Não Olhe para o vírus da desinformação

Nathália Bittencurt escreve sobre o filme Don’t Look Up.

Nathália Bittencurt 28 dez 2021, 10:04

Na véspera de natal, a Netflix lançou seu filme Não Olhe Para Cima (Don’t Look Up) na própria plataforma de streaming, depois de estrear o longa em alguns cinemas no início de dezembro. O final de semana foi suficiente para o produto se tornar um dos assuntos mais comentados nas redes sociais. Há quem consiga rir bastante entre uma ironia e outra, ou entre o desfile de semelhanças com a Terra de 2021. Há também quem saia da tela impressionado ou quase preocupado. Mas por que o hype do filme de Adam McKay importa no apagar das luzes de 2021?

Se você ainda não assistiu ao filme, pode ser melhor não olhar para baixo.

A sátira Não Olhe Para Cima ridiculariza os exageros e episódios tragicômicos já assistidos na vida real da geopolítica de um planeta capitalista. Na ficção, de maneira global, a reação do governo dos EUA ao tomar conhecimento da chegada iminente de um cometa devastador lembra bastante a reação omissa de governos de reacionários, tal qual Donald Trump, ao lidar com o surgimento do novo coronavírus no início de 2020 (parece que já faz 84 anos). No filme, a presidente norte-americana prefere aguardar as eleições presidenciais para agir sobre a ameaça extraterrestre. Para os brasileiros, não somente a reação negacionista e a conduta política diante da pandemia são comparadas ao governo Bolsonaro, mas seu mandato inteiro. 

Pontos sensíveis fundamentais como a liberdade individual e a descredibilização da Ciência estão presentes do início à catástrofe final. Assim como na vida real, as autoridades que lideram o governo possuem redes de desinformação (fake news) profundamente enraizadas em distintas classes sociais, articuladas de forma eficaz em plataformas digitais como o Whatsapp, redes sociais como o Instagram e o Twitter, com páginas falsas financiadas e organizadas por membros de governos. O filho da presidente dos EUA pode ser comparado aos filhos do presidente Bolsonaro, mas o personagem aparenta ter ainda menos capacidade do que os parlamentares brasileiros para tal tarefa.

A desinformação no filme também foi usada de forma sofisticada em shows de entretenimento que constituem o cotidiano doméstico de milhares de casas, chegando através de canais abertos de televisão. O talk-show das manhãs americanas The Daily Rip é um exemplo das tentativas frustradas dos dois astrônomos protagonistas em revelar a ameaça fatal à Terra que demoraria cerca de seis meses para chegar. O programa, na ficção, tem enorme audiência nos EUA e diariamente convida personalidades do momento para “deixar as notícias ruins mais leves”. No mesmo dia em que os cientistas se preparam sob forte tensão para falar sobre um cometa que pode ter cerca de 9 km de diâmetro, uma  das convidadas do talk-show é uma artista pop interpretada pela cantora Ariana Grande. A notícia da tragédia astronômica já estava ofuscada naquela manhã devido ao término do namoro da artista pop com um DJ também muito famoso.

Nervoso e com dificuldade em expressar-se ao vivo depois de uma crise de ansiedade, porém encaixado no perfil de homem hétero de beleza padronizada, o cientista homem é escutado parcialmente. A fábrica de memes é acionada assim que a cientista mulher escolhe não se encaixar na proposta de entretenimento do Daily Rip, e sobe seu tom de voz. Neste momento sua imagem e sua mensagem, que alcançaram um momento chave de visibilidade pública,  acabam sendo ridicularizadas e descredibilizadas. A cientista se torna a louca, estampando memes com a frase “TODO MUNDO VAI MORRER!” enquanto o pesquisador ainda consegue manter um breve período de atenção da imprensa e das autoridades.

De fato, a história que os cientistas ofereceram para a audiência do programa não poderia ser agradável de qualquer maneira. Mas a importância de um programa de televisão para despertar a atenção para uma ameaça real – ignorada por um governo nacional – levou os cientistas a tentar esse canal de diálogo com a sociedade. Há um choque entre a linguagem da Ciência, o produto de entretenimento montado por uma corporação, e uma sociedade cada vez mais despolitizada. Não à toa outro cientista adverte o astrônomo protagonista, “Sem matemática!”.

Diferentemente de outros filmes que também exploram o poder dos dados compartilhados com redes sociais, como O Dilema das Redes de 2020, Não Olhe Para Cima alerta para a junção catastrófica da estupidez de um autoridades públicas negacionistas com a ganância de grandes corporações que prometem soluções ilusórias. Na obra, a empresa de recursos tecnológicos BASH vende a ideia de que pode não apenas neutralizar o cometa que destruirá a Terra, mas também captar e armazenar seus minerais. A promessa de captar recursos naturais e gerar lucros literalmente astronômicos para os EUA faz com que o governo decida boicotar a própria missão que poderia salvar o planeta do impacto com o cometa. Os #challenges com fogos de artifício que surgem nas redes sociais são mais uma tragicômica comparação com alguns hábitos da geração Tik Tok – atenção, aqui escreve uma millenium que não demoniza o Tik Tok, #pas.

A BASH foi muito longe tecnologicamente, produzindo celulares capazes de aproveitar como nenhum outro dispositivo anterior os dados pessoais compartilhados voluntariamente por usuários de aplicativos diversos. Antes de iludir com a solução mais lucrativa da História para o planeta, já usava sua tecnologia para explorar o estímulo digital e prevenir sintomas de uma sociedade doente, como a tristeza, a ansiedade e o tédio. Apesar de falhar na tentativa de utilizar o cometa para o benefício do sistema capitalista, a empresa teve êxito em criar naves que pudessem manter viva uma deleção de seres humanos por mais de 20 mil anos, a fim de poder regressar à Terra.

Não Olhe Para Cima coloca muito de nossa realidade política na tela em forma de deboche, com bons atores e atuações. É um riso dado para não chorar, como o Brasil já está acostumado. É um respiro pós ceia de natal. É uma chance de pararmos de ignorar nosso próprio Bronteroc e encarar o autoritarismo e o negacionismo com altivez e Ciência, sem receio de olhar para os erros de até agora. Olhe para cima sim.


Parlamentares do Movimento Esquerda Socialista (PSOL)

   

Podcast Em Movimento

Capa da última edição da Revista Movimento
Esta é a vigésima quarta edição da Revista Movimento. Iniciando nossas publicações em 2022, preparamos uma edição com um dossiê de mulheres, organizado pelas mulheres do Movimento Esquerda Socialista (MES).