O Round 6 é aqui. Mas, também é lá.

O Round 6 é aqui. Mas, também é lá.

“O Haiti é aqui
O Haiti não é aqui”

Leandro Fontes 19 out 2021, 15:26

Terminei de assistir a mundialmente badalada série da Netflix, “Round 6”. Confesso que no primeiro momento não guardava muitas expectativas na produção. Mas, a ficção, brilhantemente montada sob a baliza de uma competição que move holofotes para as contradições empíricas da vida real, aprisiona inevitavelmente o telespectador numa espécie de Big Brother reflexivo e macabro.    

O enredo escolhido para dar corpo a “Round 6” ou “Squid Game” (Jogo da Lula), como foi chamada originalmente, é a desigualdade social na Coréia do Sul. Isto é, a “canonizada” Coréia capitalista que cresceu economicamente no pós-guerra e chegou a ser considerada um dos “tigres asiáticos”, tornando-se um dos países mais ricos da Ásia. Entretanto, o milagre econômico no passado não significou redenção ao povo sul-coreano no presente. Pelo contrário, tal como mostra a série, as contradições de lá são tão latentes quanto às de cá. 

Não vou entrar nas especificidades de “Round 6”. Até porque esse não é o objetivo dessa coluna. Mas, recomendo o primoroso comentário de Gustavo Rego no canal Cineolho como referência crítica da série. De todo modo, o “Jogo da Lula” abrange traços universais das ilusões e mazelas do capitalismo além-mar, que nós, brasileiros, conhecemos e sofremos na pele com sua navalha voraz.

De tal maneira, a série poderia ter sido literalmente rodada em nosso território sem alteração em seu conteúdo. Evidentemente, os atores, a paisagem, os nomes dos personagens e dos lugares não seriam os mesmos. Todavia, os demais pontos da sinopse poderiam ser repetidos sem tirar o sentido do início, meio e fim da produção. Esse fator se deve porque o perfil dos personagens que dão vida a trama se encaixa como uma luva numa fatia graúda do povo brasileiro, especialmente em parcelas do proletariado, precarizado e marginalizado, de baixa escolaridade, que vive de bicos, com auxílio do governo, com famílias endividadas, sem grande perspectiva de futuro e que deposita suas fichas nas lotéricas e em jogos de azar para da noite pro dia virar o jogo da vida.  

Acontece que em “Round 6” o tudo ou nada está em cada passo. A sobrevivência passa por vencer provas. A derrota resulta na morte. No entanto, a cada competidor abatido significa mais dinheiro no bolão de milhões. Quer dizer, o inocente “Jogo da Lula” se converte no clássico: matar ou morrer, sendo que a “liberdade” para matar está sob a tutela da autoridade superior, que, ao mesmo tempo, controla as regras do jogo, divide a conta gotas a comida dos participantes e tem legitimidade para executar sumariamente qualquer um sob as regras ou não do jogo. 

É interessante notar a pirâmide: na base estão os 456 competidores, que serão mortos ou irão matar uns aos outros, desses, só um irá sobreviver; acima estão os soldados, fortemente armados, vestidos com um traje padrão, tendo a patente como diferenciação destacada na máscara; mais acima está o chefe e porta-voz do “Jogo da Lula” que comanda todos os passos operacionais da ilha; acima do aparente comandante em chefe da ilha estão um punhado de ricaços (chamados na série de Vips) que gozam com os jogos da morte, assim como os romanos no Coliseu, mas, nesse caso, sem a presença da plebe na arquibancada. 

Quer dizer, o modus operandi de “Round 6”, em essência, corresponde com a pirâmide do Estado capitalista. Até mesmo na transmissão da ideia de igualdade meritocrática, ou seja, que no jogo “as oportunidades são iguais para todos”, “Squid Game”, acaba introduzindo mecanismos ideológicos utilizados pela mídia (o “quarto poder”) como uma das estratégias de dominação. 

Como se pode constatar, tirando as alegorias aberrantes, a distópica série não está tão fora da realidade assim. Se aproximarmos a lupa, veremos que os pilares da dominação do Estado estão contidos sistematicamente em “Round 6”, o principal deles, como disse Weber, é o monopólio da violência e o uso legitimado das armas, por parte de uma minoria, como forma de coerção da maioria.   

Por que isso ocorre? Porque o topo da pirâmide do Estado se constitui invariavelmente por 1% de privilegiados. Essa ínfima minoria necessita controlar a maioria. O ponto central para esse objetivo é a repressão. Isto é, o monopólio da violência. Logo, quem detém o monopólio da violência detém o poder. Portanto, a quebra desta corrente é uma revolução. Esse é o cerne da questão, não é à toa que os sovietes na Rússia de 1917 foram organismos de duplo poder, uma vez que uma de suas primeiras deliberações na revolução de fevereiro foi: toda e qualquer movimentação de tropas na cidade de Petrogrado tem que ser autorizada pelo sovietes. Quer dizer, o sovietes (conselho de operários, camponeses e soldados) chama para si o monopólio da violência. Isto é, chama para si o controle do poder.

No sentido inverso, como consequência do desembarque de Dom João e a corte portuguesa, pode-se entender o surgimento da intendência geral de polícia no Brasil em 1808. Ora, qual era o objetivo da primeira força policial no país? Simples: controlar os escravos. Diga-se de passagem, quem chicoteava os escravos nas áreas urbanas era o policial. Assim, da senzala à favela é uma história continuada no Brasil. Assim sendo, o Estado brasileiro ainda carrega um forte traço escravocrata e racista. 

Portanto, a desigualdade social e a marginalização dos povos excluídos é uma decorrência estrutural do capitalismo e da dominação violenta de uma minoria sobre a maioria. De tal maneira, seja na Coréia do Sul, no Brasil onde os pobres brigam para pegar comida em caminhão de lixo ou em qualquer outro território, o prognóstico é o mesmo. E nenhum reality show, loteria ou ação cosmética de setores “educados” da burguesia (até da centro-esquerda social liberal) irá mudar o abismo imposto pelo sistema-mundo que tem como regra a exploração do homem pelo homem. A ideia de se tornar rico da noite pro dia não passa de uma miragem imposta. Por isso, criticar o capitalismo é fundamental. Nesse sentido, a série “Round 6” ou “Jogo da Lula”, com um alcance de público estrondoso, cumpre um papel positivo que deve ser referenciado. Todavia, não basta criticar o sistema, é preciso organização e ação de massas para derrotá-lo. Esse é nosso compromisso maior.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

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