De quem é a Seleção Brasileira?

Neste texto, Leandro Fontes comenta a queda de braço entre Bolsonaro x Seleção de Tite por ocasião da realização da Copa América no Brasil.

Leandro Fontes 7 jun 2021, 11:47

O jornalista Marcelo Barreto em sua coluna dominical no jornal O Globo trouxe uma reflexão intitulada “em busca da própria voz” que deu holofotes ao seguinte questionamento: de quem é a seleção brasileira?

De fato essa é uma indagação nada fácil de ser respondida, principalmente para aquelas e aqueles que não encontram exemplos dignos de nota na Seleção Canarinho fora de campo desde os tempos de Sócrates. Pelo contrário, a camisa amarela com escudo da CBF se tornou uniforme oficial das mobilizações da extrema-direita que deram pujança ao Golpe Parlamentar em 2015 e coesão eleitoral para Bolsonaro em 2018.

Assim sendo, pelo menos nos últimos anos, a simbologia da Seleção foi monopolizada por setores conservadores e reacionários e, consequentemente, pelo braço político neofascista do bolsonarismo.

Diante desse quadro se instaurou a polêmica da Copa América no Brasil, uma vez que Bolsonaro enxergou no vácuo de uma competição opaca no tempo e no espaço, uma oportunidade de um salto em seu movimento de reação político-eleitoral.

Quer dizer, com a Copa América, Bolsonaro tenta, por um lado, tirar o foco da CPI da pandemia e anestesiar os efeitos do 29M e dos panelaços. E, por outro lado, o presidente buscará nas transmissões do SBT dar musculatura a sua narrativa negacionista, apresentando como baluarte de sua posição, a realização de uma competição internacional de seleções em nosso território.

Acontece que a brusca jogada de Bolsonaro encontrou uma barreira de peso. E nesse caso não me refiro aos interesses comerciais do Grupo Globo nas transmissões esportivas. Mas, na posição do técnico Tite, do capitão Casimiro e, pelo que parece, dos demais jogadores na Granja Comary.

De tal modo, o “Fla-Flu” (termo criado e mitificado por Mario Filho a partir de 1936 para promover um clássico entre “compadres”) entre Globo e SBT não corresponde ao cerne na questão. O que está colocado é se Tite, Casimiro e demais jogadores da Seleção irão se insurgir contra os ditames da carcomida e corrupta CBF, que até aqui, mesmo com Rogério Caboclo afastado por denúncias de assédio sexual e moral, endossa a posição de Jair Bolsonaro.

Portanto, a real queda de braço estabelecida é: Bolsonaro x Seleção de Tite. Esse duelo pode representar uma derrota desmoralizante para Bolsonaro sob os holofotes do mundo. Esse acontecimento, caso se concretize, colocará inevitavelmente a Seleção Canarinho em conexão com as bandeiras políticas levantadas no 29M. E, por consequência, em oposição à orientação genocida do bolsonarismo. Assim sendo, a Seleção poderá promover um reencontro com a voz da maioria povo num impactante duelo nacional. A resultante desse duelo será a resposta da problemática levantada pelo jornalista Marcelo Barreto. De nossa parte, estamos na torcida para que Tite e Casimiro conduzam a Seleção Canarinho ao encontro do 29M, dos panelaços e do 19J. 


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é uma edição especial de nossa Revista Movimento, de números 19 e 20. Nela, publicamos um dossiê que celebra os 150 anos de nascimento de Rosa Luxemburgo, vinculado à iniciativa coordenada por nossa camarada Luciana Genro: o curso da Escola Marx “150 anos de Rosa Luxemburgo: pensamento e ação”.