Uma perspectiva anticapitalista da COP26: é hora de mudar o sistema em defesa da soberania alimentar, dos povos de rios, florestas e da vida!
WhatsApp-Image-2021-11-05-at-18.01.30

Uma perspectiva anticapitalista da COP26: é hora de mudar o sistema em defesa da soberania alimentar, dos povos de rios, florestas e da vida!

Ecossocialismo ou extinção!

Marcela Durante e Silvia Guerreiro 5 nov 2021, 19:23

“Precisamos tomar outro caminho com mudanças corajosas e globais.

Não é 2030 ou 2050, é agora!

É necessário sempre acreditar que o sonho é possível.

Que a nossa utopia seja um futuro na Terra.” (Txai Suruí, COP26)

O discurso da jovem indígena de Rondônia, Txai Suruí, na abertura desta COP 26 é um apelo urgente para o mundo, um sintoma geral do que se espera desta conferência que reúne por volta de 120 líderes mundiais, além de setores industriais e banqueiros. Felizmente diversos ativistas do mundo inteiro também estão em Glasglow esses dias para uma conferência paralela onde devem debater as emergências climáticas com pontos de vistas mais radicais e com manifestações de rua. A deputada federal Vivi Reis, representará a bancada de parlamentares do PSOL. O sentido é único, como disse Greta Thunberg “Não queremos mais Blablabla” e nem nos contentaremos com promessas vazias de um modelo político e econômico falido.

Na contramão do mundo e com queimadas criminosas cada vez mais devastadoras, o Brasil aumentou suas emissões de gases do efeito estufa em 9,5% (em 2020), segundo dados do Observatório do Clima. Além de não ir à COP26, o maior evento climático que reúne lideranças mundiais de centenas de países, Bolsonaro decidiu atacar novamente a potente fala da indígena brasileira Txai Suruí, que representou diversos povos indígenas na conferência e denunciou o genocídio dos povos indígenas no Brasil. 

Precisamos falar sobre emergência climática e COP26 porque a natureza está reagindo a esses processos todos promovidos pelo avanço destruidor do capitalismo. As crises ambiental e social estão profundamente relacionadas, onde a pandemia da Covid-19 e a crise climática são expressões disso.  2021 é um ano decisivo para a luta por justiça climática enquanto uma batalha central por justiça social, em nome das vidas negras, indígenas, quilombolas e periféricas do mundo. Cerca de 200 países terão que apresentar planos e metas  para reduzir as emissões de gases poluentes e buscar limitar a temperatura média em um aumento de 1,5ºC até 2050. Teoricamente, só assim se evitaria um colapso do clima. Mas é fundamental ressaltar que para nós, ecossocialistas, não há esperança alguma em na COP26 enquanto uma real alternativa para a crise ecológica e social que o planeta vive hoje. Não há alternativa real em rasos acordos de cúpula liderados pela burguesia mundial, com pouco ou nenhum espaço para participação efetiva de movimentos sociais, ativistas e sociedade civil. Excludente e burocrático, na COP26 da ONU tampouco há acessibilidade para que pessoas com deficiência tenham seu direito de participação garantido com segurança e prioridade. As contradições são inevitavelmente escancaradas.

A verdade é que o racismo ambiental é a ordem para populações periféricas e este colapso já está em curso há tempos afetando diariamente a vida das pessoas mais vulneráveis em seus cotidianos, seja em enchentes ou estiagens, falta de água na torneira, fome e seca, avanço de queimadas em seus territórios, proliferação de pragas, aparecimento de novas doenças ou a multiplicação de eventos extremos mais frequentes. Sustentado por Bolsonaro e a bancada ruralista, o setor agropecuário atingiu a maior emissão de gases de efeito estufa de todos os tempos, mesmo em ano de pandemia.

O Brasil entrou em um grupo de 100 lideres mundiais que pretentem acabar com o desmatamento ilegal até 2030. O que chega a ser uma ironia frente aos últimos escândalos do Ministério do Meio Ambiente, que chegou a derrubar Ricardo Salles, existem evidencias concretas de esquemas de “esquentamento” de madeira ilegal para exportaçao. E esse é o Brasil de bolsonaro, um país que autoriza o desmatamento da Amazônia cerca de 10.000 Km2 por ano, que apoia abertamente a facilitação de licenciamento ambiental,  a grilagem de terras públicas, a não demarcação de terras indígenas e quilombolas e o fim de qualquer possibilidade de reforma agrária, tudo isso para fazer lobby com seus apoiadores do chamado “Centrão”, a mesma bancada ruralista que promove uma guerra nos campos e florestas. 

O descrédito internacional do governo Bolsonaro vai ser talvez um dos grandes vexames, se transformando em empecilhos para o diálogo e possíveis negociações. Nem a pseudo-tentativa de greenwashing (do inglês, “pintar de verde” para camuflar uma suposta sustentabilidade) salva a equipe do governo. Sabemos que Jair Bolsonaro é um criminoso e descompromissado com a pauta socioambiental desde seu primeiro dia de governo. Interessado apenas em recursos financeiros para teoricamente proteger a Amazônia e nossos biomas, seu interesse real é na verba internacional para financiar sua ganância pela destruição da natureza a qualquer custo, em benefício próprio, de sua família e aliados, ligados à bancada ruralista e da bala. Bolsonaro e o bolsonarismo negam e debocham da emergência climática, além de permanentemente fazerem ofensivas violentas de ataque contra os direitos dos povos originários, defensores das florestas. Por outro lado, a forte indignação dos movimentos sociais, ativistas, ambientalistas radicais, lideranças indígenas e quilombolas vai aumentar fortemente a pressão nacional e internacional com mobilizações para denunciar o desmonte socioambiental por meio da política ecocida de Bolsonaro e seus aliados ligados à burguesia financiada pelo agronegócio. É preciso dar vez e voz às lideranças e ativistas na Contracúpula pelo Clima.

Fome e seca: a prova que o capitalismo não deu certo 

Colocado pela burguesia econômica como setor central na economia brasileira, o modelo agroexportador é inimigo numero 1 das florestas em pé e repleto de contradições. Embora o Brasil seja o maior consumidor mundial de agrotóxicos e um dos maiores exportadores de commodities do mundo, não é o país que mais produz alimentos para seu próprio povo. Com o aumento do desemprego e miséria no governo Bolsonaro, é inaceitável que cerca de 20 milhões de brasileiros passem fome e que metade da população brasileira sofra de insegurança alimentar. Além de colaborar com a desigualdade social, com a crise ambiental, também está agravando a crise hídrica no país.

As práticas utilizadas por esse modo insustentável de produção agrícola agridem o solo, poluem nossos rios, os alimentos que comemos, as represas e mananciais. Um exemplo disso é a pulverização aérea de agrotóxicos, que afeta diretamente a fauna, a flora, a saúde e qualidade de vida das pessoas que moram e trabalham no campo, mas também daquelas que se alimentam nas cidades. 

A crise do coronavírus aprofundou as desigualdades sociais não apenas nas cidades, mas também no campo. O setor que alimenta a maioria das casas brasileiras que é o agricultor familiar teve quase nada de incentivo para seguir plantando e distribuindo seus produtos. Pelo contrário, o governo federal fez severos cortes na política de aquisição de alimentos da agricultura familiar. No parlamento, os deputados aprovaram o PL da Grilagem para favorecer a regularização e ocupação indevida de terras públicas, a impunidade de crimes ambientais e o desmatamento. Além disso, essas terras públicas, na maioria dos casos, são as terras indígenas e quilombolas em processo de demarcação e áreas de agricultores familiares sem terra. 

A perseguição e extermínio que sofrem os pequenos agricultores e sem terras no Brasil é alarmante. Em vez de comida para seu povo, o Brasil de Bolsonaro quer a agroexportação, isto é, plantar soja para pecuária mundial que alimenta multinacionais da indústria alimentícia como a MCDonald ‘s. Cerca de 79% da soja plantada no mundo é esmagada para servir de ração para gado e 18% para produção de óleo se soja, o óleo mais consumido, além disso a maior compradora de soja Brasileira é a China, seguido da União Europeia. Hoje a soja, aliada a produção de animais de grande porte, é um dos principais produtos do desmatamento na Amazônia e no Pantanal. Além disso, as empresas JBS, Cargill, Bunge, têm assento prioritário nas decisões do governo para essa área e hoje são as indústrias que lideram a exploração de povos tradicionais e a devastação da natureza. Os consórcios que essas indústrias lideram têm projetos de grandes obras como a Ferrogrão e uma série de megaportos na Amazônia. Uma absurda inversão de valores que coloca o lucro sobre a vida!

Outro ponto é que o agronegócio agrava diariamente a crise hídrica nacional, tanto por ser grande consumidor quanto pelo desmatamento promovido para avançar com esse modelo predatório em prol do lucro de poucos. É preciso dizer que a água é um bem comum essencial à vida e está cada vez mais escassa. Apesar do Brasil possuir 12% da água doce superficial do planeta, mais de 70% desse bem comum é utilizado pela agropecuária. Em plena emergência hídrica nacional em 2021, o agro continua sendo o maior consumidor de água potável, enquanto a maioria da população sofre com a fome, falta de abastecimento em suas casas ou recebe água contaminada para irrigar suas lavouras para produção familiar.

O Anticapitalismo na COP e uma agenda permanente de Lutas

Devemos ser a vanguarda global na mudança necessária para a humanidade, rumo ao Ecossocialismo.

Considerado o maior avanço recente no combate às mudanças climáticas, o Acordo de Paris se mostrou tragicamente otimista e insuficiente como uma resposta definitiva para o colapso climático, não conseguindo atingir o objetivo a que ele se propôs de manter o aumento da temperatura entre 1,5 e 2,0ºC – com referência a temperatura supostamente pré-industrial. Com o atual ritmo de frágeis negociações e metas pouco audaciosas, o aquecimento do planeta superior a 1,5ºC é provavelmente inevitável.

Alternativas ecocapitalistas, como o mercado de carbono e o chamado Greenwashing promovido por mega empresas poluidoras, são uma falácia enquanto solução definitiva para a crise climática. Atraente para corporações financiadoras de mega obras que destroem nossos ecossistemas, essa lógica de mercado de carbono nada mais é do que iniciativas de compra e venda de créditos de redução de emissões de gases do efeito estufa. Ou seja, um país paga o outro pelo direito de emitir gases como metano e gás carbônico. Quem receberia o crédito deveria, teoricamente, parar de poluir e desmatar, investindo em energias renováveis. Contudo, vemos que, na prática, não se reduz as origens das emissões, possibilitando que setores que mais poluem permaneçam contribuindo pro colapso ecológico. Apenas na lógica do capital é possível dar passe livre para que poluidores continuem emitindo CO2 em plena emergência climática. 

Não podemos mais pensar em compensação de carbono em diferentes partes do mundo, afinal, fazemos todos parte da mesma “casa” chamada Terra, que afetará o planeta como um todo, especialmente populações mais vulneráveis do sul global. Ao invés de apostar em um desenvolvimento sustentável, devemos esperançar em alternativas a este modelo de desenvolvimento produtivista que abarque a diversidade de culturas e modo de vida dos povos originários e defensores das florestas em pé. Por isso, reforma agrária e demarcação de terras indígenas são fundamentais para dar início a um novo modelo de uso e ocupação do solo com justiça socioambiental. É preciso mudar o sistema, e não o clima!

É preciso questionar as supostas saídas financiadas por grandes bancos e pela burguesia econômica e política. Se os acordos de cúpula e o capitalismo não são capazes de dar caminhos viáveis à crise ecológica e social em curso porque implicaria justamente em impor limites ao processo de exploração irracional da natureza para obter lucro infinito, é nosso dever construir uma alternativa anticapitalista, radicalmente democrática e ecológica. 

As crises do nosso tempo podem e devem ser encaradas como tarefas revolucionárias. A demarcação de terras indígenas e territórios quilombolas, a reforma agrária popular, agroecologia, sistemas agroflorestais e o ecossocialismo surgem como caminhos possíveis a serem construídos para criar uma nova realidade que questione os atuais padrões de consumo e modos de produção. O ecossocialismo busca romper com uma ideologia produtivista para redefinir a trajetória e o objetivo da produção socialista em um contexto ecológico, com radical participação e controle popular.  

Sabemos que todos os últimos governos reproduziram essa lógica desigual, desumana, e insustentável de produção. O atual governo além de reproduzi-la, intensifica ainda mais os conflitos, e ataca deliberadamente quem ousa enfrentar esse modelo agrícola, nos relegando ao papel subalterno que sempre ocupamos para o centro do capitalismo global. 

Portanto, não há clima que resista ao capitalismo e esse modelo de exploração da vida. É preciso confrontar essa lógica de mercantilização da natureza e dos bens comuns, visando a proteção da vida na Terra, a soberania alimentar, floresta em pé, a soberania dos povos e comunidades tradicionais, do sertanejo, do pequeno agricultor. Por isso, a aliança com os sem terra é tão importante também nos dias  10 a 15 de novembro, quando acontecerá a grande marcha da Frente Nacional de Lutas Campo e Cidade (FNL), partindo de Sorocaba até a capital paulista. Luta essa que deve ser também central para os ecossocialistas. Assim como, está sendo organizado para 2022, em Belém, o 10º FOSPA (Fórum Social Pan Amazônico), que reunirá ativistas do mundo todo, devemos colocar como prioridade a construção deste evento, se a periferia é o centro e assim como a jornalista Eliane Brum fala, “A Amazônia é o Centro do Mundo”. 

 No começo pensei que estivesse lutando para salvar seringueiras, depois pensei que estava lutando para salvar a Floresta Amazônica. Agora, percebo que estou lutando pela humanidade.

 [Chico Mendes]

Chico Mendes vive! Ecossocialismo ou extinção!


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

Ver todos

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é a vigésima primeira edição da Revista Movimento, dedicada aos debates em curso do VII Congresso Nacional do PSOL. Nela encontram-se artigos de análise, polêmica e discussão programática para subsidiar os debates de nossos camaradas em todo o país e contribuir com a batalha pela pré-candidatura de nosso companheiro Glauber Braga à presidência da República pelo PSOL. A edição também conta com análises de importantes questões internacionais contemporâneas e de outros temas de interesse, como os desafios da luta pelo “Fora, Bolsonaro” e as crises hídrica e elétrica no Brasil. Num ano de 2021 ainda marcado pela tragédia da pandemia da Covid-19 e pelo descaso criminoso de governos em todo o mundo, lamentamos a perda de nosso grande camarada Tito Prado (1949-2021), militante internacionalista e dirigente de Nuevo Perú. A ele dedicamos esta edição de nossa revista e, em sua homenagem, publicamos artigos em sua memória. Boa leitura!