A luta nas ruas e a construção de uma nova esquerda: uma polêmica com o Afronte

A luta nas ruas e a construção de uma nova esquerda: uma polêmica com o Afronte

Buscamos sempre a unidade na ação para a derrota do bolsonarismo, mas não seremos reféns daqueles que não pretendem fazer esse enfrentamento agora.

João Pedro de Paula e Theo Louzada 10 jun 2021, 13:47

O dia 29 de maio foi um marco importante na luta anti-bolsonarista em todo país. Marcado por uma presença grande da juventude, uma unidade ampla de convocação, além de um peso relevante das organizações anticapitalistas. A data foi o resultado do desgaste que o governo vem sofrendo com a CPI da Pandemia, as centenas de milhares de mortos e o empobrecimento geral da população, somado às mobilizações que vinham se desenvolvendo desde a manifestação no dia 10 no Rio de Janeiro contra o massacre do Jacarezinho.

Na construção dessa mobilização, como de costume, se colocou de forma mais explícita as estratégias que cada um dos setores anti-bolsonaristas possui para o próximo período. Os exemplos mais evidentes foram as lideranças do PT, como Quaquá e o presidente do PT Bahia, que se colocaram abertamente contra as manifestações. Além do MST e da CUT que tiveram posições similares, ainda que mais tímidas. Tudo isso como um reflexo da política de seu campo de esperar o Bolsonaro se desgastar até 2022.

Apresentando as suas elaborações sobre esse debate, o coletivo de juventude Afronte escreveu um texto chamado “Nota do Afronte sobre o 19J: seguir nas ruas para derrubar Bolsonaro e salvar vidas”, que cita diretamente o Juntos em algumas polêmicas que estão sendo discutidas no movimento. Achamos o debate relevante e oportuno para colocarmos em maior perspectiva nossas posições e diferenças com esse setor. Por isso, pretendemos, por meio desse texto desenvolver algumas elaborações que estão surgindo a partir da luta contra o bolsonarismo

Nessa nota, o Afronte inicia uma discussão mais ampla sobre a conjuntura na qual temos acordo em vários elementos. Em especial na centralidade que tomou o dia 29M e deve seguir tomando as próximas mobilizações pela saída imediata de Bolsonaro. Apesar de não ter sido as primeiras manifestações relevantes de oposição ao governo – temos o levante dos livros de 2019 e as manifestações antirracistas no ano passado, as lutas de maio colocaram em outro grau o enfrentamento nas ruas, não só mostrando a nossa maioria social, mas correlação de força existente para a luta pela saída do presidente.

Posteriormente a isso, o coletivo se propõe em colocar as lições trazidas pelo 29M e tarefas para o 19J, enumerando cinco debates que acham oportunos serem feitos. É fundamentalmente com essas lições que queremos dialogar.

Em seu primeiro ponto “Não há contradição entre ir para a rua e defender a vida”, temos um completo acordo. Respeitamos todos que individualmente optaram por não participar por preocupações com sua segurança. Mas na realidade em que vive o Brasil, no qual as próprias condições que o governo Bolsonaro impõe aos trabalhadores impedem qualquer tipo de isolamento social, é necessário que a luta de ruas seja um instrumento político central. As organizações políticas que utilizaram a justificativa sanitária como motivo para não ir às ruas tiveram, em sua maioria, também outras razões políticas para não apostar nas mobilizações, nas quais logo mais entraremos.

Logo em seguida, outros quatro pontos são desenvolvidos, que merecem uma análise conjunta e com mais atenção. São eles: “Atenção aos riscos de repressão”, “Enfrentar qualquer tentativa de romper a unidade”, “Enfrentar quem quer deixar o Fora Bolsonaro para 2022” e “Exigir das direções majoritárias um compromisso verdadeiro com a luta”. Esses pontos se dialogam e se complementam, porque todos estão conectados com o mesmo erro estratégico que marca nossa diferença fundamental com o Afronte.

A lógica do coletivo durante todo o texto é a mesma: o enfrentamento do bolsonarismo exige unidade dos setores progressistas ou anti-bolsonaristas, que por sua vez, estão dirigidos pelo PT e pelo campo lulista. Para eles, em prol da unidade, podemos ser críticos à estratégia dos setores petistas no que tange a 2022, mas isso não significa que devemos buscar construir um pólo independente dessa estratégia, mas exigir que esses setores “se empenhem” na luta pelo impeachment e tomem um rumo mais à esquerda.

Nesse sentido, são críticos à estratégia do petismo, colocando que “o (…) repúdio deve ser direcionado às direções majoritárias que hoje buscam canalizar as mobilizações para as eleições de 2022 e foram contra a construção dessa mobilização”. Porém, não colocam propostas para pressionar o movimento como um todo para uma estratégia que rompa com essa lógica a não ser lamentar a posição de Lula de não ter divulgado ou participado das manifestações e exigir dele e da direção petista que mude sua estratégia.

Essa concepção mostra um erro estratégico do Afronte. Não é de agora que suas posições têm colocado a mesma confusão entre a unidade de enfrentamento ao governo Bolsonaro e a diluição dos anticapitalistas em um projeto de esquerda há muito já degenerado. É o mesmo erro que faz com que a corrente do PSOL na qual o Afronte se referencia, a Resistência, defenda que o partido se alie com Lula para 2022, buscando a construção de uma suposta frente de esquerda nas eleições para enfrentar o bolsonarismo.

Essa é uma elaboração que poderia fazer sentido caso Lula e PT fossem elementos que estariam se apresentando no cenário político agora, com fatores progressivos, porém com vacilações. Não como lideranças que já governaram o país por 13 anos com o centrão e que tem uma estratégia bem definida para os próximos anos explicitada diversas vezes pelas suas direções. 

Criar ou aumentar ilusões com esse projeto é um erro. Seja por estar claro o projeto petista de governar com a burguesia, numa “aliança entre o capital e o trabalho” que Lula sempre relembra. Seja por estar fortalecendo aqueles que não apostam na superação do bolsonarismo pelas mobilizações, impedindo o fortalecimento de uma alternativa de esquerda independente. Inclusive, mesmo que estejamos dispostos a apoiar quem quer que for no segundo turno contra o Bolsonaro, achamos importante nas eleições de 2022 que haja espaço para uma candidatura que se apresente no primeiro turno com um programa anticapitalista e independente e nisso, saudamos a iniciativa da pré-candidatura presidencial de Glauber Braga do PSOL.

Mas voltando ao debate, ao mesmo tempo em que lideranças como Lula estiveram em silêncio, outras, com menos a perder, foram diretamente contrárias às manifestações. Washington Quaquá, o vice-presidente nacional do PT, disse que as manifestações do 29M seriam “pisar no túmulo de 450 mil mortos”. Nada disso é atoa, é calculado: esse setor não quer que as mobilizações se desenvolvam para além de seu controle ou que vá até as consequências de tirar Bolsonaro ainda esse ano. A perspectiva é desgastar Bolsonaro apenas para facilitar a provável vitória eleitoral de Lula, já apontada nas pesquisas.

No Nordeste, vimos como os governos do campo progressista atuaram para diluir as mobilizações, inclusive pela repressão. Por isso, apostamos ao máximo na mobilização, mas sem ilusões. Temos que construir nossa política na unidade, mas aqueles que o Afronte chama de direções majoritárias não têm espaço para serem disputados. A própria amplitude das mobilizações tem que ser um meio de superá-los.

Logo, não faz sentido o espantalho que é criado pelo coletivo sobre “divisionismo”. Ao citar o espaço de assembleia que o Juntos ajudou a construir, na qual milhares de participantes estiveram presentes, o Afronte esquece de citar duas coisas. Uma que até pouco tempo antes do encontro a proposta dessas mesmas “direções majoritárias” era que a manifestação seguinte só fosse feita no dia 26 de Junho, data na qual há uma probabilidade de termos uma terceira onda da pandemia. Outra que as movimentações do dia 19 foram consensuadas com todos setores que vinham construindo o 29M. Buscamos sempre a unidade na ação para a derrota do bolsonarismo, mas não seremos reféns daqueles que não pretendem fazer esse enfrentamento agora.

Ou seja, não existe um problema de divisionismo no movimento, existe uma divergência de estratégia entre aqueles que querem seguir a luta até a queda do Bolsonaro e aqueles que querem enfraquecê-lo sem levar as mobilizações até a última consequência. Uma disputa na qual o Afronte parece ter dificuldade em se localizar. Nós seguiremos apostando na continuidade das mobilizações, até que derrubem Bolsonaro. Acreditando na unidade de construção das mobilizações mas não caindo no erro de se diluir naqueles que há muito já mostraram razões para serem superados.

Compreender a América Latina como exemplo neste momento é fundamental. Pedro Castillo, um desconhecido no Peru foi recentemente eleito no país por defender um programa abertamente de esquerda e sustentado na mobilização popular. Enquanto aqueles que apostaram nas mediações e conciliações não tiveram nem perto a capacidade de enfrentar a extrema-direita fujimorista. 

Isso não significa que defendemos todo o programa de Castillo no Peru, muita coisa ainda precisa ser definida em seu Governo, mas significa sim que foram suas propostas de mudanças estruturais no país que o colocou no papel que ele está atualmente. Ou seja, a partir das mobilizações populares que se apresentam e se desenvolvem os projetos políticos de transformação. É nisso que devemos apostar, precisamos criar o nosso, que será construído nas experiências que o povo tem nas ruas. Sem ilusões, buscaremos a unidade na luta, mas em conjunto com a construção de um polo e um projeto anticapitalista para o Brasil.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos
Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.