Minneapolis, uma batalha antifascista
Estamos diante de uma luta mundial contra o fascismo
Trump opera em duas frentes: quer destruir o marco das relações internacionais entre os países e mudar o regime nos Estados Unidos, colocando como alvo a classe trabalhadora imigrante e racializada. E para isso sua ponta de lança é o ICE (Serviço de Imigração e Alfândega dos EUA), que é um híbrido entre uma polícia política e uma milícia paraestatal, comparada pelo insuspeito Joe Rogan, influenciador pró-Trump, com a Gestapo da Alemanha Nazista. Tanto assim que Bovino, que acaba de ser afastado, personifica os gestos, trejeitos e trajes nazistas.
As chamadas cidades gêmeas – Minneapolis e St Paul – assistem uma verdadeira rebelião civil contra a política do ICE, mesmo diante de condições adversas meteorológicas. Em 23 de janeiro, há exata uma semana, sob um frio de -23 graus Celsius, as ruas de Minneapolis foram tomadas por uma histórica greve geral, impulsionada por sindicatos, grupos religiosos e associações comunitárias sob o slogan “Dia da Verdade e da Liberdade”.
Um choque cada vez maior
Em poucas semanas deste ano, a perspectiva de “choque” do projeto trumpista escalou. Tivemos o sequestro de Maduro e Cilia, as ameaças contra a Groenlândia, o cerco à Cuba e a consolidação do projeto genocida colonial em Gaza.
A contrapartida no terreno doméstico foi uma ofensiva política, militar e ideológica sobre os imigrantes, com o objetivo de endurecer o regime e vencer as eleições de meio período, previstas para o final do ano. Além da extrema violência, vitimando imigrantes, com o assassinato de dois ativistas, Rene Good e Alex Pelletier sendo transmitido pelas redes sociais, Trump divulga imagens de crianças sendo detidas e destila ódio racista em seu discurso. Na ONU atacou diversas comunidades migrantes, como a somaliana incitando a intolerância e perseguição.
Se Trump ataca, a resistência é exemplar. A mobilização de Minneapolis teve características de “greve geral”, com a presença de mais de 50 mil pessoas nas ruas e muitos comércios e locais de trabalho fechados, além de manifestações em diversas cidades. O assassinato de Alex, enfermeiro de 37 anos, um dia após o dia de protestos, gerou indignação, levando Trump a recuar, sob a ameaça de uma nova nacional de protestos que poderia desencadear um processo ainda mais radicalizado, visto que greves como a dos enfermeiros de Nova York poderiam empalmar com a bronca antiTrump. As cenas pareciam ensaiar uma guerra civil, com os componentes de enfrentamento aberto à repressão do ICE e traços importantes de auto-defesa frente as “batidas” contra os imigrantes.
Os Democratas, de forma tímida e tardia, também responderam, condenando o ICE, cogitando bloquear as atividades parlamentares nacionais. Mesmo um dos líderes republicanos, Chris Madel, anunciou à disputa de Minessota, tamanha repercussão da crise.
Minneapolis é especial, e condensa as contradições da situação. Tem uma forte tradição de luta da classe trabalhadora, como foi a grande greve dos caminhoneiros de 1934, por exemplo; e foi a cidade onde foi assassinado George Floyd, dando início ao movimento de rebelião Black Lives Matter, em 2020, fundamental para derrotar Trump.
A resistência no “coração do gigante”, isto é, nos Estados Unidos será fundamental na luta contra Trump. O antitrumpismo, convertido em fenômeno de massas, jogará papel decisivo na luta contra o neofascismo mundo afora. Como definiu Pedro Fuentes, “o neofascismo não surge de derrotas revolucionárias, mas de dentro do regime democrático-burguês por meio de eleições e abre situações reacionárias. Isso o torna mais instável do que o fascismo anterior”.
Minneapolis e o antifascismo no Brasil
Minneapolis é um exemplo para os lutadores que se preocupam com o crescimento do neofascismo no mundo. O ataque imperialista contra Venezuela é alarmante, sobretudo num ano onde teremos eleições decisivas na Colômbia e no Brasil.
E vai na contramão, da luta antitrumpista, as declarações de amizade que Lula travou com Trump, prometendo uma visita em breve. E sua ambiguidade quanto ao “Conselho da paz”, que é um instrumento colonial sobre a Palestina, é errada. Melhor faz Petro que alerta a necessidade da unidade dos países, a começar pelos não alinhados com Trump, como México e Brasil, para defender os direitos e a soberania dos povos.
O efeito imediato é que milhões estão discutindo a situação internacional, com uma consciência incipiente anti-imperialista e antifascista.
Nesse quadro, a realização da I Conferência Antifascista em Porto Alegre, será uma expressão do que pode ser feito. Combinar a unidade de ação entre diferentes setores antifascistas com a necessidade de impulsionar a mobilização como método prioritário para ganhar maioria social.
A extrema direita, com seus dirigentes como Nikolas Ferreira, apela à mobilização, de forma caricata, mas engajando milhares ao redor de sua caminhada em prol dos golpistas.
A resposta da esquerda deve ser articulando mobilização, fugindo à lógica meramente eleitoral e institucional, com a defesa de pautas concretas.