. Rosa Luxemburgo. Ed. Boitempo, p. 57.

[3] Evan, Keith. Rosa Vermelha: uma biografia em quadrinhos de Rosa Luxemburgo. São Paulo: Expressão Popular, 2018.

[4]  Frölich, Paul. Rosa Luxemburgo. Ed. Boitempo, p. 33.

[5] Correspondência de Rosa citada em The Luxemburg Reader, p. 9.

[6] Broué, Pierre. A Revolução Alemã. Chicago: Haymarket Books, 2006. p. 16 (tradução minha).

[7] https://www.marxists.org/archive/luxemburg/1899/07/tactics.html

[8] Cliff, Tony. https://www.marxists.org/ebooks/cliff/rosa_luxemburg-cliff.pdf

[9] Frölich, Paul. Rosa Luxemburgo. Ed. Boitempo, p. 213.

[10] Cliff, Tony. Rosa Luxembugo

[11] Haffner, p. 108.

[12] Haffner, p. 120.

[13] Haffner, p. 116.

[14] Haffner, p. 127.

[15] Broué, p. 236.

[16] Broué, p. 192.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.