Zohran Mamdani: a retomada da campanha
Nessa coluna, debatemos a preparação da campanha de Mamdani e do DSA para as eleições da prefeitura de Nova York, que acontecerá em novembro.
Estados Unidos Hoje da Fundação Lauro Campos e Marielle Franco
Zohran Mamdani relançou sua campanha de rua no penúltimo domingo (17). Trata-se de uma poderosa rede de voluntários e militantes, que durante as prévias envolveu mais de 30 mil pessoas que bateram à porta de 1 milhão e meio de casas. A imensa maioria dos voluntários é jovem.
Já no primeiro dia, houve 15 pontos de concentração para campanha, abrangendo toda a cidade de Nova York. Em um deles, o agora candidato oficial do Partido Democrata discursou, agradecendo os presentes e reafirmando que a vitória eleitoral só pode ser conquistada com mobilização coletiva.
A retomada da campanha acontece em um momento-chave, faltando pouco mais de dois meses para a eleição. A pesquisa mais recente mostra Mamdani em primeiro lugar, com 42%, seguido de Andrew Cuomo (23%), o candidato derrotado nas prévias; Curtis Sliwa (16%), o candidato do Partido Republicano; e Eric Adams (9%), o atual prefeito.
Conforme esperado, os números apontam o favoritismo de Mamdani, em uma eleição de turno único. Mas o ambiente político está longe de ser estável.
Por ser antes um “socialista democrático” do que alguém identificado com o Partido Democrata, Mamdani não obteve até agora o apoio oficial de algumas figuras do establishment partidário, a começar por Kathleen Hochul, governadora do estado de Nova York. Outros senadores e deputados também hesitam em apoiar o socialista.
Por outro lado, a retórica de Donald Trump recrudesceu. O presidente autoritário já questionou o processo de obtenção de nacionalidade estadunidense por Mamdani, que nasceu em Uganda. Racista e xenófobo, defendeu a possibilidade de prender e deportar o candidato — medidas que não estão ao seu alcance. De olho no cenário, Andrew Cuomo insinuou que a candidatura republicana poderia ser desidratada por Trump, favorecendo a formação de uma maioria entre direita e extrema-direita para barrar Mamdani.
A trilha para o candidato socialista é pedregosa, portanto. E suas escolhas estratégicas estão só em parte definidas até aqui. De um lado, Mamdani contratou novos funcionários de campanha ligados ao Partido Democrata e anunciou apoios mais amplos, que vão além do raio de influência alcançado nas prévias. A estratégia faz sentido na medida em que ampliar a votação é um imperativo, mas também engloba escolhas e perigos que podem influenciar o futuro governo e o alcance de suas medidas.
A retórica, o carisma e o programa do candidato permanecem iguais. Sua voz em defesa da Palestina continua firme. É poderoso o ponto de partida de defender congelamento de aluguéis, tarifa zero, supermercados públicos subsidiados e atendimento universal e gratuito em creches. Mamdani insiste que um dos objetivos de sua campanha é deslocar o apoio e a consciência de parcelas da classe trabalhadora que recentemente votaram em Trump, conforme declarou em entrevista recente à revista The Nation.
A vitória eleitoral tem importância imensa. Mas o fato é que até mesmo as medidas mais elementares só podem se efetivar a partir de uma prefeitura que demonstre ter apoio social e disposição para luta. Para isso, o establishment deve seguir sendo desafiado, mesmo quando se chegar ao poder.
Semelhante tarefa é tanto mais incontornável quando se considera que Trump é o atual presidente e que, diante dele, não há estabilidade possível. A ofensiva que o governo federal tem realizado em Los Angeles e Washington obviamente chegará a Nova York.
Para construir a força social necessária para atravessar momentos imprevisíveis, tem importância o papel do Democratic Socialists of America (DSA), dos movimentos sociais, dos sindicatos, da juventude e das organizações de bairro.
Conduzir Mamdani à vitória a partir da conformação de uma frente eleitoral e militante é a tarefa número um. Levar a prefeitura a realizar o seu programa com independência e radicalidade, a tarefa número dois. E organizar uma força social anti-Trump com apelo de massas e relevância como alternativa — esta é a tarefa permanente.
O golpe do Partido Democrata em Minneapolis
Zohran Mamdani não foi o único integrante do DSA que venceu primárias para prefeitura no Partido Democrata em 2025. O senador no estado de Minnesota, Omar Fateh, repetiu o feito em Minneapolis, desbancando o atual prefeito da cidade, Jacob Frey. Jovem, negro, filho de imigrantes somalis e socialista democrático, Fateh surgiu como elemento surpresa nas prévias. E, assim como Mamdani, ele venceu.
Entretanto, ao contrário do que está ocorrendo em Nova York, em Minneapolis o Partido Democrata se insurgiu contra a decisão popular. Na quinta-feira (21), o partido retirou oficialmente o apoio a Omar Fateh, uma decisão golpista que gerou indignação na cidade. Mas o candidato do DSA permanecerá na disputa, desafiando o establishment. Por razões óbvias, essa queda de braço na maior cidade de Minnesota — onde George Floyd viveu e foi assassinado — ganha um peso ainda mais decisivo.