Futebol: de paixão popular a balcão de negócios do capital
Nos últimos tempos vivenciamos verdadeiros escândalos de corrupção e envolvimento com o crime organizado dos clubes de futebol
Foto: Julio Casares, ex-presidente do São Paulo Futebol Clube. (Redes sociais/Reprodução)
O futebol é um dos principais esportes do mundo, tendo expressão de massa social por todo o planeta. Eduardo Galeano via que o futebol nasce da liberdade e do desejo humano pela brincadeira, sendo, em sua essência, uma “festa pagã” que resiste à mecanização do mundo moderno. Ele defendia que o verdadeiro futebol é aquele que preserva a capacidade de assombro e o improviso, onde o jogador, movido pelo puro prazer de jogar, desafia a lógica do lucro e da eficiência para oferecer beleza ao espectador.
Para Galeano, o futebol funciona também como uma forma de rebeldia coletiva, um espaço onde o povo reivindica o seu direito inalienável à felicidade. Em um sistema que impõe a produtividade e o isolamento, o estádio torna-se o palco de uma comunhão mística, onde estranhos se abraçam e compartilham a mesma angústia e o mesmo êxtase. Essa união em torno da bola é um ato de resistência; é a prova de que, apesar da opressão e das desigualdades, o ser humano ainda busca o encontro com o outro no riso e na festa, fazendo do jogo uma celebração da vida em sua forma mais pura e comunitária.
Há algumas décadas, o futebol parou de ser aquele jogo de várzea ou paixão pura para virar um balcão de negócios do capital. A FIFA, que hoje conta com 209 associações-membros, superando em alcance a própria ONU e operando de forma global e centralizada, opera como um grande monopólio organizador desse processo. Ela promove o máximo da mercantilização com contratos bilionários que se enquadram nas dinâmicas do capitalismo moderno. Esses contratos envolvem a negociação com marcas de monopólio, como Ambev e Coca-Cola, e a venda dos direitos de transmissão, que garante uma massiva amplitude de visibilidade aos patrocinadores, assegurando um mercado extremamente lucrativo. E ainda a venda ilegal de paises que sediaram copas do mundo como na operação que investigou a corrupção da FIFA.
No cenário brasileiro, recentemente, o Corinthians em 2025 escanca o asfixiamento do capital fictício. O endividamento recorde, próximo a R$ 3 bilhões, e o processo de impeachment do seu presidente são sintomas da descaracterização do clube: a instituição deixa de ser um patrimônio coletivo de sua base operária para se tornar um ativo financeiro carregado por gestões que incorpora a especulação mercantil. A corrupção que permeia parcerias com capitais de origem obscura (como o setor de apostas) é o resultado do desespero institucional de uma entidade que tenta sobreviver em um mercado restrito sem possuir os meios de produção para tal.
Já o São Paulo Futebol Clube, ao iniciar 2026, revela uma face de alienação do trabalho esportivo em crise. Com passivos bilionários e restrições judiciais como o “transferban”, o clube evidencia a priorização do capital financeiro. Sob o comando de novas gestões que enfrentam o esvaziamento de poder, o clube deixa de ser um polo de desenvolvimento social para se tornar um mecanismo de transferência de renda para credores e bancos. O esporte é descaracterizado quando a eficiência administrativa é medida exclusivamente pela capacidade de sanar dívidas com o sistema bancário, em detrimento da função social e identitária da instituição.
O atleta, dentro desse sistema, sofre um processo de coisificação, sendo reduzido a mercadoria e força de trabalho alienada. Ele não é mais o sujeito da ação criativa, mas uma mercadoria cujo valor é fatiado entre empresários e fundos de investimento antes mesmo de atingir a maturidade profissional. A corrupção nas categorias de base é o reflexo da precarização do homem: o jovem é tratado como matéria-prima para exportação, inserido em uma divisão internacional do trabalho esportivo que drena o talento da periferia global (Brasil) para valorizar os ativos dos centros hegemônicos (Europa).
A elitização dos estádios completam o ciclo de alienação do torcedor, que é rebaixado à condição de consumidor passivo. O espaço público de convivência das massas é substituído por espaços de segregação econômica, onde o acesso ao jogo é mediado estritamente pelo poder aquisitivo. Essa descaracterização do futebol aponta para o fato de que a “beleza do jogo” é apenas a aparência estética que encobre uma essência de exploração e acumulação privada de riqueza
Assim, a corrupção no futebol não é um “acidente de percurso” ou apenas falta de caráter de alguns dirigentes; ela é o lubrificante que faz a engrenagem do capitalismo esportivo girar mais rápido. Em um sistema onde o lucro vale mais que o jogo, a corrupção entra em cena para derrubar as barreiras éticas e legais que atrasam o acúmulo de grana, permitindo que esquemas de lavagem de dinheiro, patrocínios obscuros e vendas de sedes de Copas do Mundo aconteçam por baixo dos panos. É ela quem garante que o futebol deixe de ser um patrimônio do povo para virar um balcão de negócios fechado, onde cartolas e investidores fatiam a paixão das massas para garantir que o capital continue circulando, mesmo que isso signifique destruir a história de clubes como Corinthians e São Paulo ou transformar a FIFA em um verdadeiro comitê de negócios corporativos.
A corrupção exerce uma função ideológica de controle. Ao focar os escândalos em figuras individuais, o sistema capitalista oculta que a estrutura das federações e clubes é desenhada para a manutenção do status quo. A crise ética é, portanto, insolúvel dentro dos marcos do capitalismo, pois a honestidade administrativa muitas vezes entra em conflito com as exigências de competitividade impostas pelo mercado. No futebol-mercadoria, o clube “honesto” corre o risco de ser financeiramente aniquilado pela concorrência desleal de capitais globais.
Com isso, o futebol deixa de ser um espaço de liberdade para se tornar um Aparelho Ideológico de Estado que naturaliza a competição, a exclusão e a fetichização do sucesso financeiro. A crise de credibilidade institucional da FIFA e dos grandes clubes brasileiros é o sintoma de um sistema que exauriu sua capacidade de conciliar a paixão popular com a extração infinita de lucro.
A única forma de superar a corrupção e a descaracterização do futebol seria a sua desmercantilização. Isso implicaria devolver a gestão dos clubes aos trabalhadores e à comunidade, retirando a lógica do lucro como motor da atividade esportiva. Enquanto a bola estiver sob o domínio do capital financeiro, ela continuará sendo o instrumento de uma fraude estrutural que aliena o produtor, o consumidor e o próprio jogo.