“Operação Escudo”, genocídio que segue 

“Operação Escudo”, genocídio que segue 

A segunda fase da chamada “Operação Escudo” está em curso, uma das operações militares mais emblemáticas da atual política de segurança pública em SP

Israel Dutra 7 fev 2024, 10:24

Está em curso a segunda fase da chamada “Operação Escudo”, na Baixada Santista. É uma das operações militares mais emblemáticas da atual política da segurança pública em SP, comandada por Derrite e Tarcísio. Sua motivação principal foi a morte de um agente da Rota. 

A primeira etapa da nefasta operação, no final de julho passado, motivada também pela morte de um policial no Guarujá, durou 40 dias, com suspeitas de diversas chacinas, totalizando um número de 28 mortes, ao menos. Foram cerca de mil pessoas presas, além de diversos bairros da região sendo literalmente acossados pela Rota durante mais de um mês. 

A nova fase já teve sete mortes, com seis das vítimas chegando ao IML sem qualquer identificação. 

Com fins de fazer agitação política a respeito, Bolsonaro celebrou e tratou com ironia as mortes, em reunião transmitida pelas redes sociais, na sua casa em Angra. A extrema-direita se entrincheira na discussão para justificar mais repressão, mais mortes nas periferias, repetindo e perpetuando o genocídio da juventude negra no país. 

“A polícia que mata”

Com esse título provocativo, Caco Barcellos publicou sua obra mais conhecida “Rota 66”, nos anos 90, articulando denúncias de assassinatos a sangue frio feitos pela Rota. A obra recentemente foi revisitada numa bela série da Globoplay, tendo como protagonista Humberto Carrão. Vale ser assistida. 

A Rota foi criada para combater grupos de “insurgência armada” nos anos 70, rapidamente se transformou num braço avançado do extermínio nas periferias. A “tropa de elite” das forças repressivas de SP, alcançou a fama de violenta e “sanguinária”; fama replicada por jornais e programas sensacionalistas de rádio e tv. No próprio site da Rota, se nota a reivindicação das ações de combate das forças de segurança paulistas, desde o século passado, até a campanha do “cerco ao vale do Ribeira”, contra a VPR de Carlos Lamarca. 

É sob essa dimensão que se repete a mesma violência estatal contra as populações mais pobres, criminalizadas e cercadas, que Tarcísio ergue seu discurso. Derrite, eleito deputado federal e nomeado secretário de segurança carrega esse “legado”. Acompanhando pessoalmente as operações, Derrite foi criticado pela imprensa, já que o próprio teria sido retirado da Rota pelo grande número de confrontos e pessoas mortas em serviço que envolviam o nome dele. 

A falta de transparência é uma das características das duas etapas da “Operação Escudo”. O Condepe – Conselho Estadual de Defesa dos Direitos da Pessoa Humana – de São Paulo criticou afirmando que o governo não “pode criar uma rede privada de vingança”. 

Rota na prefeitura? 

Um elemento adicional foi a indicação de Bolsonaro, articulado pelo chefe do PL, Valdemar da Costa Neto, de Ricardo Nascimento de Mello Araujo para vice de Ricardo Nunes, na disputa da prefeitura de São Paulo. A indicação ainda deve ser confirmada, contudo, demonstra qual será o eixo de intervenção da extrema-direita, agora apostando fichas na composição com o MDB de Nunes. 

Mello Araujo é um ex-comandante da Rota, forjado na “linha dura”. Apresenta-se como feroz “anticomunista”, tendo participado de inúmeras manifestações de Sete de Setembro, como um agitador da linha bolsonarista. Ele pode articular o jargão “ livrar o Brasil do comunismo”, cantilena dos golpistas de todo país, com a máxima “bandido bom é bandido morto”; já defendeu inclusive, publicamente, que a abordagem policial deve ser mais violenta nos bairros pobres do que nas áreas da classe média e alta. Mello Araujo, em sua gestão a frente da CEAGESP, chegou a abrir um clube de tiro na sede, algo totalmente desvinculado do propósito de atividades do entreposto, que é a comercialização de hortifruti, pescados e flores. 

A mobilização democrática ao redor de Boulos terá de tocar nesses temas, sem ceder ao apelo “punitivista”. O bolsonarismo escolhe polarizar para legitimar o ponto de unidade entre seu núcleo duro e a linha dos apoiadores do atual governador. A extrema-direita, internacionalmente vem usando o exemplo do Equador por um lado; e do recém reeleito presidente de El Salvador, Nayib Bukele. Dirigentes do MBL estiveram no país a fim de defender medidas como a redução da maioridade penal, a restrição punitiva dos códigos penais e a linha de encarceramento ainda mais massivo. 

 Outra saída, outra política 

A operação Escudo é a continuidade da política da PM paulista, como bem escreveu a co-deputada pelo Movimento Pretas, Leticia Chagas, na mais recente edição da Revista Movimento 

“exemplo disso é que, em 2023, a Operação Escudo, da PM de São Paulo, provocou dezenas de mortes nas periferias da Baixada Santista, e tem diversos indícios de ilegalidade. Também são muitos os relatos de jovens negros abordados de maneira violenta por policiais; a presença da polícia militar na repressão a bailes funks também é amplamente conhecida, e em São Paulo tem como exemplo o Massacre de Paraisópolis em que a PM assassinou nove jovens no Baile da Dz7” 

De outra parte, deixar de disputar política e ideologicamente contra Tarcisio é um erro. 

A burguesia liberal “aplaude” a unidade entre Lula e Tarcísio, como demonstra o editorial da Folha de S. Paulo. Não é assim. É uma triste coincidência que tenha sido na Baixada Santista o ato que selou o acordo para construção de obras, como disse a Folha: “Acordo para Obras do túnel entre Santos e Guarujá mostra que adversários políticos podem se aliar em torno de causas que promovam o bem comum”. E tal postura foi celebrada nas redes sociais por outros setores e lideranças da esquerda. 

É possível e necessário enfrentar o problema da crise de segurança pública.  Defender um programa capaz de construir maioria social, onde as disputas da prefeitura tem um lugar especial, para avançar no debate. 
Em primeiro lugar, combater às máfias, milícias urbanas e rurais, o ovo da serpente do bolsonarismo, os verdadeiros empresários do crime organizado; e, segundo lugar, ter uma linha democrática, que defenda dos direitos humanos no que diz respeito à segurança pública, como a luta pela câmeras nos uniformes de polícia, como medida inicial e urgente; Tarcisio cortou mais de 15 milhões de reais para sabotar o programa de câmeras da PM, como denunciaram setores do movimento negro; em terceiro lugar, avançar na luta pelo fim da guerra às drogas- tal guerra é o braço armado do neoliberalismo, “decisivo para o encarceramento em massa, a militarização das políticas de segurança e a paramilitarização”,  – como observou Gabriel Elias em artigo para Jacobina. E isso tudo articulado com uma agenda que defenda os direitos salariais e de organização das baixas patentes e dos praças, como fazem diversos deputados e deputados do PSOL. Para lutar por uma posição democrática dentro dos trabalhadores da segurança pública. 

A extrema-direita escolhe a polarização. Cabe a esquerda radical- mesmo que em unidade pontual com outros setores da sociedade- definir seu lugar, seu programa e sobretudo, a sua defesa instrasigente dos direitos  e necessidades da juventude negra e periférica. 


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