A esquerda precisa ter seu nome

A esquerda precisa ter seu nome

É possível uma frente de esquerda com o PT? Robaina se apoia nas definições de Haddad para mostrar por que tal frente não é possível.

Roberto Robaina 15 out 2021, 11:04

Temos sustentado que nas eleições presidências do ano que vem se pode e se deve votar na centro-esquerda no segundo turno. O desafio de derrotar Bolsonaro é a prioridade de nossa tática eleitoral e, por isso, tal afirmação é necessária desde já. Ao mesmo tempo, para colaborar com a luta contra Bolsonaro, é também importante que a esquerda apresente claramente suas propostas anticapitalistas, mostrando que esse sistema deve ser combatido. A ausência dessa esquerda deixa o lugar da critica antissistêmica vazio, cujas intenções de votos nulos e abstenções de uma forma ou outra, mesmo que parcialmente, são expressões. Pior ainda: tal ausência permite que a extrema direita tente canalizar uma parcela do descontentamento contra a institucionalidade burguesa. Mas a esquerda deve apresentar seu programa, sobretudo porque é a única que oferece uma saída de fundo para a crise nacional.

Este debate tem ocorrido no interior do PSOL, partido com as melhores condições de apresentar essa candidatura. Ocorre que uma parte da direção defendeu não lançar nome do partido. Tal posição venceu o último congresso, embora 44% tenham defendido que o PSOL deva, sim, ter candidatura, e o nome do combativo deputado federal Glauber Braga foi proposto para a tarefa. A posição majoritária não negou o nome de Glauber. Negou que o partido apresente um nome próprio. Está defendendo que se faça uma frente de esquerda com o PT e, logicamente, quer que Lula a encabece. Queremos demonstrar que tal politica é irreal e que o resultado apenas levaria o PSOL a apoiar um governo burguês como consequência lógica desse apoio já no primeiro turno. Desta vez, vamos chamar Fernando Haddad para ajudar a esclarecer as coisas.

Na quarta feira, 13 de outubro, Fernando Haddad, pré-candidato do PT ao governo do Estado de SP, participou de uma reunião com importante representação da burguesia brasileira. Segundo o Jornal “A Tarde”, o objetivo do encontro, não desmentido pelo líder petista, foi buscar “acalmar os ânimos dos atores econômicos, caso Lula vença as próximas eleições. As informações são de Lauro Jardim, colunista de O Globo.

Em uma de suas falas, Haddad afirmou que o PT não é de esquerda, mas de centro-esquerda. Não é tão relevante que as fontes do jantar tenham dito que Haddad colocou no colo do governo Dilma o fracasso econômico da era PT, fazendo questão de defender os anos de Lula na presidência. Não é a primeira vez que líderes petistas empurram para Dilma os fracassos da gestão petista. Aliás, o czar da economia na época da ditadura e atual aliado de Lula, Delfim Netto, também repete isso sempre. Entre os presentes na reunião, Luis Henrique Guimarães, CEO da Raízen, Jan Jereissati, CEO da Ambev, José Olympio Pereira, presidente do Credit Suiss, Florian Bartunek, gestor do fundo Constellation, Ricardo Saad, da Band, e o bilionário ruralista Washington Cinel.

Numa reunião desse tipo, Haddad diz as coisas como são. Seu esforço é de demonstrar que o PT não é de esquerda e que pode ter a confiança da burguesia para governar o país. Tampouco é a primeira vez que Haddad apresenta a definição de que o PT é de centro esquerda. Em entrevistas, longe dos empresários, Haddad apresenta essa definição. Seria um erro acusá-lo de duplo discurso. Os setores do PSOL que lutam por uma frente de esquerda, afirmando que o PT é o partido de esquerda mais importante do país, deveriam escutar mais seriamente os conceitos do político Haddad, que também é professor e renomado intelectual, presidente da Fundação do PT. Por que deveriam escutá-lo? Em primeiro lugar, para deixarem de insistir que uma frente com o PT é uma frente de esquerda. As coisas devem ser chamadas por seus nomes. Haddad tem razão.

Mas, afinal, qual a diferença? É que um partido de esquerda tem como pressuposto essencial a crítica ao capitalismo e a busca de representação dos interesses da classe dos trabalhadores. É indubitável que o PT, nas suas origens, era um partido de esquerda. Mas desde a experiência de 13 anos de governo federal, sua natureza mudou. O fato de ter ido para oposição depois de 2016 fez sua localização mudar na situação nacional. Mas sua natureza estrutural foi dada pela mudança de qualidade ocorrida durante seu governo. Neste período, o PT assumiu uma natureza política de defensor aberto do desenvolvimento do capitalismo brasileiro. A reunião foi para dizer que essa é sua função. A defesa do capitalismo é uma das marcas da centro esquerda, como muitas vezes Ciro Gomes explicou também com clareza. Ao assumir essa função, mesmo um partido originário da classe trabalhadora, passa a mudar sua natureza de classe e a se postular como defensor dos interesses burgueses, da classe dominante no capitalismo. O fato de adotar um discurso geral de defesa dos trabalhadores e de buscar algum nível de reformas, medidas paliativas ou compensatórias a favor dos trabalhadores e de setores oprimidos e espoliados enquanto governa é que autoriza que politicamente sejam identificados como de esquerda, não apenas de centro. Sabemos que são governos reformistas com poucas reformas, quando não simplesmente aplicam como eixo de seu receituário as medidas neoliberais. Na Argentina, a divisão entre o que significa esquerda e centro esquerda é clarissima. Por isso, lá, os setores peronistas e Cristina Khicner são denominados de centro esquerda.

Assim, é urgente que os setores do PSOL não enganem mais a si mesmos. Uma frente de esquerda com o PT é impossível. Por isso, o PT não pode assumir, por exemplo, nem 10% das propostas programáticas que o setor denominado “A semente” reivindica como base de um programa de esquerda. E não acreditamos que os companheiros aceitariam aderir a Lula mesmo sem programa de esquerda, ou seja, sem combate aos interesses dos bancos e dos grandes capitalistas. Seria uma capitulação que não coaduna com a história dessas correntes. Então, o certo é que possamos afirmar, juntos, que para derrotar Bolsonaro, estaremos firmes, chamando a votar em quem possa derrotá-lo. Mas diante de uma eleição em dois turnos, usaremos o primeiro turno para afirmar a necessidade de uma saída pela esquerda. O PSOL abrir mão de ter candidatura significa aceitar que esse lugar esteja mais esvaziado do que já está.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!