Existe capitalismo sem racismo?

Existe capitalismo sem racismo?

Se quisermos lutar contra o capitalismo e a desigualdade de classe, o antirracismo deve estar no centro de nossa atividade.

Danilo Serafim 29 set 2021, 20:10

“Por mais que se suba na vida, por mais que enriqueça, por mais que as pessoas ‘adorem você’ ou o que você faz, se você é um afro-americano ou uma afro-americana, é sempre isso o que você será” (Le Bron James)

A luta antirracista e anticapitalista é internacional. Primeiro é importante dizer que é necessário na luta internacionalista ter uma perspectiva de classe. A questão de raça e classe estão interligadas de forma bastante complexas e fazem parte do internacionalismo no enfrentamento ao capitalismo racial.

E para explicar quais são essas formas, temos que discutir a história do surgimento do capitalismo e sua relação com o racismo. Importantes opiniões como a de Phil Gasper, ativista socialista norte-americano, militante do DSA,  sustenta  que o capitalismo criou o racismo. Essa pode ser uma visão controversa, polêmica. Já que não é uma posição unitária na esquerda. No entanto, em muitos debates de movimentos antirracistas é uma tese que se apresenta e se sustenta.

Para Olufemi Táiwó, pensador emergente, escritor e ativista cujo o trabalho teórico se baseia na tradição radical negra e no pensamento anticolonial, nos últimos cinco séculos de colonialismo , as colônias estiveram submetidas a regimes autoritários com sistemas explícitos de Apartheid social.

O conceito de raça não existiu antes do final do século 14. Você não vai encontra-lo em antigos escritos na Bíblia ou Heródoto, nem mesmo nos diários de Marco Polo.  A escravidão terminou oficialmente em 1865 nos EUA e em 1888 no Brasil respectivamente, porém a estrutura de castas se manteve intocada até os dias atuais. O conceito de raça é uma invenção do capitalismo moderno.

Segundo Isabel Wilkerson (Casta As Origens de Nosso Mal-Estar), a interpretação do texto bíblico de racismo do Velho Testamento, a maldição de Noé, vai surgir no século 16, (“Maldito seja Canaã, o filho de Cam, e as gerações seguintes dizendo: “Maldito seja Canaã! Que ele seja, para seus irmãos, o último dos escravos”). Os que se decretaram descendentes de Jafé (os europeus) se aferraram firmemente a essa história, utilizando-a em proveito próprio. Enquanto o lucro do tráfico escravo da África para o Novo Mundo enriqueceram os espanhóis, os portugueses, os holandeses e, depois os ingleses. Invoca-se a passagem bíblica para condenar os filhos de Cam e justificar o sequestro e a escravização de milhões de seres humanos, e a violência contra eles. “A maldição de Cam está sendo executada agora sobre seus descendentes”, escreveu Thomas R.R. Cobb, um importante membro da Confederação e defensor da escravidão, no 24º ano da era da servidão nos Estados Unidos.

Então, o surgimento do conceito de raça coincide com o início do moderno comércio de escravos na África e foi usado para justificar , o genocídio contra os povos africanos escravizados e o extermínio indígenas das Américas , uma das maiores atrocidades da história moderna. E não adianta pedir perdão sem reparação.

Ainda segundo Isabel Wilkerson, os racistas cristãos religiosos encontraram um reforço adicional no Levítico, que os exortava: “Os servos e as servas que tiveres deverão vir das nações que vos circundam; delas podereis adquirir servos e servas”. Assim, tomaram a passagem da bíblia como licença adicional para escravizar os que consideravam pagãos religiosos, para construir um país novo na terra erma. E dessa forma se desenvolveu uma hierarquia no Novo Mundo que eles criaram, na qual os que tinham a pele mais clara foram colocados acima dos que tinham a pele mais escura. Os que eram mais escuros e os descendentes dos que eram mais escuros seriam designados para a casta  escravizada e subordinada das Américas durante séculos.   

O racismo não explica a escravidão, mas segundo Éric Willians (Capitalismo e Escravidão), a escravidão explica o racismo.  O comércio de escravos foi, vital para o desenvolvimento do capitalismo. No século 16, africanos escravizados, foram usados para extrair riquezas do Novo Mundo, que era essencial para acumulação primitiva do Capital na Europa Ocidental. O racismo veio para  extirpar, roubar e sequestrar a liberdade das pessoas negras.

Portanto o racismo era absolutamente central para o regime das relações de trabalho que permitiu o desenvolvimento do capitalismo racial. Mas também desempenhou uma variedade de outras funções importantes. No capitalismo, como em outras sociedades de classes, uma minoria monopoliza a maior parte da riqueza e do poder.

Como uma pequena minoria pôde manter seu domínio sobre uma vasta maioria? O capitalismo usará a repressão aberta sempre que necessário, dos vários modos de violência estatal, contra os negros, contras os indígenas, contra as minorias, contra as mulheres (mas principalmente as mulheres negras), contra os mais vulneráveis, pela polícia, através das  prisões (os EUA e o Brasil são a primeira e a terceira população carcerária respectivamente do mundo), da repressão militar. Oulefemi vai além, “precisamos entender o que as instituições como a polícia foram projetadas para fazer. Eles emergiram de instituições como patrulhas de escravos e grupos milicianos paramilitares destinados a disciplinar imigrantes e escravos”.   

Mas é difícil dirigir uma sociedade apenas na repressão, então as classes dominantes precisam encontrar maneiras de impedir a maioria de se organizarem juntas. Para Olufemi, a longa história do colonialismo, sempre foi difícil  projetar fora do seu terreno geográfico e social real, então eles sempre buscaram recrutar nativos para cargos de gestão intermediárias e dividir o povo dando “poder” a uma parcela minoritária da população. Olufemi diz que o comércio de escravos transatlântico, não poderia ter acontecido se apenas tivesse se baseado no conhecimento europeu das redes de comércio e relações sociais. Sempre de modo eficaz o capitalismo racial usou da lógica de dividir para conquistar (mito da democracia racial, no Brasil, os assimilacionistas nos EUA) uma estratégia utilizada com frequência pela classe dominante.  

O racismo tem desempenhando  papel de subjugação e violência permanente contra o povo negro, seja na América do Norte, seja na América Latina, desde o século XVI. O racismo sobreviveu ao fim da escravidão e persistiu como método político-ideológico  para justificar a desigualdade racial contínua – seja no mercado de trabalho (salários e trabalho diferenciados), na habitação (no contexto dos EUA, gueto tornou-se sinônimo de lugar de negro(a) no brasil a mesma coisa  para com o termo favelado), na educação (dificuldade de acesso e permanência ao sistema de ensino), na saúde (as principais vítimas acometidas da Covid-19, seja no Brasil, seja nos EUA, é a população negra) e em todas as áreas da sociedade.

O racismo também continuou a desempenhar um papel importante nas justificativas oferecidas para as guerras e conquistas coloniais, que continuam sendo uma característica central do capitalismo. No atual período, segundo Mbembe, o racismo contemporâneo reside na interconexão entre o radioativo e viral. Ou seja, uma que é direta, imediata como vimos com George Floyd, Breonna Taylor, com João Alberto de Freitas no Carrefour em Porto Alegre. E outra, a violência lenta, mais gradual, que elimina o direito à educação, à saúde, à moradia, ao emprego formal de carteira assinada.

Segundo Mbembe, juntas, essas duas formas de violência racial, a forma visível e imediata e a outra lenta e retardada, formam um aparato de atrito que ataca não apenas o corpo, mas também os nervos. Para Mbembe, ”este aparelho esta cada vez mais tecenologizado, cada vez mais algorítmico. Para ele o racismo algorítmico será a forma de racismo que experimentaremos no futuro, irradiando-se e tornando-se como poder mutante”. O desafio será lutar contra esse tipo novo de racismo, que reside na sociedade em rede, na tecnologia da informação.        

Esse debate levanta a seguinte questão: poderia o capitalismo existir sem o racismo? É possível responder a pergunta de duas maneiras: Primeiro o racismo está totalmente embutido e integrado no capitalismo. Acabar com o racismo, exigirá a reparação pelo genocídio dos povos afro descendentes e uma enorme redistribuição de renda para amplas massas. Uma reforma agrária massiva no latifúndio, com direito a todas as tecnologias atuais, assim como uma reforma urbana onde todos (as) tenham o direito de possuir habitação próprias, colocando fim na indústria de aluguéis. E quantos trilhões em dólares? 

Em segundo, podemos perguntar se em diferentes circunstâncias históricas, o capitalismo poderia ter surgido sem o racismo? É impossível de acreditar que o capitalismo pudesse ter surgido sem algum sistema equivalente de opressão. Talvez o capitalismo sem o racismo seja até  uma possibilidade teórica para os assimilacionistas, mas o capitalismo sem opressão não é. Que conclusões práticas podemos tirar? Capitalismo e racismo são irmãos siameses. E por causa do papel que o racismo desempenha na divisão da classe trabalhadora, se quisermos lutar contra o capitalismo e a desigualdade de classe, o antirracismo deve estar no centro de nossa atividade. Portanto luta antirracista é anticapitalista e internacional!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!